Mostrando postagens com marcador Crítica de Filmes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crítica de Filmes. Mostrar todas as postagens

5 de maio de 2012

Contradições e Conflitos do Hotdocs 2012


Jackie Siegel (segurando um dos seus oito filhos)


A Rainha de Versailles (Queen of Versailles, USA, 2012), documentário dirigido por Lauren Greenfield, bateu o recorde de bilheteria no tradicional cinema Bloor, um dos maiores e antigos cinemas de Toronto e recentemente reformado pelo Hotdocs. O filme é uma dessas preciosidades escondidas atrás de um título pomposo e à primeira vista superficial. O trabalho da documentarista Greenfield se revela muito mais atento e minucioso e nos revela uma personagem rica de contradições, manieirismos e sutilezas. Nunca sabemos até onde a socialite Jackie Siegel é completamente verdadeira diante da câmera ou o quanto ela constrói uma "persona" que não tem nada de superficial e faz frente aos grandes personagens que o cinema de Hollywood é capaz de produzir.

Podemos falar também neste documentário do fator sorte, a intenção inicial da diretora Greenfield, antiga fotógrafa da revista Elle, era fazer um filme sobre a construção na Flórida da maior residência dos Estados Unidos, inspirada no palácio de Versailles e com vista para a Disneylândia, no valor de mais de 100 milhões de dólares. No entanto, com a confiança que adquiriu com os entrevistados, Jackie e seu marido David Siegel, ela pôde testemunhar um dos momentos mais dramáticos da história dos Estados Unidos: a queda da economia americana de 2008. As consequências para essa família – considerada como uma das mais poderosas e que foi capaz de decidir as eleições presidenciais a favor de George W. Bush – foram catastróficas. Nesta recessão e adaptação aos altos e baixos, as contradições humanas ganham volume e se ajustam às contradições e conflitos financeiros que se seguem. Tanto o maior hotel-resort de Las Vegas vem abaixo quanto o palacete semi-construído da Flórida se revela como um dos maiores elefantes brancos e (sem-querer) símbolo desta derrocada econômica. A compreensão da mentalidade do povo americano, entre o começo humilde à acensão à riqueza "absurda", tanto quanto os valores "humanos" que o dinheiro pode comprar se mostram à nu neste filme imperdível.

"Ela compra compulsivamente e coleciona tudo... até filhos," diz o marido. "Se eu não tivesse babá eu teria um ou no máximo dois filhos, mas com babá tudo fica fácil," contrapõe Jackie, na época que havia à sua disposição uma babá para cada filho.




E-Phil (manifestante) e Emad Burnat

(documentarista à direita com a camera com a bandeira do Brasil)
Do outro lado do mundo, segue uma guerra com proporções absolutamente incompreensíveis. O conflito na Faixa de Gaza entre Israel e Palestina dura muito tempo diante de uma sociedade mundial estarrecida e impotente. Sem saber como definir quem é o herói e quem é o vilão, os dois lados desta guerra acabam se encontrando no filme 5 Câmeras Quebradas (5 Broken Cameras / Hams Cameraten Maksura / Hamesh Matzlemot Shvurot, Israel/Palestina, 2012) dos documentaristas israelense Guy Davidi e palestino Emad Burnat. Emad é um jornalista testemunha de seu tempo e de sua própria miséria. Ele encontrou sua força de resistência e de luta através do registro videográfico das demonstrações palestinas contra a invasão israelense na cidade de Bil'al.

As câmeras são vítimas deste testemunho e vão se quebrando e sendo substituídas ao longo de cinco anos. Em muitos casos elas receberam um tiro certeiro no meio do "olho" de suas lentes, e uma com a bandeira brasileira colada no seu "corpo" ainda guarda a bala no seu interior como testemunha da violênciae da milícia israelense.

Israel decretou que a cidade de Bil'al é uma zona militar e todos palestinos que insistirem a continuar em suas casas seão considerados infratores e invasores. Para aumentar o caos e fazer valer a lei os militares invadem casas durante à noite, criando terror na população e constrõem muros que impedem a livre circulação dos habitantes. Do outro lado do muro, as oliveiras são queimadas e arrancadas para dar lugar à conjuntos habitacionais. Emad é casado com uma brasileira, e assim vemos o nome e os símbolos nacionais do Brasil por todos os lados da casa e roupas dos familiares, e ouvimos vez por outra umas palavras em português como: Minha Vida. Emad filma o tempo todo mas com um status ambíguo entre jornalista e manifestante, a milícia sempre acaba por prendê-lo, já que ele consegue filmar e testemunhar fatos e atrocidades que nenhuma outra câmera jamais pôde registrar e que infelizmente nenhuma outra mídia quiz mostrar. Aqui é o próprio documentário como instrumento de resistência e mídia alternativa.

Entre a indignação e o espanto, Emad se coloca sempre em perigo nos momentos de conflito e ensina ao filho de cinco anos a ter a pele dura e o corpo forte para resistir aos gazes lacrimogênicos lançados a todo instante na população desarmada. "Porque não o matamos com faca, papai?," pergunta o filho.

O testemunho de sua câmera imparcial e sem emotividade é um dos lados mais surpreendentes dessas imagens... a violência crua, nua e brutal. Não há concessões nem para um lado ou para outro, apenas a resistência e o testemunho "ocular" da história aontecendo no seu próprio quintal. Como não pensar nessa era digital, quando milhões de mini-câmeras de celulares ao redor do mundo captam à todo momento testemunhos ímpares de nossa história contemporânea... o desafio é saber juntar estas imagens e criar narrativas condizentes como fez este filme... imperdível.

15 de outubro de 2011

Documentários que eu poderia ter ficado sem ver em 2011!

Canções do Exílio - A labareda que lambeu tudo (2010) de Geneton Moraes Neto narra um dos períodos marcantes da carreira de Caetano Veloso e Gilberto Gil, quando foram exilados em Londres por quase três anos durante a ditadura militar, Na época eles estavam acompanhados por Jorge Mautner e Jards Macalé, que também são entrevistados no filme. O documentário é muito pessoal e mostra o fascínio e endeusamento do repórter da Globo (veja foto ao lado do repórter entrevistando Gil e Caetano nos anos 70) com os cantores em entrevistas intimistas e reconstituição histórica dos fatos sobre o período dos militares.

O filme tem um dos começos mais chatos e constrangedores que eu já tenha visto num documentário. Paulo Cesar Pereio em big close, quase babando, interpretando o texto em primeira pessoa do repórter, Geneton Moraes Neto, onde este declara a sua fascinação e tietagem com Caetano e Gil.

Noel Rosa Poeta da Vila e do Povo: Uma Reportagem Musical (2011) de Dácio Malta é um documentário sobre a curtíssima vida e obra fulgurante de Noel Rosa. Morto aos 26 anos ele produziu um sem número de obras musicais e se tornou uma das maiores referências da música brasileira.

Noel realmente mereceria um documentário mais apurado e com mais estilo. O filme se perde, com uma direção e uma edição trôpega. Excede no uso de legendas, muitas das vezes desnecessárias, como por ex, enquanto João Bosco está cantando aparece a legenda “João Bosco, cantor”! Pelo número bastante expressivo de imagens de arquivo, incluindo esta de Bosco, a legenda poderia nos informar dados mais relevantes, como a data e o lugar onde estas imagens foram feitas.
 
Dividido em partes temáticas, o filme oscila demais entre os assuntos que discute, e a edição peca nas elipses das entrevistas e das músicas. No quesito musical, o filme muitas vezes cai no marasmo e não apresenta momentos memoráveis ou históricos de shows ou de artistas que fizeram sucesso com as músicas de Noel.

A impressão que se tem, pela insistência e repetição de alguns depoimentos e imagens, é que a principal tarefa deste documentário não é celebrar a obra de Noel, mas provar a tese de que ele é um dos mais importantes compositores do Brasil, ou melhor, do mundo, como afirma um dos entrevistados. Não seria um pouco perda de tempo, já que sua obra é regravada sem cesse pelos artistas brasileiros? Assim, não podemos dizer que ele é esquecido ou desprestigiado!

O contestado restos mortais (2010) de Sylvio Back. Historiadores e populares (estilo talking-heads) contam os episódios da guerra do Contestado no interior do estado de Santa Catarina entre os anos 1912-16. Intercalado aos depoimentos estão sessões espíritas com os médiums incorporando os participantes da guerra, agonizando com a dor de suas mortes.

Um filme que em geral não se adequa a qualquer público por dois motivos básicos: a história é muito local e excessivamente falada. Isto se torna ao longo de duas horas de filme, muito cansativo para o público acompanhar os vais-e-vens desta história-intrincada e repleta de informações.

O assunto é muito interessante e historicamente importante, principalmente no diálogo entre Canudos e Contestado, onde se confundia militarismo e religiosidade, república e monarquia celestial. No entanto, as intercessões “espíritas” chegam a ser constrangedoras quando colocadas lado-a-lado com os depoimentos de inúmeros historiadores entrevistados, onde reconstituem os fatos-históricos.

Sylvio Back (foto acima, com uma das participantes do filme) é um documentarista de renome no Brasil, mas também conhecido por filmes bastante localizados na região sul do país, o que alguma das vezes o público tem dificuldade, como neste caso (talvez falha do documentarista em criar links com a história contemporânea nacional) de entender e se identificar com o tema abordado.

Quem se importa (2010) de Mara Mourão é um documentário sobre os empreendedores sociais de organizações não-govermentais de várias partes do mundo.

Muitas histórias interessantíssimas de empreendedorismo social no mundo, incluindo várias no Brasil. No entanto, a forma inicial é daqueles infomercial (estilo lavagem cerebral) sobre pobreza e ajuda humanitária sem um conteúdo bem tratado e uma história bem construída. O assunto é super importante e atual sobre os empreendedores sociais, mas a forma é amadora e as histórias privadas dessas pessoas (o que é mais interessante no filme), somente vai aparecer do meio para o final do filme. Enquanto isto, durante quase uma hora, o público é “bombardeado” por imagens clichés e fórmulas piegas sobre globalização e o fim da humanidade. O tom do narrador off é moralista, piedosa e generalista; e, a edição de imagens é simplista assim como a trilha sonora é over, dramática e clichê, o que esvazia a imagem de sentido.
Hudson Moura

27 de maio de 2011

Otra Película de Amor: Apreendendo a dor da nostalgia



Otra película de amor (Another Movie of Love, 2010, parte da programação do 21o. Inside Out em Toronto) do chileno Edwin Oyarce, parece mesmo ter sido transportada é de outro tempo… uma fábula que nos envereda pelos tristes e sofridos caminhos da nostalgia ou do sentimento da falta (como diria os castelhanos). Diego, um garoto recém saído da adolescência, diz no início do filme ao amigo Sebastian não ser nostálgico como o amigo e não sentir saudades de nada. Ele justamente que não parar de tirar fotografias com uma velha câmera reflex e contar histórias para a amiga em coma. Esta questão do tempo nostálgico é o pretexto para Oyarce nos conduzir pelos caminhos de um coming age que no vocabulário gls também se confude com coming out, quando estes ao mesmo tempo que amadurecem os anos teens acabam descobrindo e explorando suas opções sexuais.
Assim os dois amigos vão se aproximar e compartilhar uma intimidade que vai além dos limites do permitido... já que eles ao mesmo tempo que avançam nessa descoberta sexual mútua se retraem e se censuram. Um sentimento bastante presente nos personagens e que no filme não se “explica” através da imagem de uma sociedade repressora ou moralista (como acontece de costume na sociedade machista latino-americana), já que a mãe de Diego não somente se mostra aberta para o mundo, como parece incitar um jogo de sedução entre os rapazes. Esses limites repressivos quem estabelecem são os próprios rapazes, com suas angústias, medos e indecisões... que são apenas revelados para a televisão, que parece ser a mantenedora de uma espécie de consciência libertária. Assim o não-dito se confia à televisão e esta se revela uma imagem de origem que o próprio filme-mundo desdenha... a vídeo-arte.

O filme constrói a fábula da nostalgia também através dessa imagem videográfica nervosa, granulada, “sem correção de cores” (como indica o texto inicial), cheia de “imperfeições” visuais, que dá um tom de um tempo e de um clima do passado, o que as curvas das margens do quadro nos faz lembrar das fotos de papel envelhecidas dos anos 80. Poderíamos entendê-la como uma composição ou representação do passado, mas a modernidade e contemporaneidade do olhar não nos deixa enganar, este filme está longe de estar envelhecido.
Hudson Moura

25 de maio de 2011

Christopher Isherwood e os seus amores de Berlim


Se você gosta do filme Cabaret (1972) de Bob Fosse ou da literatura produzida durante os duros tempos da Segunda Guerra Mundial, não poderá deixar de ver Christopher and his kind (2010) de Geoffrey Sax. O filme mostra exatamente o período em que o escritor Christopher Isherwood (A Single Man, 2009) viveu na Berlim do pré-guerra seguindo um convite do seu amigo e amante, o poeta W.H. Auden. É durante esta fase que ele escreve sua novela mais conhecida, The Berlin Stories, que mais tarde seria adaptada para o cinema e em musical na Broadway. O filme é baseado na autobiografia de Isherwood, e temos a impressão que definitivamente sua vida pessoal foi transportada para os seus escritos, assim vemos os personagens que o inspiraram a criar a cantora de cabaré Sally Bowles ou do tímido escritor e professor de inglês, Brian Roberts. Neste filme biopic, Isherwood não é nada tímido, apesar de como seu personagem Roberts, também dar aulas de inglês e se posicionar politicamente em favor dos judeus. Nem tampouco como seu personagem é sexualmente confuso, aliás ele vai justamente à Berlim para explorar e viver livremente sua homossexualidade, longe da repressiva e aristocrática sociedade inglesa. O filme foi produzido para a rede BBC e tem no papel central Matt Smith (do seriado Dr. Who) que desempenha um Isherwood extremamente carismático e ao mesmo tempo dogmático, como imaginamos ser todos os gentlemen ingleses, com o seu cinismo, sarcasmo e comentários dúbios à britânica. Se você pensa ainda em assistir alguns dos mais de 30 filmes do 21o. Inside Out em Toronto, este é uma ótima opção.
Hudson Moura

19 de maio de 2011

Puisque nous sommes nés: Filosofia de beira de estrada em primeiro plano

Puisque nous sommes nés de Jean-Pierre Duret e Andrea Santana (França, 2008) apresentado no HotDocs de Toronto como “Because we were born” e espantosamente intitulado no Brasil de “No meio do mundo”, poderia ser considerado do documentário Direto senão fosse os temas das conversas que os “personagens” mantêm entre eles. Nego tem 9 irmãos e todos vivem com a mãe e um padrasto, já que os irmãos têm pais diferentes, e ele já teve vários padrastos. Todos moram numa pequenina casa próxima à uma rodovia. O pequeno vilarejo não tem água encanada, todos dependem do caminhão pipa, que quando vem não dá conta de servir à todos. Nego não quer ir à escola prefere perambular por aqui e ali, especialmente nos arredores do posto de gasolina, onde sempre encontra com seu amigo Cocada. Este aparenta um pouco mais velho e tem uma boa relação com os caminhoneiros que param no posto. Mas esses meninos têm fome, e a pouca grana que conseguem arrecadar num dia mal paga a comida, assim eles pegam restos nas mesas do restaurante. Enquanto isto, em uma outra parte do vilarejo, um sertanejo vê sua vaca de leite morrer de fome, calor e sede. Em troca de seis mil tijolos ele decide então comprar uma outra vaca, e assim a vida segue no seu ritmo lento e constante. No entanto, é uma vida construída a partir dos detalhes (uma mosca, um pé rachado, um prato de comida, um machucado no braço) que nos impede muitas vezes de apreciar o todo, e é justamente uma visão desse todo que falta “No meio do mundo”.
 

Em planos bem fechados a câmera explora os detalhes da miséria e os rostos marcados dos entrevistados enquanto eles elucubram sobre a vida, a morte e a violência. Estas poderiam ser conversas quotidianas que garotos adolescentes e desprivilegiados de todo o Brasil discutiriam sem cesse durante todas as suas vidas... será? Algo soa estranho, uma palavra colocada na boca dos meninos, um movimento brusco do oleiro, um gesto exaltado da mãe, e o filme vai perdendo “veracidade”, não a verdade dos fatos, mas o charme que a “realidade” incorpora e enriquece todo documentário.
Hudson Moura
(especial Hotdocs - festival internacional do documentário de Toronto, considerado o maior festival de documentários da América do Norte)

9 de outubro de 2008

O olhar japonês de uma cultura e dialeto em vias de desaparição na Bolívia retratado no filme Pachamama

A primeira impressão que se tem do filme Pachamama (El regalo de la pachamama, 2008) do cineasta japonês Toshifumi Matsushita é que se trata de um filme ficcional clássico ancorado numa narrativa cinematográfica tradicional. A estória é de uma comunidade de Quíchua, no sul da Bolívia, onde o menino Q’unturi (Christian Huaygua) trabalha com o pai na criação de lhamas e na extração de sal. É um filme sobre a adolescência de um menino e sua passagem à vida adulta, a experiência do sofrimento, a aprendizagem da cultura e o surgimento do desejo amoroso, o que poderia se passar em qualquer lugar do mundo, afirma o diretor. Perguntei como ele define o filme? Matsushita tentou se esquivar dizendo ser esta uma pergunta difícil de responder, pois prefire que o público o defina por si mesmo. Finalmente respondeu dizendo: um docu-drama.

O tratamento do filme é quase antropológico, pois se baseia nas pesquisas e andanças de Matsushita durante quatro anos nas terras bolivianas. A cada viagem e contato com as comunidades, o roteiro foi se modificando e acrescentando antigos mitos e lendas – mistificando ainda mais o cotidiano local. Ele criou assim um roteiro de situações “épicas e ancestrais” e pediu às pessoas da região, que se tornaram atores do filme, para improvisarem os diálogos – já que o diretor não fala quíchua e pouquíssimo espanhol. Toda a equipe de produção do filme foi composta também por técnicos locais somando assim mais uma das subjetividades dos bastidores da trama.

O grande encontro entre essas duas culturas (boliviana e japonesa), aparentemente distantes, reside na maneira como elas interagem com a natureza. Segundo o diretor, existe uma grande espiritualidade que vem do contato e do respeito com a terra, daí o título, Pachamama – terra mãe. “Eu espero que esse menino passe a sua cultura e língua Quíchua para as gerações seguintes” afirmou Matsushita.

O filme que passou recentemente em Vancouver no Festival Internacional de cinema quando Matsushita concedeu esta entrevista, seguiu logo após para a Mostra de cinema de São Paulo.

18 de setembro de 2008

Derek: saudades do vanguardismo intelectual da era jarmaniana

Derek Jarman (1942-1994) um dos mais criativos, experimentais e inovadores cineastas contemporâneos teve também uma das mais apreciadas, prolíficas e ecléticas carreiras nas artes britânicas. Ele começou cedo nas artes plásticas, e foi nesse trânsito entre a arte pictural e a arte performática do cinema amador que ele desenvolveu seus primeiros projetos no final dos anos 60 e durante os anos 70, ganhando notoriedade mundial com Caravaggio em 1986.

Entre seus fiéis colaboradores e amigos, estavam a atriz Tilda Swinton (estrela de sete de seus filmes) e o cineasta Isaac Julien, que acabam de realizar uma homenagem ao diretor através do documentário, Derek. O documentário reúne assim dois olhares distintos: a poesia e a sensibilidade da atriz que em texto off confidencia ao amigo morto suas inquietudes sobre os tempos atuais do cinema britânico, e por outro lado, o trabalho perspicaz e minucioso de pesquisa de arquivo de imagens sobre a vida de Jarman elaborada por Julien.

A base do filme é uma entrevista que o realizador deu em 1990 ao produtor Colin McCabe e o diretor Bernard Rose. Entre “linhas” se configura um homem sobretudo lúcido e sem remorsos. Ao ser perguntado por Jeremy Isaacs, no programa de televisão Face-to-Face, de como gostaria de ser lembrado, ele afirma que gostaria de desaparecer. Pegar todas as suas obras consigo e evaporar. Este desejo é algo que seus amigos e admiradores não deixaram acontecer, não somente seu jardim é conservado com zelo, como a sua obra é considerada como uma das mais importantes e provocadoras de sua época, algo sem igual nas artes britânicas atuais.

Em Derek, temos a oportunidade de conhecer o homem por detrás da obra – o que na verdade são bastante similares e complementares – através de um olhar íntimo e objetivo ao mesmo tempo. O documentário retraça os passos do diretor e sua forte relação com a religião e a homossexualidade, desde a infância, passando pelos tempos da descoberta sexual ao início de sua carreira, até a relação confidente que mantinha com a mãe, uma dona de casa, que tinha um grande senso intelectual e artístico. O espectador pode também acompanhar cronologicamente os últimos 40 anos de toda uma geração de artistas britânicos que influenciou e formatou uma estética punk e gay (queer) das artes contemporâneas na Inglaterra, culminando por marcar a era Tatcher.

O ecletismo de Jarman pode ser conferido através de seus livros, pinturas, colagens, filmes (Sebastienne, Eduardo II), peças de teatro, vídeos performáticos, vídeo-clipes (o vídeo It’s a sin dirigido por Jarman para o grupo Pet Shop Boys é considerado por ele seu melhor trabalho) até o famoso jardim Prospect Cottage em Dungeness, na província de Kent. Este simboliza para os fãs um dos mais apreciados legados de Jarman, que o transformaram num lugar de pelegrinagem e culto.

Suas obras são bastantes voltadas para a visualidade plástica e não é a toa que seu último filme, Blue, foi todo feito sobre uma tela azul. Ativista gay fervoroso, manifestou em prol dos direitos homossexuais tanto no seu trabalho como artista e cineasta, marcando tendências e promovendo movimentos artísticos tanto quanto transformou sua doença (Aids) em um ato de protesto e reivindicação para a comunidade gay britânica.

Os tempos pós-Jarman são outros, como afirma Swinton em seu texto, o cinema de hoje determina sucesso em termos de bilheteria e audácia artística em termos de individualismo. A atriz sente saudades do amigo e de uma geração que acabou perdendo a sua própria “espiritualidade”. A cultura fílmica atual isola e paralisa vozes originais em nome de um cinema comercial de grandes orçamentos sem visão artística ou experimentalismos.

O documentário estreou no aniversário da morte do diretor em 19 de fevereiro deste ano na Inglaterra, passou pelo Festival do Cinema Queer de Vancouver e segue para o Mix Brasil em Novembro.

Leia aqui o texto que deu origem ao documentário, escrito por Tilda Swinton para o Festival de cinema de Edinburgh em 2002 e publicado pela revista Vertigo.

Hudson Moura

8 de outubro de 2007

Rãs e Batuques: cineasta americano Jason Kohn Manda Bala na alegorização da violência no Brasil

A primeira impressão que temos após assistir o filme Manda Bala (Send a Bullet) é de que foi realizado por um estrangeiro. No entanto, Jason Kohn (foto ao lado), 28 anos, apesar de se considerar como um judeu Nova Iorquino, é filho de brasileira com argentino, este último morador de São Paulo há mais de sete anos. Falar português, ele não fala, preferiu dar esta entrevista em inglês, apesar de compreender um pouco a língua natal de sua mãe. Manda Bala é seu primeiro filme e levou cinco anos para ser concluído. Antes ele havia trabalhado com o famoso documentarista americano Errol Morris (The Thin Blue Line) conhecido por ter adotado certas técnicas da narrativa ficcional no documentário, tornando-o assim tão atraente e enigmático quanto um filme de entretenimento. Aliás, este um dos objetivos de Manda Bala, admitiu o diretor numa conversa com a platéia após a exibição de seu filme nos Estados Unidos.

Mas, o que incomoda em Manda Bala é o seu tom irônico e a sua abundância de clichês sobre a terra brasilis e suas contradições. Na visão de Kohn, todos os males sociais brasileiros são facilmente explicados, e ele mostra o porquê de tanta violência urbana e segregação social: a corrupção política, que se tornou parte da cultura local. Um problema, segundo ele, negligenciado pelo povo e por uma sociedade injusta e mal discutido na mídia e no cinema nacional.

E, como a corrupção integra a cultura brasileira, a “culpa” é de toda a nação e não somente dos políticos e governantes. Nesta roleta russa ninguém escapa na visão do diretor e tudo pode se tornar alvo à ironia e ao sarcasmo. A alegoria no filme vem através da música, principalmente sambas-exaltação e batucadas à la Jorge Ben dos anos 60 e 70, que em descompasso com as imagens gera um segundo discurso. Este muitas vezes é ainda mais provocador e crítico sobre os fatos narrados.

Tudo é potencializado por um “tom” que o próprio diretor me definiu como “impressionista”. Para tal Kohn utiliza uma imagem ímpar de um escândalo envolvendo o senador Jader Barbalho: um ranário. A criação de rãs se torna ponto de referência e análise da situação brasileira. Como um país miserável e atrasado como o Brasil, pode se tornar num dos maiores exportadores de rãs do mundo? Um animal sui generis, que se transforma prato exótico nos restaurantes do primeiro mundo e, que é capaz de comer a própria espécie na falta de alimentação. De um escândalo à outro, ou de uma contradição à outra, o diretor remete à exploração política à pobreza das periferias e à geração de uma das maiores indústrias de seqüestros do mundo. Que por sua vez, gera um dos mais renomados cirurgiões plásticos, especializado em reconstituição de orelhas. Um órgão comumente alvo da violência dos seqüestradores nos pedidos de resgate junto aos familiares das vítimas.

Assim, tudo se torna muito simples e compreensível nas argumentações do filme de Kohn, como um efeito de causa e conseqüência. Não existe nenhum tipo de questionamento e reflexão sociológica, antropológica ou filosófica sobre a situação brasileira mas sim um raciocínio pragmático e cartesiano. Kohn entrevistou uma série de personagens da sociedade brasileira: um executivo de São Paulo, usando pseudônimo e completamente disfarçado, que admite ter colocado dois chips rastreadores de duas companhias de seguro diferentes em seu corpo e ter gasto na blindagem de seu carro de esporte de alto luxo um terço do valor do mesmo; um seqüestrador da periferia paulistana que admite ter seqüestrado, mutilado e matado um sem número de pessoas e que se responsabiliza pela segurança e bem-estar dos moradores da favela; um cirurgião plástico ao lado de sua piscina; uma carioca que conta os horrores de seu seqüestro e a reconstrução de sua orelha; um criador de rãs; um policial da equipe anti-seqüestro; o advogado geral da República e ainda Jader Barbalho que fala de sua dedicação ao povo paraense.

Todas as entrevistas tem uma particularidade, a maioria dos entrevistados aparecem sempre ao lado de seus respectivos tradutores (veja foto ao lado), já que o diretor conduz as entrevistas atrás da câmera em inglês. Esta técnica, segundo o diretor, tem a principal função de evitar as legendas para o público americano, já que ao invés de ouvir apenas em português, eles podem facilmente entender as respostas diretamente traduzidas para o inglês. No entanto, ele substitui em muitos momentos a voz dos entrevistados pela voz dos tradutores o que aumenta ainda mais o distanciamento e desengajamento do filme com o assunto tratado.

No filme não faltam ainda imagens contundes e fortes de revirar o estômago de qualquer mortal, como uma orelha sendo decepada por um seqüestrador, vítimas sendo torturadas em cativeiros, rãs engolindo umas às outras, cirurgião reconstruindo uma orelha. E o que é mais impressionante são as crianças pobres nas ruas do bairro Jaderlândia da periferia de Belém, que se divertem imitando seqüestradores cortando as orelhas de seus seqüestrados. Ironia do destino ou pura coincidência “jornalística” do momento presente? Nada disso, Kohn admite ter pedido às crianças para fazer a mímica da violência.

O filme ganhou dois prêmios num dos festivais mais conceituados do cinema independente, o Sundance, organizado pelo ator Robert Redford: grande prêmio do júri e melhor fotografia (cineasta paranaense Heloísa Passos). Atualmente está em cartaz em algumas salas americanas e participa de vários festivais de cinema como Roma e Vancouver.
No início do filme a primeira imagem é de uma cartela dizendo que o filme não pode ser visto no Brasil. O espectador se prepara para o pior e pode se perguntar: “Que país anti-democrático é este onde a censura ainda persiste?” Nas explicações do diretor, o filme recebeu ameaças de processo na justiça por parte de um dos entrevistados (que o diretor não quer revelar o nome) caso este seja apresentado em solo brasileiro e os produtores não tem dinheiro para arcar com os custos de uma possível defesa judicial. Alegação impressionante visto a qualidade técnica empregada na produção, onde inclusive cada entrevistado tem ao seu dispor um tradutor diferente.

Ao término da projeção do filme, o espectador pode se perguntar: “Afinal quem poderia censurar este filme e com que argumento, já que todas as entrevistas foram concedidas de comum acordo, mesmo a do senador Barbalho, que aliás este não revela absolutamente nada a não ser dos seus benfeitos políticos?” A maioria das imagens e informações sobre os escândalos envolvendo o senador apresentadas no filme de Kohn foram extraídas de jornais e televisões brasileiras. Ou Manda Bala é oportunista ou falta com a “ética-social”, aquela do tato e do cuidado ao lidar com temas polêmicos e delicados de uma sociedade estrangeira. Aliás, um cuidado que todo documentarista deve ter quando mira sua câmera para uma realidade qualquer.

Hudson Moura

Manda Bala (Send a Bullet) (EUA, 2007)
Dir. Jason Kohn

9 de setembro de 2007

Entre o mundo dos deuses e o dos homens, nasce Heracles

Heracles é um jovem negro da periferia de São Paulo, que no seu primeiro dia de trabalho, após um tempo preso na Febem, tem que realizar doze tarefas para ser efetivado como motoboy. Ele vai rodar a cidade e nos levar a conhecer uma série de pessoas da sociedade paulistana que não poderia ser menos do que um desejo de retratar o país. Heracles, em voz over, é também aquele que conhece o passado, o presente e o futuro daqueles que cruzam seu caminho. Não que essas pessoas sejam caricaturas da sociedade, mas porque elas dificilmente sobresairão do destino a que lhes foram impostas. Uma filosofia oposta ao discurso do sonho americano, onde tudo é possível e realizável.

A cada curva de esquina, entre um carro e outro e entre uma entrega e outra, o aprendiz de motoboy não se deixa sucumbir pelos percalços que a cidade lhe impõe e consegue se safar das situações mais constrangedoras. O drama do filme reside nesses pequenos empecilhos que como ninguém Heracles sabe driblar e corromper: a discriminação social, a injustiça, os desmandos. Estamos longe do herói sofredor que as mazelas de uma grande cidade o acaba por engolir e mesmo matar como em O homem que virou suco de João Batista de Andrade, Pixote de Hector Babenco ou A hora da estrela de Suzana Amaral. Heracles habita e faz parte de São Paulo tanto quanto os motoboys pertencem ao trânsito das ruas paulistanas. Talvez por isto que a cidade lhe é também acolhedora, e não faltam pessoas que o ajudarão a vencer os desafios.

Heracles não somente conhece e antecipa os destinos alheios, como também tenta sublimar as mazelas cotidianas através de um ponto de vista filosófico. Assim como na sua premissa inicial quando diz que “o lugar onde se nasce já determina o que ou quem a pessoa vai ser”, valesse também para o seu nome vindo da mitologia grega, que lhe deram para salvá-lo de uma doença de nascença, já lhe dotasse de antemão de uma voz filosófica, madura e crítica sobre a sociedade.

A tragédia não deixará de atravessar o caminho do motoboy. No entanto, o drama não vai muito além dos créditos finais, pois o filme opta por um tom otimista e sonhador, e nos leva ao encontro de uma redenção possível. Pelo menos aquela do “espírito”. Atualmente o filme em cartaz no Festival Latino Americano de Vancouver, Os 12 trabalhos (2006) do premiado cineasta do filme De passagem (2003), Ricardo Elias, já rodou os festivais de Berlin, Palm Springs, Miami, San Diego e Chicago. O filme foi premiado em San Sebastian (Espanha), Havana (Cuba), Festival do Rio e levou seis prêmios no Festival de Pernambuco. Não é para menos, afinal a trilha musical de André Abujamra e a seleção de atores, em especial o protagonista Sidney Santiago e Flávio Bauraqui, são realmente de tirar o chapéu. Os 12 trabalhos é São Paulo na sua máxima essência, aquela sublimada apesar de “concreta”.
Hudson Moura


Assista o trailer:


29 de agosto de 2007

Do armário para as telas

O cinema Queer vem ganhando espaço e se inserindo cada vez mais no debate político e social. Esse cinema sobre o mundo gay, lésbico e transexual, vem articulando seu discurso próprio sobre a descoberta e a afirmação sexual à temas atuais como o ativismo social, o debate político, o exílio e a imigração ilegal.

The Bubble (Ha Buah, 2006)(A bolha, tradução literal) do israelense Eytan Fox é uma história de amor entre um palestino e um israelense, à la Romeo e Julieta, onde incorpora o debate político entre as duas culturas no drama existencial dos protagonistas. Enquanto o personagem israelense se questiona sobre o seu papel como soldado de fronteira, o palestino tenta revelar sua opção sexual junto à sua família. O que torna o filme excepcionalmente bem realizado é a tensão entre a afirmação sexual e política dos personagens. O drama oscila constantemente entre os dois terrenos tentando se equilibrar num fio perigoso e extremamente instável. A passagem da fronteira entre Israel e o território palestino aumenta a tensão da intriga do filme e coloca tudo em suspensão, a possibilidade de uma relação estável entre dois homens de culturas opostas. O final do filme é tanto credível quanto absurdo, e coloca os espectadores numa posição difícil. A insensatez da guerra se torna a insensatez da discriminação contra os homossexuais.

Esses questionamentos sobre a aceitação de casais homossexuais e os conflitos sociais estão fortemente presentes no filme Riparo – Anis tra di noi (Shelter me ou Abrigo, Anis entre nós, tradução literal, 2006) do italiano Marco S. Puccioni. A multitalentosa e poliglota atriz e diretora portuguesa Maria de Medeiros, interpreta uma executiva italiana, Ana, que acaba, à contra-gosto, traficando um clandestino em seu carro na volta de uma viagem de férias na Tunísia. Anis, um adolescente marroquino, entra assim como mais um ponto de diferença na vida do casal lésbico. Enquanto, Ana resolve ajudar o rapaz, Mara, que trabalha como operária na fábrica de sapatos da família da amante, não concorda em abrigá-lo em sua casa. E a carga dramática do filme não pára por aí. As duas tem ainda que lidar com a rejeição da mãe de uma e o pai hospitalizado e esquizofrênico da outra.

Anis surge assim como um ponto de discórdia entre elas que acaba se tornando uma válvula de escape para uma relação por demais complexa. O personagem de Anis vai revelar ainda uma difícil situação dos imigrantes ilegais na Itália. Ele é o bom ingênuo de uma sociedade tradicional, que coloca questões simples e arcaicas mas que se revelam mais complexo do que se imagina: “Uma mulher precisar casar e ter um marido,” argumenta o rapaz dentro da sua obviedade das coisas. Incapaz de respondê-lo, Ana mostra a mesma inabilidade em lidar com o altruísmo e a compaixão “capitalista”. Até onde uma relação à dois existe por amor ou por conveniência? Até onde vai nossa aceitação aos diferentes?

Os curtas Borderless me (Não me fronteire, tradução literal, 2007, 12 min) (foto abaixo) de Setareh Mohammadi e Checkpoint (Ponto de revista, tradução literal, 2007, 14 min) de Alex Mah enfatizam os dramas da imigração e da discriminação sexual como temas principais dos documentários. Enquanto o primeiro coloca no centro do quadro o depoimento de uma transexual iraniana sobre os conflitos da aceitação social e sexual, o segundo entrelaça os depoimentos de sete transexuais imigrantes, que preferem não mostrarem seus rostos. Eles relatam a dificuldade em carregar uma carteira de identidade que pós-cirurgia de mudança de sexo não mais os corresponde. Como não se identificar ou ter piedade pelas histórias sofridas de seus entrevistados? Como construir imageticamente depoimentos tão dramáticos? Ambos filmes foram realizados dentro do projeto Firstout Vídeo do Festival do Cinema Queer de Vancouver, o qual dá oportunidade e treinamento a jovens gays para realizarem seus primeiros audiovisuais dentro da problemática do festival. O resultado é impressionante. Os vídeos saem do lugar comum e mostram temas maduros e complexos à serem realizados. Mesmo que Mohammadi opte pela maneira mais simples do documentário, ou seja, um entrevistado narrando a sua história para a câmera, a complexidade vem na narração e no grau de confiança entre diretor e personagem. Um depoimento forte e lúcido não somente sobre a sua condição pessoal mas principalmente sobre a sociedade canadense. As imagens de Quvi é constantemente remetida à imagens translúcidas e plácidas de lagos e de paisagens naturais, um contraste tão forte quanto a obstinação e certeza sobre a sua opção, para ela “natural”, da mudança de sexo. Outro desafio ainda mais desencorajador para o jovem documentarista Alex Mah estaria desde o ponto de partida de seu filme. Como ilustrar um documentário baseado em depoimentos pessoais, no qual os depoentes se opõem em serem vistos? A montagem são de vozes, de depoimentos que ecoam nas imagens da cidade na qual essas “novas” mulheres de vozes masculinas habitam. E, surpreendentemente, elas habitam também o filme. E, suas narrativas soam compreensíveis e encadeadas. O espectador não se perde entre um depoimento e outro que a medida que o filme avança se tornam cada vez menos abstratos. Seus rostos, assim, se tornam “irrelevantes” para entendermos a complexidade que vivem essas pessoas em habitar novos sexos e construírem novas “identidades”.

23 de agosto de 2007

Ativismo social e desenho animado no documentário mexicano "Super Amigos"

Super Amigos (2007) do cineasta mexicano Arturo Pérez Torres faz uma perfeita simbiose entre desenho animado, ativismo e documentário. O filme apresentado recentemente no Festival do Cinema Queer de Vancouver não é sobre a problemática homossexual mas inclui o ativismo gay entre tantos outros que existem no México. Super Amigos mostra o lado opressor e desigual da sociedade mexicana. O filme enfoca cinco super-heróis mascarados, lutadores de luta livre que defendem causas sociais. Super Barrio luta pelo direito dos mais pobres à moradia, Super Ecologista contra o desmatamento, Super Gay contra a homofobia, Frei Tormenta contra a miséria e Super Animal contra os maus tratos aos animais, especialmente as touradas, uma herança da cultura espanhola como ele mesmo diz. A grande qualidade e inovação deste documentário é de casar a animação e a linguagem dos quadrinhos à narração e à montagem do filme. Principalmente, quando o filme faz um retrospecto sobre o nascimento dos super-heróis.

O ativismo dos super-heróis varia bastante de um para outro. Enquanto que numa parte da cidade, Super Gay participa de passeatas e dá consultas às famílias de homossexuais que sofreram discriminação ou agressão física, Super Animal organiza protestos diante da assembléia legislativa e estádios de touradas. Enquanto Super Barrio encampa prédios e coloca a sua marca diante das moradias à la Zorro, Frei Tormenta prega o evangelho aos meninos de rua. Já Super Ecologista distribui cartões amarelos aos clientes de Wal-Mart que compram pinheiros de natal, faz instalações com restos de lixo no centro da cidade e conscientiza os consumidores quanto ao excesso no uso de embalagens e sacos plásticos nos supermercados.

Uma opção do filme que causa um certo desconforto nos espectadores é o fato de não mostrar a verdadeira identidade desses mascarados. Esta não somente uma opção do diretor mas algo defendido pelas pessoas por detrás das máscaras. Elas consideram irrelevante e cada uma explica e defende de uma maneira diferente a escolha de não revelarem suas identidades secretas. Enquanto um alega que o mito precisa continuar a existir independentemente de sua pessoa, outro diz que a causa que ele defende deve ser identificada com o personagem, e além disto, a máscara serve como uma proteção quanto a uma possível discriminação social. A discussão está lançada. O filme assim desvenda caracterísitcas essenciais para compreender a sociedade mexicana, aliada à uma narração criativa e uma direção bastante segura de Arturo Pérez Torres, fica quase impossível de não se tornar fã desses super-heróis. Aliás, que nome mais propício para os agentes sociais de hoje?

8 de março de 2007

Borat, um documentário supra-real

Que tipo de riso nos provoca o filme Borat, o segundo melhor repórter do glorioso país Cazaquistão viaja à América? O riso do escracho, o riso do espanto, o riso do desconforto, o riso do absurdo, o riso irônico, o riso desopilante, o riso constrangedor... às vezes, não tem graça nenhuma.

O filme escrito e interpretado pelo britânico Sacha Baron Cohen, é sobre um repórter de televisão do Cazaquistão, Borat Sagdiyev, que é enviado pelo seu governo aos Estados Unidos para aprender a cultura do “maior e melhor país do mundo”. Em Nova York ele vai abordar estranhos na rua e tentar cumprimentá-los à maneira calorosa de seu país, o que muitos se sentirão agredidos. Algumas cenas são patéticas e Borat incorpora literalmente o clichê do estrangeiro, estúpido e ingênuo, como acreditam muitos americanos, o que nessa leitura boratiana se torna: retardado e descompensado. Em outros momentos ele parte para o absurdo, como defecar em pleno centro da cidade sobre a fachada do imponente edifício do milionário Donald Trump, invadir uma convenção num hotel de luxo completamente nu ou fazer declarações misóginas, incestuosas, raciais e homofóbicas aos seus entrevistados. Ele vai sobretudo pressioná-los até seus limites, seja moral, racional, físico ou crença religiosa.

Fascinado pelo apelo sexual feminino na televisão americana, Borat se apaixona pela atriz de Baywatch, Pámela Anderson, e decide ir na Califórnia para pedir-lhe em casamento. A desculpa é boa e nos leva a atravessar os Estados Unidos de uma costa à outra. Um road-movie à la americana não poderia ser mais oportunista, e ao mesmo tempo, interessante pelo contraste de pessoas que Borat e seu fiel produtor Azamat encontram pelo caminho.

Há momentos que o pacto entre Borat e seus entrevistados realmente acontece e o filme nos presenteia com situações interessantes do non-sense e da banalidade. Como com os jovens universitários “fraternity boys” com quem Borat se embebeda num trailer móvel, ou com os fiéis de uma igreja pentecostal onde se faz exorcizar, ou ainda, com a turma de rappers negros. Outros momentos, Borat rompe com o contrato não deixando os entrevistados conduzirem a ficção, como com os convidados à mesa de jantar, ou com o instrutor da auto-escola. Outros momentos mais óbvios e constrangedores são aqueles em que os entrevistados acreditam realmente na ficção e tomam Borat como um verdadeiro repórter documentarista como com as feministas, o ativista do congresso, ou no rodeio, onde diante um público caloroso ele faz declarações embaraçosas e credíveis: “Que os EUA consigam matar todos os terroristas! Que George Bush possa beber o sangue de cada homem, mulher e criança do Iraque!”, seguido de aplausos da platéia.

O Cazaquistão existe de fato? Parece inoportuno ou desnecessário fazer a pergunta se o ator-entrevistador não tivesse feito tanta questão de trazer uma certa verdade ao discurso cinematográfico documental enfatizando as origens do personagem e do filme. Desde os créditos de abertura, a imagem simula o envelhecimento da película como se estivéssemos assistindo um filme feito pelos cazaquistões nos anos 80. A língua que Borat fala não é nem do Cazaquistão nem completamente falsa, e sim uma mistura do hebreu e do polonês. E, ao invés de recriar num estúdio as cenas do Cazaquistão, ele vai à um pequeno vilarejo da Romênia, que em concordância (monetária, com certeza) com os seus residentes, estes aceitam se fazerem passar pelo povo desse longínquo país. Será que hoje numa era globalizada onde Borat será visto no mundo todo, podemos ainda falar em distante ou exótico? Pelo que parece a escolha do Cazaquistão foi completamente aleatória e sem nenhuma razão em particular a não ser o fato de ser um lugar pouco conhecido no ocidente.

Borat me lembra um pouco os últimos filmes de Sérgio Bianchi (Cronicamente inviável e Quanto vale ou é por quilo?) onde há também esta mesma necessidade de levar o discurso documental aos seus limites de crença e descrença da imagem e da narrativa. Será que vivemos numa era tão absurda assim? (Hudson Moura)

20 de outubro de 2006

Cinematografia Filipina renova a potencialidade do digital

O digital se tornou um meio pelo qual emergem novas cinematografias e, ainda, novas expressões técnico-audiovisuais. O cinema filipino é prova desta conquista do digital no meio cinematográfico, tanto da sua criatividade quanto da sua versatilidade imagética. Nas periferias de Manila prolifera um cinema onde o DV se torna o meio de sobrevivência com bastante dinamismo de produção, sempre presente nos festivais internacionais.

Ele se apoia num cinema do tipo de balada, uma câmera ágil e leve em constante movimento, que consegue acompanhar os personagens nos guetos das favelas e fazer desfilar pequenos dramas e ações com uma força, raramente vista no cinema brasileiro, por exemplo. Baixo custo e senso de oportunismo na utilização de longos planos-seqüências como se fosse possível captar nos pequenos gestos imprevistos e improvisados, diante da câmera, a vida que se desenvolve, reage e interage com a própria história da periferia.

No ótimo A Cobradora de Apostas (Kubrador, dir. Jeffrey Jeturian - destaque da 30o. Mostra de Cinema de São Paulo) a câmera acompanha o ir e vir de Amy (Gina Pareño) – a cobradora do título – nas favelas de Quenzo coletando apostas e aconselhando os apostadores como num jogo do bicho nas favelas cariocas. Já no excelente The Blossoming of Maximo Oliveros (dir. Auraeus Solito)
 a câmera acompanha Max, um menino de 12 anos nas favelas de Manila, que nutre uma paixão por um policial do bairro, em oposição à família, pai e irmãos, todos ligados a pequenos crimes e furtos. Max substitui literalmente a mãe falecida, tanto nos afazeres domésticos, quanto na figura feminina da casa. A homossexualidade de Max não somente é respeitada pela família quanto protegida e completamente incorporada. Não existe desaprovação, discussão ou desconforto, algo raro de se ver na maioria de filmes que retratam o tema.

Em Todo Todo Teros (dir. John Torres) – ganhador do prêmio Dragões e Tigres do 25o. Festival de Vancouver – o approch é completamente diferente do tipo de cinema narrativo, e se aproxima muito mais ao cinema experimental, especialmente ao universo do documentarista-mito do cinema francês Chris Marker (La Jetée, Level 5). Torres faz uma espécie de colagem entre o documentário e a ficção, entre o drama e o diário-filmado, misturando amor com política. O resultado é caótico e muito instigante, trazendo à tona discussões e assuntos controversos e inesperados, como o de que todo artista filipino é um terrorista. Torres desvenda uma outra Manila, longe dos romances melodramáticos e tragicômicos das telenovelas (um gênero que impera nesta ex-colônia espanhola), mas um país fragilizado por uma situação política instável e difícil. O diretor abusa dos recursos da câmera digital o que fragmenta ainda mais a narrativa do filme. Bons momentos acabam se sobressaindo como o efeito persiana na imagem, de uma câmera que acompanha dois “espiões”. Todo Todo Teros é mais uma prova que dinheiro não é sinônimo de inventividade artística. (Hudson Moura)

5 de outubro de 2006

"The Queen" de Stephen Frears: Retrato Constrangedor de uma Rainha Vulnerável

O que impressiona no filme A Rainha de Stephen Frears é a sobriedade e a finesse com que trata os personagens – o trabalho da atriz Helen Mirren (foto) como a Rainha Elizabeth II é nada menos que impressionante – e, a riqueza de detalhes sobre os “bastidores da notícia” – os acontecimentos palacianos que sucedem a morte da Princesa Diana. O filme é minucioso ao apresentar um portrait incrível da família real britânica, às vezes, constrangedor e irônico, com interpretações memoráveis e um roteiro preciso.

O filme mostra como a morte da Princesa se tornou um problema de estado e de luta de poder entre o recém eleito primeiro-ministro Tony Blair e a Rainha da Inglaterra. Enquanto ela tenta tratar do assunto como algo íntimo e reservado à família real seguindo o protocolo oficial, Blair pressente a grande proporção midiática do evento. Ao subestimar o poder da mídia e do mito Diana perante o grande público, a rainha se mostra vulnerável e rancorosa, ao ver cada vez mais sua imagem ser obscurecida por uma ex-princesa. O filme mostra, a criação sábia e oportunista de Blair ao nomear Diana, pela primeira vez, como a Princesa do Povo.

Mesclando imagens de arquivo com imagens ficcionais dos atores, o filme apresenta uma fotografia eficiente nas passagens de imagens num trabalho rigoroso do fotógrafo brasileiro Affonso Beato. O plano de abertura é maravilhoso e dá bem o tom do filme: a rainha está sentada posando com seu manto real para o pintor do palácio, após algumas réplicas de um diálogo afinado e irônico sobre a realeza, em plano fechado enquadrando a barra do manto ao chão, a câmera sobe lentamente mostrando os detalhes da veste até enquadrar o rosto de Elizabeth II, que meio de perfil move em direção à câmera, fixando o olhar para o pintor-público. Ao lado de seu rosto surge o título do filme: A Rainha. Que ninguém tenha dúvidas: este é um filme britânico com humor britânico e sobre britânicos.

Outra cena, descreve bem o respeito que os britânicos tem pela monarquia e a realeza, é quando a rainha sentada sozinha, chora pela primeira (única) vez. A câmera não somente é discreta como se ausenta da cena, não mostrando o rosto de Sua Majestade.

Este é o primeiro filme importante que trata sobre a morte controversa da Princesa Diana. O filme escolheu o caminho mais simples e eficaz, deixar as imagens da princesa e dos eventos se expressarem por si mesmos. Vemos desfilar na tela a imagem da princesa sendo duplicada e digerida por uma mídia ávida e sem piedade. E, a julgar pelas imagens da época e a comoção que elas trazem para a tela hoje, nenhuma ficção parece ser capaz de suprir tal evento ou dar tal veracidade. Nada melhor que imagens documentais para testemunhar todo o circo em torno da supra mediatizada família real. Ao mostrar a mídia, através de suas próprias imagens, no filme, fica claro como a mídia cai sem cesse em sua armadilha: se torna imagem de si própria, num papel patético e redundante. Ela é notícia de si mesma.

O timing do filme é igualmente impressionante, ao retratar a tomada de posse de Tony Blair justamente agora, no momento em que o mesmo se despede do cargo, não poderia ser mais apropriado. Aliás, o filme fecha com um diálogo entre Blair e a Rainha, justamente fazendo alusão a este momento (o reverso da medalha: o que hoje se clama como herói do povo, amanhã poderá ser clamado vilão). Se a rainha subestima no início a proporção de seus atos, no final ela parece tirar bem a lição dos acontecimentos. Ela admite que este poderá ser um dos episódios que irá marcar o seu reinado, que este ano completa 50 anos. Mas, o retrato que o filme apresenta da Rainha da Inglaterra – diferente do portrait oficial do pintor – independente de sua autenticidade ou mesmo de sua ironia, é impiedoso. Ele a flagra num momento de puro constrangimento e vulnerabilidade, mesmo que este tenha sido curto e passageiro. Mas, a julgar pela qualidade do filme este momento perdurará por muito tempo no imaginário coletivo.

Helen Mirren, no papel da Rainha, enriquece cada gesto, olhar ou caminhar do personagem num trabalho minucioso e extraordinário de composição. Seu trabalho como Elizabeth II já lhe valeu o prêmio de melhor atriz na Bienal de Veneza. Aliás, ela se especializou em interpretar nobres e este ano vem ganhando todos os prêmios também das televisões britânicas e americanas por um outro papel como rainha da Inglaterra, desta vez, pela minissérie Elizabeth I.

A Rainha (The Queen, UK, 2006) ganhou ainda o prêmio Fipresci de melhor filme na opinião da imprensa internacional e melhor roteiro para Peter Morgan na Bienal de Veneza. O filme encerra o 25. Festival Internacional de Cinema de Vancouver no dia 13 de outubro. (Hudson Moura)

Visite o site da Revista Intermídias