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29 de dezembro de 2015

Artigos do colóquio Narrativas Interativas

24 de dezembro de 2011

Bate o Sino: Um Natal Bem Brasileiro





Pariticipam do Clipe:
Abará - Salvador - Bahia
Ciço Gnomo - Juazeiro do Norte - Ceará
Ciço Zabumbeiro e Germano - Juazeiro - Ceará
Didi Moraes - Fortaleza - Ceará
Dú e Jó - Salvador- Bahia
Juninho Costa - Salvador - Bahia
Lívia Mattos - Salvador - Bahia
Maneiro Pau do Mestre Raimundo - Juazeiro - Ceará
Mestre Bigode e Antonio Contra Mestre - Juazeiro do Norte - Ceará
Mestre Cirilo do Maneiro Pau - Crato - Ceará
Percussionistas do Candeal - Salvador - Bahia
Palhaça Rubra - São Paulo
Trio de Sopros - São Luiz do Piratininga - São Paulo
Zé Matias do Cavaco - Juazeiro do Norte - Ceará

Direção: Betão Aguiar
Produção Musical: Betão Aguiar e Chico Salem
Direção de Fotografia e Câmera: Arthur Roessle e Carina Zaratin Direção de Produção: Mara Zeyn
Roteiro e Montagem: Haná Vaisman

15 de setembro de 2009

Cinema brasileiro cresce 163%, mas público só aumenta 6,6%

Dados da Agência Nacional do Cinema indicam crescimento acelerado da indústria cinematográfica, mas bilheteria não segue a mesma tendência

A produção de filmes nacionais entre 2001 e 2008 aumentou 163%, mas o público desses mesmos filmes cresceu apenas 6,6%. Os cálculos feitos a partir de dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine) mostram que o crescimento da indústria cinematográfica não é acompanhado pelo número de pagantes de ingressos.

Em 2001, foram produzidos 30 filmes nacionais, enquanto em 2008 o número foi de 79. Os dados de 2009 ainda não foram contabilizados. Desde o início do século 21, o principal salto ocorreu entre 2005 e 2006, quando, respectivamente, foram filmados 45 e 72 filmes.

O público, por outro lado, cresceu menos. 7.948.065 milhões de pessoas assistiram aos filmes brasileiros em 2001, enquanto 8.476.129 foram com o mesmo motivo aos cinemas em 2008. O crescimento foi de apenas 6,6 %, representando um número abaixo do melhor ano do cinema nacional no novo milênio.

O melhor ano do século para o cinema nacional, até agora, foi 2003. Mais de 22 milhões de pessoas viram as produções realizadas por estúdios brasileiros, ou seja, 2008 representa uma queda de 61% em relação ao melhor ano. Depois do pico de 2003, a curva de público caiu e estabilizou. No entanto, em 2008 configurou-se um crescimento de 159% em relação a 1995, considerado o ano da retomada e marcado pelo filme “Carlota Joaquina”, de Carla Camurati.


Depois da TV foi a vez das Organizações Globo encamparem com o seu monopólio o mercado cinematográfico brasileiro

O sucesso de 2003 pode ser explicado pelo alto número de lançamentos de sucesso. Sete produções superaram um milhão de espectadores. São elas “Carandiru”, “Lisbela e o Prisioneiro”, “Os Normais”, “Maria, mãe do filho de Deus”, “Xuxa abracadabra”, “Didi, o cupido Trapalhão” e “Deus é brasileiro”. Os sete longas-metragens foram produzidos pela Globo Filmes, que lidera o mercado nacional.

Desconsiderando a variação, mas apenas o ano de 2001 e 2008, é como se, hipoteticamente, cada novo filme lançado no período aumentasse o público nacional em apenas 10.785 mil pessoas.

A cadeia produtiva também possui uma variação de crescimento maior no período. As distribuidoras de filmes nacionais aumentaram em 220% e o número de salas cresceu 82,25%, quando comparamos 2001 com 2008.

Causas e efeitos

O diretor José Alvarenga Jr., que estreiou "Os Normais 2" (foto acima) em agosto, acredita que um dos fatores da variação menor do público em relação à produção são as opções de restrição da linguagem cinematográfica que alguns cineastas fazem. Segundo ele, nem todos os realizadores têm o prazer de falar com o grande público.

“Eu acho, por exemplo, que apesar das boas intenções, um filme por ano se comunicou com a massa de 2003 para cá. Um! Mas é muito pouco. Para você ter um público que descobre que o cinema brasileiro é um grande prazer, você tem que ter quatro, cinco filmes encadeados. É isso que faz o cinema americano ser bom, porque daí você faz a sua escolha”, opina Alvarenga. Ele completa: “Falta para a gente ainda essa quantidade de filmes que tenham esse perfil de querer dialogar com o público grande”.

Ismail Xavier (foto abaixo), professor do curso de Audiovisual da USP, aponta outras causas para o público não crescer. “Há vários fatores: domínio do mercado por Hollywood desde os anos 1920; hábitos do público; verbas necessárias à publicidade, cada vez maiores; aspectos da vida urbana (insegurança) que mantêm as pessoas em casa; preço do ingresso do cinema – hoje, uma diversão de classe média”, afirma.

No entanto, o professor acredita que “a distribuição é mesmo o maior gargalo, mas a exibição também é um problema – muitas cidades sem cinema e a concentração dos cinemas numa certa área nas grandes cidades”.

Álvaro de Carvalho Neto, produtor do filme “Manhã Transfigurada”, fala, por outro lado, que a questão está nas artimanhas da lei de Incentivo: “tem muito autor que prefere pegar o dinheiro do governo, filmar e não distribuir o filme. Ele não vai ter prejuízo”.

Ismail não acredita que esta seja uma prática comum. Para ele, “o fato de um filme já estar pago, não significa que o cineasta não se interessa pela exibição, pois isto seria suicídio cultural”. Alvarenga concorda, pois, para ele, um diretor interessado apenas em ganhar dinheiro, não fará um filme com qualidade.

Incentivo

O vale-cultura, projeto de lei do governo Lula, que pretende levar a população de baixa renda aos espetáculos culturais, pode ser uma saída para aumento do público do cinema. Os trabalhadores até cinco salários-mínimos terão um cartão mensal de R$ 50 que poderá ser gasto com cinema, teatro, CDs ou DVDs.

“O vale-cultura é fundamental, porque um dos problemas do cinema brasileiro é o ingresso que é caro para a classe desprivilegiada. Como essa classe consegue ter acesso ao cinema? “Divã”, que eu fiz recente, está pirateado e você encontra por R$ 4 o DVD. Esse público tem acesso à cultura de uma maneira distorcida, o que é ruim para a cadeia toda, é ruim para mim como autor que não ganha copyright para alguém estar ganhando em cima de mim. O vale-cultura reequilibra um pouco esse jogo, as pessoas passam a ter acesso ao conteúdo com a qualidade que ele foi pensado”, defende Alvarenga.
Abril Online, Rafael Kato, 28/08/2009.

22 de julho de 2007

A chamada snack culture surge para definir o consumo de entretenimento instântaneo

Vitor Lopes
vlopes@redegazeta.com.br
A Gazeta, Vitória, ES 22/07/2007

O que há em comum entre a pintura feita pelos homens das cavernas há mais de 15 mil anos com as batatas chips, as tatuagens, o canal de televisão MTV, a música digital e o site YouTube? Manifestações aparentemente tão distintas estão agora reunidas sob um mesmo conceito, a snack culture, ou "cultura em pedaços".

O novo termo, difundido pela revista norte-americana "Wired" em março deste ano, abrange produtos culturais que são assimilados cada vez mais em pequenas porções pelo público, da comida instantânea ao comportamento pessoal, passando, principalmente, pelo modo como o usuário consome arte e cultura por meio da Internet.

Como exemplos, há a publicação de pequenos vídeos, os programas de rádio de curta duração, a proliferação de textos curtos em blogs, a enxurrada de site de fotos e a publicação de notícias cada vez mais fragmentadas pelos portais de comunicação.

Tendência. O produtor de eventos Rike Soares sabe bem o que significa o conceito. Idealizador da Antimofo – produtora de festas da Capital –, ele começou a baixar músicas em arquivo digital MP3 há quase 10 anos. O costume de comprar discos e ouvir por completo tudo o que uma banda quer mostrar deu lugar a audições de canções isoladas. "Isso de ouvir o álbum inteiro já não existe mais. A tendência é ouvir picado mesmo. Consumir em pedaços traz possibilidades de ter mais informação", comenta.

Para o doutor em Comunicação e Cultura e professor da Ufes, Fábio Malini, a cultura em pedaços só conseguiu se difundir devido à Internet, espaço por excelência dos recortes da comunicação e da cultura. "Se você falar que o mundo vai acabar pelo rádio, as pessoas se mobilizam em torno disso. Se o anúncio for pela TV, todo mundo vai querer ver. Na Internet, o mundo que vai acabar é produzido. As pessoas vão fazer um blog, uma música e disponibilizá-los. A Internet representa a desmassificação da cultura", afirma.


Um dos mais recentes exemplos de snack culture é o Projeto The 1 Second Film (em inglês, O Filme de um Segundo), que produz, com o apoio de milhares de colaboradores, um filme com um segundo de duração e 90 minutos de créditos.

"No campo da comunicação de massa, existem ainda duas barreiras importantes que essas iniciativas comunitárias acabam quebrando: o livre acesso à informação e à participação e, sobretudo, a criação de uma comunicação alternativa", analisa o pós-doutor em Cinema e editor do site Intermidias (www.intermidias.com) Hudson Moura.

A professora da Universidade do Algarve (Portugal) Gabriela Borges acredita que a snack culture pode ser um modismo que reflete o comportamento social das últimas décadas. "Esse fenômeno está relacionado com a própria lógica da sociedade globalizada, porque os produtos culturais são feitos para serem rapidamente consumidos, a fim de que novos sejam introduzidos no mercado. Em uma sociedade que enaltece a superficialidade, a snack culture tem seu espaço garantido", sentencia.

Fenômeno começa nos anos 80

A especialista em comunicação pela Internet Pollyana Ferrari acredita que a Web, "como meio orgânico que é, propicia a proliferação de fenômenos como a snack culture". Autora do livro "Hipertexto, Hipermídia" (Editora Contexto), ela afirma que "o usuário atual se realiza por meio de pequenos recortes de sensações que memorizou, interpretando-as posteriormente por meio de flashbacks da memória."

Ainda segundo a especialista, essa mudança não ocorre apenas na Internet. "É um fenômeno social. A mania atual de colecionar beijos em festas é outro exemplo", diz.

Para Pollyana, só é possível entender essas transformações se a análise voltar os olhos para a década de 1980. "Nessa época, houve uma intensificação de misturas entre linguagens e meios, resultando em um ‘caldo’ cultural híbrido recheado de videocassetes, aparelhos do tipo ‘walkman’ – tudo devidamente embalado pela notável indústria de videoclipes e videogames. O surgimento do controle remoto também foi um marco nessa mudança de comportamento".

Para a especialista, o único ponto negativo da proliferação da snack culture é a falta de profundidade em relação aos assuntos abordados. "Mas o lado positivo é o faça-você-mesmo, a ‘remixagem’ diária da sociedade. Estamos vivenciando o fim da autoria. Não existe, na música, na literatura e nas artes em geral, uma grande descoberta, mas sim vários autores juntos produzindo uma releitura de algo", conclui.

Leia as outras matérias e entrevistas sobre Snack Culture aqui


22 de junho de 2007

Sgt. Peppers e a Snack Culture

Acredito que este texto da jornalista Regina Augusto possa nos ajudar no debate sobre a Cultura Snack. Leia abaixo o trecho do editorial onde ela faz uma análise sobre o assunto.

Regina Augusto
Revista Meio e Mensagem, editorial, junho 2007

[...] Vivemos em uma época na qual o volume de informações e de conteúdo, o acesso a ele e principalmente sua produção são absolutamente escancarados e democráticos, tornando relativas e pasteurizadas as mais diversas manifestações culturais. Não por acaso, a indústria do entretenimento é a que mais cresce no mundo.

Essa configuração dá uma nova dimensão ao próprio conceito de entretenimento. É a tal da Snack Culture, expressão cunhada com muita propriedade pela revista Wired na edição de março. Longas-metragens, programas de TV, músicas e games agora são consumidos e embalados como se fossem petiscos, de forma instantânea, dando uma nova face à cultura pop.

Esse fenômeno já havia sido sinalizado nos anos 80 pelo sociólogo francês Gilles Lipovetsky — autor de obras antológicas, como A Era do Vazio e O Império do Efêmero —, que é um dos principais teóricos ocidentais a observar a fugacidade das manifestações culturais, sua relação com a sociedade de consumo e as diversas transformações que esse processo tem provocado.

Esse cenário possibilita, por exemplo, que o game Guitar Hero, uma espécie de karaokê de guitarristas, inspire a recente formação de uma banda com o mesmo nome, em São Francisco (EUA). Na melhor versão da realidade imitando o mundo virtual, o grupo de amigos, no lugar de guitarras e baixos “normais”, usa como instrumentos os controles do Guitar Hero. Um software desenvolvido pelo líder, Owen Grace, um típico “geek”, dá corpo às notas tocadas nos instrumentos. Felizmente, o vocalista e a bateria são “de verdade”.

Leia na íntegra o editorial aqui

18 de junho de 2007

Cultura em Pedaços ou a Cultura dos Snacks?

Em entrevista à Daniela Arrais do jornal Folha de São Paulo, em abril passado, eu e Gabriela Borges discutimos sobre a nova mania da internet: a “snack culture”, traduzido pelo jornal como “cultura em pedaços”. A matéria foi publicada neste final de semana pelo caderno Ilustrada e intitula-se “Cultura em pedaços é febre na internet”. O termo "renasce" à partir do Minifesto Snack Attack publicado em março pela revista americana Wired, especializada em novas tecnologias e jogos eletrônicos. Ela chama a atenção para o entretenimento de consumo rápido ter virado uma tendência na sociedade contemporânea, através dos ipods, blogs, youtubes (vídeos de dez minutos no máximo), sites de downloads de arquivos (filmes, fotos, textos) ilegais ou legais como o iTunes da Apple, entre outros. Segundo a jornalista Nancy Miller, a geração New Age dos aparatos snacks já faz parte do nosso cotidiano há um bom tempo.

“Música, televisão, jogos, filmes, moda: agora nós devoramos nossa cultura pop da mesma maneira que nós apreciamos os doces e os chips – em pequenos formatos, convenientemente empacotados, e feitos para serem facilmente degustados com a máxima freqüência e velocidade. Esta é a cultura snack - e oh boy, como ela é apetitosa (para não dizer o quanto vicia). [...] Hoje a mídia snacking está no nosso dia-a-dia. De manhã lemos as notícias, respondemos e-mails nos nossos computadores portáteis. No trabalho surfamos o dia inteiro através de vídeos e blogs. [...] E no meio tempo, durante aqueles minutos em que o nosso telefone portátil carrega algumas chamadas, entram em ação um jogo de 30-segundos no Nintendo DS, um web-episódio de 60 segundos no celular, um podcast de três minutos no MP3 player.” Wired, ed. 15.3, Março 2007.

A cultura snack está cada vez mais popular e tomando maior espaço nas mídias, seja como meio de divulgação, manipulação, discussão ou mesmo de democratização da informação e da cultura. Veja o exemplo das imagens do presidente Nicolas Sarkozy, durante o encontro do G8, censuradas por praticamente todas as redes de televisão da França mas disponível “pour toujours” na internet.

Para aumentar o debate e criar novos pontos de discussão publicamos abaixo a versão completa de nossas entrevistas. O que você acha... a snack cultura veio para ficar? Ela aliena mais que democratiza a informação e a cultura? Podemos estender o termo às mídias comunicacionais de informação e falarmos de "jornalismo snack"?
Hudson Moura



Folha de São Paulo - Por que o entretenimento instantâneo virou febre?

Gabriela Borges – A questão do entretenimento instantâneo ter virado febre está relacionada com a lógica da sociedade de consumo e com a sua própria concepção, ou seja, os produtos culturais são feitos para serem rapidamente consumidos a fim de que novos sejam produzidos e introduzidos no mercado. E, com o acelerado desenvolvimento tecnológico, mais produtos culturais são disponibilizados.

Hudson Moura – Precisamos pensar em interatividade, troca, discussões. Pode ser que o formato por um lado seja fraco ou superficial mas por outro ele possibilita uma série de trocas e um dinamismo, que de uma maneira tradicional, isto não seria possível. Nosso tempo tanto quanto nossa ansiedade não nos permite esperar um amigo ler a obra de Camões ou a coletânea de Proust, para conversarmos ou debatermos sobre o assunto. Hoje em dia até mesmo duas horas de filme está ficando longo. E, por quê não transformar algo enfadonho em algo dinâmico e mais à nossa cara? Como aquele minuto que a mocinha beija o mocinho; ou aquele segundo em que Justin Timbelarke tira o sutiã de Janet Jackson; ou mesmo rever aquelas cenas mais espetaculares de 007 várias vezes. Se quisermos nos embevecermos de “high culture” e transformá-lo num evento para o verão vamos ver o novo filme do Scorsese ou do James Bond durante quase três horas! Paradoxo? Talvez, mas com certeza sairemos “extasiados” com tantas revira-voltas do filme. Se o meio ambiente vive a era do reciclagem, a cultura pop vive o momento do 'replay'.

FSP - Você acha que as formas tradicionais de entretenimento (cinema, CDs) estão sendo substituídas por novas fórmulas? Por exemplo: você acha que as pessoas que vêem uma versão reduzida de "Pulp Fiction" no YouTube perdem o interesse por assistir ao filme inteiro?

GB – Não acho que as formas tradicionais de entretenimento estão sendo necessariamente substituídas pelas novas. Na verdade, acho que as novas fórmulas funcionam como outras alternativas e outras possibilidades de ocupação do tempo livre. Não acredito que as pessoas deixem de assistir aos filmes pelo fato de terem visto clips no You Tube, muito pelo contrário, este meio pode ser usado de modo promocional, as pessoas podem se interessar em assisti-lo justamente por terem visto a versão reduzida.

Quando uma nova tecnologia aparece no mercado, a tendência é achar que ela substituirá a antiga, isso já aconteceu com o cinema quando apareceu a televisão e agora o mesmo acontece com o surgimento da internet. O discurso é o mesmo, entretanto nenhuma destas formas tradicionais morreram, muito pelo contrário, continuam a desenvolver as suas linguagens. Acho que as novas linguagens que nascem copiam inevitavelmente as antigas, nesse caso, as potencialidades do meio digital ainda estão começando a ser desenvolvidas. Será muito interessante perceber o que os novos meios podem trazer de realmente novo, ou seja, no sentido de proporcionar experiências originais.

HM – Jamais, tudo se recicla se adapta... o cinema de hoje não é mais o mesmo de cem anos atrás... com entreatos e tudo mais. Hoje os enquadramentos e movimentos de planos de um filme são ágeis e de fácil adaptação à telinha da tv. Isto quer dizer, que o mesmo filme é visto no cinema, no vídeo, na tv, no wallpaper, etc. e se transforma num evento. Esses fenômenos midiáticos se prolongam no tempo muito mais do que antes, eles podem ser consumidos de uma maneira muito mais dinâmica e ter uma vida duradoura e prolongada. O produto é o mesmo? Não. Ele se compõe e se decompõe em sub-produtos numa rede hipertextual e intertextual sem fim.

FSP - Qual o impacto para a indústria dessa nova febre de consumir cultura aos pedaços?

GB - Acho que temos dois fenômenos relacionados, ou seja, a indústria disponibiliza cultura aos pedaços ao mesmo tempo em que as pessoas se interessam pelos novos produtos que estão sendo lançados. Com o desenvolvimento tecnológico pelo qual estamos atravessando, acredito que mais e novos produtos culturais instantâneos serão lançados, ainda mais porque muitas vezes estes são subprodutos que aumentam o leque de ofertas de um determinado produto. Podemos pensar por exemplo nas séries de TV americanas, ou nos filmes destinados ao mercado infantil que oferece um grande pacote de produtos juntamente com o produto audiovisual em si.

HM - Antes de tudo, pessoalmente não acho que a cultura exista em pedaços, esta que se nomeia de snack é uma outra. Ou seja, conteúdo é forma, e forma é conteúdo. Snack cultura está mais para o entretenimento e o consumo rápido de um prazer casual e de uma informação “desinteressada”. Aquela que não é necessariamente almejada. Desta forma, cada uma tem seu valor. O perigo é pensar que se informa ou que se educa através desses conta-gotas.

Tudo se vende e é passível de transformação. A indústria não tem e nunca terá nenhuma dificuldade para se adaptar e vender o que quiser, não é a toa que empresas como Youtube são orçadas em bilhões de dólares. O que precisamos pensar é nos processos de educação e de informação. Precisamos transformar esses snacks em orgânico, biológico com alto teor nutritivo! Não é maravilhoso ver Monalisa de Da Vinci ainda em voga e competindo com “madonnas-britneys”?

Nós enquanto sociedade precisamos estar alerta sobre a qualidade e defeitos desses snacks, e tornar seus efeitos negativos em positivos. As pessoas são ávidas por consumo... se dermos a oportunidade de escolha de bons produtos elas poderão de forma democrática e livre poder escolher o que lhes convier de melhor. O problema é quando esta alternativa não existe.

Quando somos obrigados a repetir uma só imagem-produto ad-infinitum!

FSP – Quais os aspectos positivos e negativos da "snack culture"?

GB - Positivos: a criação de um novo repertório cultural com características próprias, que por sua vez proporcionará desenvolvimentos culturais idiossincráticos. Diversidade de produtos culturais em oferta.

Negativos: a superficialidade e a instantaneidade fazem com que não haja tempo para uma maior reflexão sobre o que está sendo consumido. Por exemplo, na universidade hoje, notamos que os jovens não têm paciência para ler textos muito longos e nem conseguem ficar atentos por muito tempo. Acho que isso se deve não apenas ao fato desta geração ter sido criada diante da televisão, mas também porque têm mais acesso à informação e por isso estão mais acostumados a consumir aos pedaços, não se atêem aos pormenores e não conseguem se concentrar para aprofundar as questões e refletir sobre elas.

HM – O que é positivo é a interatividade e a democracia dos meios de comunicação. Nós nos comunicamos muito mais que há trinta anos atrás.... através de blogs, orkut, sites de encontros amorosos ou sexuais, troca de vídeos e fotos caseiras,... essas comunidades virtuais trocam experiências e se transformam num meio de expressão que é muito saudável e que talvez economize bastante grana em terapias. O grande desafio é saber lidar e se situar emocionalmente diante dessas comunidades e como membro ativo dela, o tipo de responsabilidade que temos com o outro e com as nossas próprias expectativas. Pois, elas vão nos confundir entre o pessoal e impessoal... elas têm a tendência de serem voláteis e passageiras... não podemos contar com elas como fontes seguras e sólidas, como nossa família por exemplo.

Através dessas comunidades virtuais, a comunicação não é a mesma, é uma outra que vai além do que imaginamos. Estamos apenas no começo de uma era essencialmente virtual.

Cada vez mais nos reconhecemos e nos identificamos melhor com o outro através de sua “imagem-personalidade virtual-reprodução técnica” do que pessoalmente em carne e osso. Para isso estamos nos instruindo e nos aperfeiçoando, contudo num nível técnico. Não é mais a maneira como eu falo, mas como interajo com o teclado do meu computador, não é mais o meu jeito de olhar que seduz o outro ou transmite segurança, mas a minha sensibilidade maquínica, como eu enquadro ou componho meus planos ou como me comporto diante de uma câmera.

Meus vizinhos hoje tem a oportunidade ao mesmo tempo de se comunicar comigo quanto com o mundo todo. A idéia de comunidade adquire um outro sentido além dos tradicionais espaços-tempos.


FSP – Esses pedaços de cultura não tornam uma obra superficial? As pessoas deixam de refletir sobre os conteúdos?

GB – Não acho que serão os pedaços de cultura que tornarão uma obra superficial, quero dizer, depende do que está considerando uma obra. Se uma obra for um filme por exemplo, os pedaços de cultura servirão para chamar a atenção sobre o filme. Agora se o próprio vídeo no Youtube for uma obra, então a sua própria essência será breve, superficial ou não, depende do caso. Ou seja, não é porque é um pedaço de cultura que é necessariamente superficial, depende do caso.

De uma certa forma as pessoas podem deixar de refletir sobre os conteúdos a partir do referencial do que é reflexão que temos como parâmetro neste momento. Ao mesmo tempo, acredito que será gerada uma nova dinâmica que terá frutos diferenciados. Talvez a reflexão sobre os conteúdos comece a ser feita de novos modos, por exemplo, percebemos que a intertextualidade presente na maior parte destes produtos culturais faz com que o repertório, principalmente dos jovens, seja mais variado, ainda que mais superficial.

Por outro lado, não é o fato das pessoas não refletirem sobre uma obra que faz com que ela seja superficial. Uma obra pode ou não ser superficial e, independente disso, pode fazer com que as pessoas reflitam sobre o seu conteúdo ou não. Temos muitos exemplos de filmes que não são superficiais e que estão inseridos dentro de um mercado global que oferece os seus subprodutos da cultura aos pedaços.

HM – Volto a insistir contra o termo “pedaço” pois entende-se que exista algo faltante... acho melhor definir como porção... o quer dizer um pouco, uma amostra, etc. Por exemplo, se um filme é realmente bom ele vai sobreviver e será considerado bom com qualquer cena que privilegiamos. No entanto, se pensarmos num pedaço de um filme, quer dizer que precisaremos obrigatoriamente de seu complemento. Uma certa vez, Affonso Romano de Sant’Anna disse que não se precisa comer o ovo inteiro para sabermos se o ovo é bom ou ruim (ele dizia isto em analogia ao livro), e acrescento dizendo que, mesmo que suas partes sejam desiguais – diferentes. Acredito que valha a mesma metáfora, para a “snack cultura”, acho que teremos qualidade se assim ela o tiver. Existem tantos livros e filmes que não valem à pena de lê-los ou assisti-los por mais longos que eles sejam.



Gabriela Borges é professora de comunicação da Universidade do Algarve e editora da Revista Intermídias. Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP com pós-doutorado em Televisão de Qualidade pela Universidade do Algarve, Portugal.

Hudson Moura é editor-responsável da Revista Intermídias e pesquisador do Centro de Estudos da Oralidade – PUC-SP. PhD em Cinema e Literatura pela Universidade de Montreal com Pós-doutorado em Cinema Intercultural pela Universidade Simon Fraser, Vancouver, Canadá.

Cultura em pedaços é febre na internet

Folha de São Paulo - Ilustrada, pág. 8
São Paulo, domingo, 17 de junho de 2007

Filmes, músicas, séries de TV e gibis ganham tamanho reduzido para consumo instantâneo, batizado de "snack culture'

Para pesquisador, produtos são consumidos de maneira mais dinâmica; Marcelo Tas diz que "pedaços" ajudam a decidir como gastar o tempo

DANIELA ARRAIS
ESTÊVÃO BERTONI
DA REPORTAGEM LOCAL

Nada de refrãos repetitivos e solos infindáveis. Ao sintonizar o computador na rádio Sass (www.radiosass.com), o ouvinte escuta 30 músicas em uma hora -em uma rádio tradicional, ele não ouviria mais de 12. Como? As faixas são picotadas, e os intervalos não chegam a um minuto e meio.

A rádio on-line representa uma nova forma de consumo de cultura, a "snack culture" (cultura do aperitivo, ao pé da letra). Em boa parte graças à internet, o entretenimento instantâneo vem tomando forma com a proliferação de pequenas doses de diversão.

O termo, difundido pela revista "Wired", especializada em tecnologia, inclui de "snacktones" (músicas de dez a 30 segundos compostas especialmente para tocar em celulares) e minigibis a filmes de ginástica com menos de dois minutos (para serem assistidos pelo iPod na academia) e versões reduzidas de clássicos do cinema, como "Pulp Fiction" (1994), de Quentin Tarantino.

"A gente vive em uma época em que a velocidade é supervalorizada. Buscamos uma internet mais veloz, dirigimos mais rápido, comemos fast-food. Queremos mais estímulo do que antes", diz o DJ George Gimarc, idealizador da rádio Sass.

Tanta sede pelo entretenimento instantâneo é conseqüência da sociedade de consumo, segundo Gabriela Borges, professora de ciências da comunicação da Universidade do Algarve, em Portugal. "Os produtos culturais são feitos para serem rapidamente consumidos a fim de que novos sejam produzidos", afirma.

Já o jornalista, apresentador e diretor de TV Marcelo Tas diz acreditar que a instantaneidade causada pela revolução digital tem efeitos mais amplos. "A febre não atinge só o entretenimento, mas a informação, a comunicação e até a vida afetiva."

Para Tas, a "snack culture" funciona como "um índice para o internauta decidir onde vai gastar seu tempo".

"Ele [consumidor] tem o poder de decisão na mão. Pesquisa preços antes de comprar, zapeia pelos diversos canais de informação e entretenimento antes de decidir onde vai investir sua atenção", diz.

O músico Gustavo Mini Bittencourt, da banda gaúcha Walverdes, também ressalta o papel do consumidor. "O fã é cada vez mais editor da obra do artista. Tem tanto o cara que curte ver o filme inteiro quanto o que assiste só a trailers. No meio, tem o cara que gosta de "mashupar" [misturar obras diferentes para obter um novo resultado] trailers."

Benefícios
Criador da rádio Sass, Gimarc diz que as versões enxutas das músicas trazem benefícios para músicos e gravadoras. "Se a minha rádio toca duas vezes mais do que as outras estações, ela venderá o dobro."

Na mesma sintonia, Steve Ellis, fundador do programa de licenciamento on-line de música independente Pump Audio (www.pumpaudio.com), afirma enxergar na "snack culture" uma grande possibilidade de fazer negócios.

Só em 2006, o Pump Audio, que vende trechos de músicas para programas de TV, filmes, sites e jogos de videogame desde 2001, pagou US$ 125 mil (cerca de R$ 241 mil) a artistas independentes por suas obras.

Superficialidade
O aumento na diversidade de produtos culturais é um dos pontos positivos da "snack culture", como aponta Borges. Mas ela alerta: "A superficialidade e a instantaneidade fazem com que não haja tempo para uma maior reflexão sobre o que está sendo consumido".

Para Hudson Moura, editor da revista Intermídias (www.intermidias.com) e pesquisador do Centro de Estudos da Oralidade da PUC-SP, mesmo que o produto picotado deixe de ser o mesmo, pode ter caráter permanente. "Esses produtos podem ser consumidos de uma maneira muito mais dinâmica e ter uma vida duradoura e prolongada."

Disponível no site YouTube, a versão reduzida de "Pulp Fiction", com menos de dois minutos, aumenta a vida útil e o interesse pelo filme, segundo Marcelo Tas. "A versão curta mostra que o filme, lançado no distante 1994, continua atiçando o imaginário da molecada. É uma prova da atenção e respeito dos fãs."

O músico Bittencourt reconhece uma possível superficialidade, mas não a vê com tanto pessimismo. "Cabe olhar pra isso com atenção e curiosidade, e não com uma atitude ranzinza do tipo "hoje em dia é tudo mais superficial'", diz.


http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1706200718.htm

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