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5 de maio de 2012

Contradições e Conflitos do Hotdocs 2012


Jackie Siegel (segurando um dos seus oito filhos)


A Rainha de Versailles (Queen of Versailles, USA, 2012), documentário dirigido por Lauren Greenfield, bateu o recorde de bilheteria no tradicional cinema Bloor, um dos maiores e antigos cinemas de Toronto e recentemente reformado pelo Hotdocs. O filme é uma dessas preciosidades escondidas atrás de um título pomposo e à primeira vista superficial. O trabalho da documentarista Greenfield se revela muito mais atento e minucioso e nos revela uma personagem rica de contradições, manieirismos e sutilezas. Nunca sabemos até onde a socialite Jackie Siegel é completamente verdadeira diante da câmera ou o quanto ela constrói uma "persona" que não tem nada de superficial e faz frente aos grandes personagens que o cinema de Hollywood é capaz de produzir.

Podemos falar também neste documentário do fator sorte, a intenção inicial da diretora Greenfield, antiga fotógrafa da revista Elle, era fazer um filme sobre a construção na Flórida da maior residência dos Estados Unidos, inspirada no palácio de Versailles e com vista para a Disneylândia, no valor de mais de 100 milhões de dólares. No entanto, com a confiança que adquiriu com os entrevistados, Jackie e seu marido David Siegel, ela pôde testemunhar um dos momentos mais dramáticos da história dos Estados Unidos: a queda da economia americana de 2008. As consequências para essa família – considerada como uma das mais poderosas e que foi capaz de decidir as eleições presidenciais a favor de George W. Bush – foram catastróficas. Nesta recessão e adaptação aos altos e baixos, as contradições humanas ganham volume e se ajustam às contradições e conflitos financeiros que se seguem. Tanto o maior hotel-resort de Las Vegas vem abaixo quanto o palacete semi-construído da Flórida se revela como um dos maiores elefantes brancos e (sem-querer) símbolo desta derrocada econômica. A compreensão da mentalidade do povo americano, entre o começo humilde à acensão à riqueza "absurda", tanto quanto os valores "humanos" que o dinheiro pode comprar se mostram à nu neste filme imperdível.

"Ela compra compulsivamente e coleciona tudo... até filhos," diz o marido. "Se eu não tivesse babá eu teria um ou no máximo dois filhos, mas com babá tudo fica fácil," contrapõe Jackie, na época que havia à sua disposição uma babá para cada filho.




E-Phil (manifestante) e Emad Burnat

(documentarista à direita com a camera com a bandeira do Brasil)
Do outro lado do mundo, segue uma guerra com proporções absolutamente incompreensíveis. O conflito na Faixa de Gaza entre Israel e Palestina dura muito tempo diante de uma sociedade mundial estarrecida e impotente. Sem saber como definir quem é o herói e quem é o vilão, os dois lados desta guerra acabam se encontrando no filme 5 Câmeras Quebradas (5 Broken Cameras / Hams Cameraten Maksura / Hamesh Matzlemot Shvurot, Israel/Palestina, 2012) dos documentaristas israelense Guy Davidi e palestino Emad Burnat. Emad é um jornalista testemunha de seu tempo e de sua própria miséria. Ele encontrou sua força de resistência e de luta através do registro videográfico das demonstrações palestinas contra a invasão israelense na cidade de Bil'al.

As câmeras são vítimas deste testemunho e vão se quebrando e sendo substituídas ao longo de cinco anos. Em muitos casos elas receberam um tiro certeiro no meio do "olho" de suas lentes, e uma com a bandeira brasileira colada no seu "corpo" ainda guarda a bala no seu interior como testemunha da violênciae da milícia israelense.

Israel decretou que a cidade de Bil'al é uma zona militar e todos palestinos que insistirem a continuar em suas casas seão considerados infratores e invasores. Para aumentar o caos e fazer valer a lei os militares invadem casas durante à noite, criando terror na população e constrõem muros que impedem a livre circulação dos habitantes. Do outro lado do muro, as oliveiras são queimadas e arrancadas para dar lugar à conjuntos habitacionais. Emad é casado com uma brasileira, e assim vemos o nome e os símbolos nacionais do Brasil por todos os lados da casa e roupas dos familiares, e ouvimos vez por outra umas palavras em português como: Minha Vida. Emad filma o tempo todo mas com um status ambíguo entre jornalista e manifestante, a milícia sempre acaba por prendê-lo, já que ele consegue filmar e testemunhar fatos e atrocidades que nenhuma outra câmera jamais pôde registrar e que infelizmente nenhuma outra mídia quiz mostrar. Aqui é o próprio documentário como instrumento de resistência e mídia alternativa.

Entre a indignação e o espanto, Emad se coloca sempre em perigo nos momentos de conflito e ensina ao filho de cinco anos a ter a pele dura e o corpo forte para resistir aos gazes lacrimogênicos lançados a todo instante na população desarmada. "Porque não o matamos com faca, papai?," pergunta o filho.

O testemunho de sua câmera imparcial e sem emotividade é um dos lados mais surpreendentes dessas imagens... a violência crua, nua e brutal. Não há concessões nem para um lado ou para outro, apenas a resistência e o testemunho "ocular" da história aontecendo no seu próprio quintal. Como não pensar nessa era digital, quando milhões de mini-câmeras de celulares ao redor do mundo captam à todo momento testemunhos ímpares de nossa história contemporânea... o desafio é saber juntar estas imagens e criar narrativas condizentes como fez este filme... imperdível.

27 de maio de 2011

Otra Película de Amor: Apreendendo a dor da nostalgia



Otra película de amor (Another Movie of Love, 2010, parte da programação do 21o. Inside Out em Toronto) do chileno Edwin Oyarce, parece mesmo ter sido transportada é de outro tempo… uma fábula que nos envereda pelos tristes e sofridos caminhos da nostalgia ou do sentimento da falta (como diria os castelhanos). Diego, um garoto recém saído da adolescência, diz no início do filme ao amigo Sebastian não ser nostálgico como o amigo e não sentir saudades de nada. Ele justamente que não parar de tirar fotografias com uma velha câmera reflex e contar histórias para a amiga em coma. Esta questão do tempo nostálgico é o pretexto para Oyarce nos conduzir pelos caminhos de um coming age que no vocabulário gls também se confude com coming out, quando estes ao mesmo tempo que amadurecem os anos teens acabam descobrindo e explorando suas opções sexuais.
Assim os dois amigos vão se aproximar e compartilhar uma intimidade que vai além dos limites do permitido... já que eles ao mesmo tempo que avançam nessa descoberta sexual mútua se retraem e se censuram. Um sentimento bastante presente nos personagens e que no filme não se “explica” através da imagem de uma sociedade repressora ou moralista (como acontece de costume na sociedade machista latino-americana), já que a mãe de Diego não somente se mostra aberta para o mundo, como parece incitar um jogo de sedução entre os rapazes. Esses limites repressivos quem estabelecem são os próprios rapazes, com suas angústias, medos e indecisões... que são apenas revelados para a televisão, que parece ser a mantenedora de uma espécie de consciência libertária. Assim o não-dito se confia à televisão e esta se revela uma imagem de origem que o próprio filme-mundo desdenha... a vídeo-arte.

O filme constrói a fábula da nostalgia também através dessa imagem videográfica nervosa, granulada, “sem correção de cores” (como indica o texto inicial), cheia de “imperfeições” visuais, que dá um tom de um tempo e de um clima do passado, o que as curvas das margens do quadro nos faz lembrar das fotos de papel envelhecidas dos anos 80. Poderíamos entendê-la como uma composição ou representação do passado, mas a modernidade e contemporaneidade do olhar não nos deixa enganar, este filme está longe de estar envelhecido.
Hudson Moura

25 de maio de 2011

Christopher Isherwood e os seus amores de Berlim


Se você gosta do filme Cabaret (1972) de Bob Fosse ou da literatura produzida durante os duros tempos da Segunda Guerra Mundial, não poderá deixar de ver Christopher and his kind (2010) de Geoffrey Sax. O filme mostra exatamente o período em que o escritor Christopher Isherwood (A Single Man, 2009) viveu na Berlim do pré-guerra seguindo um convite do seu amigo e amante, o poeta W.H. Auden. É durante esta fase que ele escreve sua novela mais conhecida, The Berlin Stories, que mais tarde seria adaptada para o cinema e em musical na Broadway. O filme é baseado na autobiografia de Isherwood, e temos a impressão que definitivamente sua vida pessoal foi transportada para os seus escritos, assim vemos os personagens que o inspiraram a criar a cantora de cabaré Sally Bowles ou do tímido escritor e professor de inglês, Brian Roberts. Neste filme biopic, Isherwood não é nada tímido, apesar de como seu personagem Roberts, também dar aulas de inglês e se posicionar politicamente em favor dos judeus. Nem tampouco como seu personagem é sexualmente confuso, aliás ele vai justamente à Berlim para explorar e viver livremente sua homossexualidade, longe da repressiva e aristocrática sociedade inglesa. O filme foi produzido para a rede BBC e tem no papel central Matt Smith (do seriado Dr. Who) que desempenha um Isherwood extremamente carismático e ao mesmo tempo dogmático, como imaginamos ser todos os gentlemen ingleses, com o seu cinismo, sarcasmo e comentários dúbios à britânica. Se você pensa ainda em assistir alguns dos mais de 30 filmes do 21o. Inside Out em Toronto, este é uma ótima opção.
Hudson Moura

19 de maio de 2011

Puisque nous sommes nés: Filosofia de beira de estrada em primeiro plano

Puisque nous sommes nés de Jean-Pierre Duret e Andrea Santana (França, 2008) apresentado no HotDocs de Toronto como “Because we were born” e espantosamente intitulado no Brasil de “No meio do mundo”, poderia ser considerado do documentário Direto senão fosse os temas das conversas que os “personagens” mantêm entre eles. Nego tem 9 irmãos e todos vivem com a mãe e um padrasto, já que os irmãos têm pais diferentes, e ele já teve vários padrastos. Todos moram numa pequenina casa próxima à uma rodovia. O pequeno vilarejo não tem água encanada, todos dependem do caminhão pipa, que quando vem não dá conta de servir à todos. Nego não quer ir à escola prefere perambular por aqui e ali, especialmente nos arredores do posto de gasolina, onde sempre encontra com seu amigo Cocada. Este aparenta um pouco mais velho e tem uma boa relação com os caminhoneiros que param no posto. Mas esses meninos têm fome, e a pouca grana que conseguem arrecadar num dia mal paga a comida, assim eles pegam restos nas mesas do restaurante. Enquanto isto, em uma outra parte do vilarejo, um sertanejo vê sua vaca de leite morrer de fome, calor e sede. Em troca de seis mil tijolos ele decide então comprar uma outra vaca, e assim a vida segue no seu ritmo lento e constante. No entanto, é uma vida construída a partir dos detalhes (uma mosca, um pé rachado, um prato de comida, um machucado no braço) que nos impede muitas vezes de apreciar o todo, e é justamente uma visão desse todo que falta “No meio do mundo”.
 

Em planos bem fechados a câmera explora os detalhes da miséria e os rostos marcados dos entrevistados enquanto eles elucubram sobre a vida, a morte e a violência. Estas poderiam ser conversas quotidianas que garotos adolescentes e desprivilegiados de todo o Brasil discutiriam sem cesse durante todas as suas vidas... será? Algo soa estranho, uma palavra colocada na boca dos meninos, um movimento brusco do oleiro, um gesto exaltado da mãe, e o filme vai perdendo “veracidade”, não a verdade dos fatos, mas o charme que a “realidade” incorpora e enriquece todo documentário.
Hudson Moura
(especial Hotdocs - festival internacional do documentário de Toronto, considerado o maior festival de documentários da América do Norte)

18 de outubro de 2010

Cinema Brasileiro tipo exportação!


O cinema Brasileiro implantou uma bem sucedida leva de festivais nacionais nos maiores centros urbanos do Canadá, Estados Unidos, Tanzânia, Italia, Japão, Nova Zelândia, somando mais de vinte festivais mundo afora.
Este mês tem festival brasileiro em Buenos Aires, Tóquio, Roterdã e Londres. O Brazil Film Fest fará quatro dias em Toronto (21 a 24 de outubro) e uma semana em Montreal (26 de novembro a 2 de dezembro). As diretoras Sandra Kogut ("Diário de uma Crise") e Tatiana Issa ("Dzi Croquettes") estarão presentes para apresentar seus filmes e conversar com o público. Entre os destaques da seleção, estão "Olhos Azuis", de José Joffily, e o documentário "Uma Noite em '67", de Ricardo Calil e Renato Terra.

28 de setembro de 2010

Prêmios para o cinema brasileiro em Toronto

O documentário sobre o cantor Herbert Vianna e o curta sobre um garoto argentino fanático por futebol ganharam os prêmios de público do 4° Festival do cinema brasileiro de Toronto que terminou este domingo. Os atores Leonardo Medeiros e Glória Pires foram premiados por suas interpretações. Veja abaixo a lista completa dos premiados:


Longa-metragem
Melhor Filme - B1
Melhor Ator - Leonardo Medeiros (Budapeste)
Melhor Diretor - Walter Carvalho (Budapeste) / Felipe Braga e Eduardo H. Moura (B1)
Melhor de público - Herbert de perto / B1
Menção Honrosa - Atriz - Glória Pires (Lula, o filho do Brasil)

Curta / média-metragem
Melhor Diretor - Alê Camargo e Camila Carrossine (Os anjos do meio da praça)
Melhor de Público - Ernesto no país do futebol

Vencedor do terceiro Up to 3´

Buba e o Aquecimento Global

Vale a pena ressaltar o sucesso do filme Dzi Croquettes (fora da competição) na estréia da sessão Pink Brazil do BRAFFTV, com aplausos no meio da sessão lotada de brasileiros e canadenses.

25 de agosto de 2010

Oficina de Cinema e lista de filmes do BRAFFTv 2010



Sai a lista dos filmes selecionados para o 4° BRAFFTv - Festival de Cinema Brasileiro de Toronto
Dez  filmes disputam o troféu Golden Maple nas categorias Melhor Ator, Atriz, Diretor, Filme e Público. Os filmes recebem os votos do público no final de cada exibição.





Cinema Brasileiro Contemporâneo: 
De Nelson Pereira dos Santos à Fernando Meirelles
Prof. Dr. Hudson Moura

Uma tarde na companhia da recente produção do cinema brasileiro. O objetivo desta oficina é compreender o contexto cultural brasileiro e discutir as questões nacionais que afetam e regem o cinema brasileiro nesses últimos sessenta anos. Os atuais programas internacionais de co-produção e o sistema de financiamento no Brasil será comparado com as experiências recentes do cinema canadense e latino americano.


Dia: Sexta, 24/09/2010
Hora: 15h – 17:30h
Local: Innis Town Hall – Universidade Toronto
2 Sussex Ave. Toronto, Canada

Inscrição Gratuita. Vagas Limitadas.
Interessados por favor enviem uma mensagem para workshop@brafft.com



24 de maio de 2010

Ganhadores do Palmarès de Cannes 2010


O Júri oficial do 63º Festival de Cannes, presidido por Tim Burton, desvendou esta noite o seu Palmarés durante a Cerimónia de encerramento.


O filme de Encerramento The Tree de Julie Bertuccelli, com Charlotte Gainsbourg, Marton Csokas e Morgana Davies foi projectado após a cerimónia.



LONGAS-METRAGENS EM COMPETIÇÃO

Palme d'Or
LUNG BOONMEE RALUEK CHAT (Oncle Boonmee celui qui se souvient de ses vies antérieures) realizado por Apichatpong WEERASETHAKUL

Grand Prix

DES HOMMES ET DES DIEUX
 realizado par Xavier BEAUVOIS

Prêmio de melhor diretor
Mathieu AMALRIC com TOURNÉE

Prêmio do Júri 

UN HOMME QUI CRIE 
realizado por Mahamat-Saleh HAROUN

Prêmio de interpretação masculina (empatada)
Illustration
Javier BARDEM em BIUTIFUL realizado por Alejandro GONZÁLEZ IÑÁRRITU

Elio GERMANO em LA NOSTRA VITA realizado por Daniele LUCHETTI

Prêmio de interpretação feminina
Copie conforme
Juliette BINOCHE em COPIE CONFORME realizado por Abbas KIAROSTAMI

Prêmio de melhor roteiro
LEE Chang-dong para POETRY 



CURTAS-METRAGENS EM COMPETIÇÃO

Palme d'Or

CHIENNE D’HISTOIRE 
realizado por Serge AVÉDIKIAN 

Prêmio do Júri

MICKY BADER (Micky se baigne) realizado por Frida KEMPFF
 
 
CAMERA D'OR

AÑO BISIESTO realizado por Michael ROWE apresentado no quadro da Quinzena dos Realizadores



UN CERTAIN REGARD

Prêmio Un Certain Regard - Fondação Groupama Gan para o Cinema 

big poster
HAHAHA de HONG Sangsoo

Prêmio do Júri

OCTUBRE (Octobre)
 de Daniel VEGA & Diego VEGA

Prêmio de interpretação Un Certain Regard
Adela SANCHEZ , Eva BIANCO, Victoria RAPOSO para LOS LABIOS (Les Lèvres)de Ivan FUND & Santiago LOZA



CINEFONDATION

Primeiro Prêmio da Cinéfondation

TAULUKAUPPIAAT (Les Marchands de tableaux)
 de Juho KUOSMANEN

Segundo Prêmio da Cinéfondation

COUCOU-LES-NUAGES
 de Vincent CARDONA

Terceiro Prêmio da Cinéfondation ex-aequo

HINKERORT ZORASUNE
 de Vatche BOULGHOURJIAN
JA VEC JESAM SVE ONO ŠTO ŽELIM DA IMAM de Dane KOMLJEN
 
O júri da CST decidiu, conceder o PRÊMIO VULCAIN DO ARTISTA-TÉCNICO a: 
Leslie SHATZ, pelo som do filme BIUTIFUL realizado por Alejandro GONZÁLEZ IÑÁRRITU.

2 de maio de 2010

Projeto 5 vezes Favela de Cacá Diegues será apresentado em Cannes



O projeto "5 Vezes Favela" coordenado pelo cineasta Cacá Diegues fará parte da sessão especial do festival de Cannes deste ano, que se realizará entre os dias 12 e 23 de Maio. O filme que pretende ser, segundo Diegues, um filme bonito e de boa qualidade técnica da favela para ser mostrado "lá fora"  se auto-intitula "por nós mesmos".  É a favela vista pelos favelados! Os roteiros dos cinco curta-metragens que compõem o filme  foram concebidos à partir de oficinas e workshops ministrados por vários cineastas conhecidos como Fernando Meirelles, Walter Salles, Ruy Guerra, entre outros. 


Vamos conferir se este ponto de vista "autêntico" se diferencia de alguma maneira das imagens clichês da favela que proliferam na mídia. O ponto de partida de uma certa forma já foi comprometido, já que os olhares dos favelados foram treinados pela linguagem profissional do cinema e a maquinaria pesada do cinema de "qualidade" comercial estiveram aos seus serviços. Com certeza, esses novos cineastas da favela não devem ter tido muito espaço para uma espontaneidade criativa no set de filmagem. Atrelados a tal estrutura profissional, como assim eles podem afirmar "agora por nós mesmos"? 


Veja abaixo as sinopses das cinco estórias:


DEIXA VOAR -  Cadu Barcellos – Observatório de Favelas – Cadu Barcellos
Flavio, 17 anos, é morador de uma favela carioca. Ele deixa a pipa de um amigo “voar”  e agora tem que ir buscá-la na favela de uma facção rival à que ele mora, onde a pipa caiu. Mesmo com medo da aventura, ele vai buscar a pipa, descobrindo que as pessoas da favela rival em nada diferem das de onde ele mora.
CONCERTO PARA VIOLINO – Rodrigo Cardozo – AfroReggae – Luciano Vidigal
Ainda crianças, Márcia, Jota e Ademir fazem um juramento de amizade eterna. Agora adultos, com cerca de 20 anos de idade, Jota foi para o tráfico de drogas e Ademir entrou para a polícia. O enfrentamento entre os dois pode impedir que Márcia, agora violinista, realize seu sonho de uma bolsa de estudos musicais na Europa.
FONTE DE RENDA – Vilson Almeida – Cidadela/Cinemaneiro – Manaira Carneiro & Wavá Novais
Jovem realiza seu sonho de ser bem sucedido no vestibular e entrar para uma Faculdade de Direito, mas passa a encontrar dificuldades para dar conta dos gastos com livros, alimentação e  transporte. Ele então se sente atraído a vender drogas para amigos da faculdade, lucrando com isso o suficiente para custear seus estudos.
ARROZ COM FEIJÃO – José Antônio Silva – CUFA – Rodrigo Felha & Cacau Amaral
Para conseguir construir um quarto para o filho único, os pais de Wesley, de 12 anos, são obrigados a reduzir o cardápio de casa a arroz com feijão. No dia do aniversário do pai, o menino se junta ao amigo Orelha e sai, sem muito sucesso, em busca de recursos para comprar um frango de presente para ele.
ACENDE A LUZ” – Luciana Bezerra – Nós do Morro – Luciana Bezerra
É véspera de Natal e o morro está sem luz há três dias. Os técnicos enviados pela companhia de luz não conseguem resolver o problema, os moradores seqüestram um funcionário dela e o fazem de refém, até que a luz volte. O funcionário se integra à comunidade e acaba se tornando o herói dela na noite de Natal.


Assista aqui a promo do projeto.


A iniciativa se inspirou de um outro projeto de 1961, onde cinco jovens cineastas do movimento estudantil universitário, realizaram o filme “ Cinco Vezes Favela”, produzido pelo Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (UNE). Dirigido por Carlos Diegues, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman, Marcos Farias e Miguel Borges, “Cinco Vezes Favela”  se tornaria um marco do cinema moderno brasileiro, um dos filmes fundadores do Cinema Novo.







Destaques do Festival de Cannes 2010

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11 de outubro de 2009

Baião de Dois: Teixeira e balairinos da favela marcam a presença brasileira no Festival de Cinema de Vancouver


A arte brasileira como de praxe é presença garantida no Festival Internacional de Cinema de Vancouver (VIFF). São dois documentários "artísticos", o primeiro produzido pela atriz Denise Dumont sobre a música popular brasileira e o segundo de uma documentarista estrangeira que acompanhou dois jovens balairinos da favela do Rio de Janeiro em competições mundiais.

O homem que engarrafava nuvens (The Man Who Bottled the Clouds), dirigido pelo pernambucano Lírio Ferreira (Baile Perfumado, Árido Movie e Cartola), é uma aula sobre música popular brasileira ao mesmo tempo que um corajoso depoimento de Denise Dumont. "Eu não conhecia meu pai"--diz a atriz no início do documentário andando pelos corredores de um cemitério. Seu pai para espanto de muitos foi nada menos que o autor de Asa Branca--um dos hinos do repertório musical popular brasileiro--Humberto Teixeira (que todos nós conhecemos!). O filme faz toda uma viagem musical sobre a ascendência do baião na música popular através dos acordes de Teixeira e a voz de Luiz Gonzaga nos idos 30 e 40 até os dias hoje. Vários cantores brasileiros (Os Mutantes, Bebel Gilberto, Caetano Veloso, Chico Buarque, Gal Costa, Gilberto Gil, Maria Bethânia, etc.) e estrangeiros como David Byrne reinterpretam os clássicos de Teixeira, enquanto que paralelamente, aos poucos, e cronologicamente, vamos conhecendo mais sobre a história do baião e a consagração mundial desse estilo da música sertaneja. No entanto, fica para o final o grande desabafo e talvez a razão do documentário, Dumont em depoimentos emocionados, especialmente aquele ao lado da mãe, fala da vida boêmia do pai e a consequente ausência em sua vida. Mas se você não conhece Dumont ou se você não tem curiosidade histórica, regale-se com as sequências musicais que Lírio Ferreira e o diretor de fotografia Walter Carvalho fazem desfilar com elegância e maestria na tela.


Elegância talvez seja a palavra que defina o documentário Só Quando Eu Danço (Only when I dance) da diretora Beadie Finzi. Ela acompanha com delicadeza e bastante "zelo" a ascenção de dois jovens bailarinos--Isabela dos Santos e Irlan Santos da Silva--da favela carioca Complexo do Alemão aos palcos de competições internacionais na Europa e nos Estados Unidos. Ambos talentosos mas com sérios problemas financeiros, eles precisam serem os melhores para poderem compensar todo o esforço e empréstimos que os pais fazem para arcar com o sonho dos filhos. Bastante emocionante pelo lado brutal que a grana se torna um obstáculo para o futuro desses jovens, o filme nos deixa levar pelo drama humano de bastidores que cerca toda e qualquer competição. Talvez o filme peque um pouco pelo excesso de zelo, e por isto perca um pouco o equilíbrio, justamente naquela linha tênue que separa um documentário (da mesmice) de uma reportagem de televisão. Afinal, em tempos digitais, a diferença entre uma mídia e outra é bastante subjetiva. Será que o HDCAM (Câmera digital de alta definição) tem a sua parte nesta história?

Enquanto a cena de abertura é o bailarino Irlan dançando na laje de sua casa com a favela de fundo, na cena final não poderia ser diferente, o mesmo jovem dança no alto de um edifício em meio aos arranha-céis de Nova Iorque.
Hudson Moura

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