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10 de janeiro de 2012

"O que é um dispositivo?" por Gilles Deleuze


A filosofia de Foucault apresenta-se freqüentemente como uma análise de dispositivos concretos. Mas o que é um dispositivo?1 É antes de mais nada um emaranhado, um conjunto multilinear. Ele é composto de linhas de natureza diferente. E estas linhas do dispositivo não cercam ou não delimitam sistemas homogêneos, o objeto, o sujeito, a língua, etc., mas seguem direções, traçam processos sempre em desequilíbrio, às vezes se aproximam, às vezes se afastam umas das outras. Cada linha é quebrada, submetida a variações de direção, bifurcante e engalhada, submetida a derivações. Os objetos visíveis, os enunciados formuláveis, as forças em exercício, os sujeitos em posição são como vetores ou tensores. Assim as três grandes instâncias que Foucault distinguirá sucessivamente, Saber, Poder e Subjetividade, não têm de maneira alguma contornos fixos, mas são correntes de variáveis em luta umas com as outras. É sempre numa crise que Foucault descobre uma nova dimensão, uma nova linha. Os grandes pensadores são um pouco sísmicos, eles não evoluem mas procedem por crises e por abalos. Pensar em termos de linhas móveis, é a operação de Herman Melville, e havia linhas de pesca, linhas de submersão, perigosas, até mesmo mortais. Há linhas de sedimentação, disse Foucault, mas há linhas de "ruptura", de "fratura". Separar as linhas de um dispositivo, em cada caso, é desenhar um mapa, cartografar, medir a passos terras desconhecidas, e é isso que ele chama de "trabalho sobre o terreno". É necessário instalar-se sobre as próprias linhas, que não se limitam a compor um dispositivo, mas que o atravessam e o arrastam, do norte ao sul, do leste ao oeste ou em diagonal.

As duas primeiras dimensões de um dispositivo, ou aquelas que Foucault separa no início, são as curvas de visibilidade e as curvas de enunciação. Os dispositivos são como máquinas de Raymond Roussel analisadas por Foucault, são máquinas de fazer ver e de fazer falar. A visibilidade não remete a uma luz em geral que viria iluminar os objetos preexistentes, ela é feita de linhas de luz que formam figuras variáveis inseparáveis deste ou daquele dispositivo. Cada dispositivo tem seu regime de luz, maneira pela qual a luz cai, se esfuma, se expande, distribuindo o visível e o invisível, fazendo nascer ou desaparecer um objeto que não existe sem ela. Não é só a pintura mas a arquitetura: assim o "dispositivo prisão" como máquina óptica, para ver sem ser visto. Se há uma historicidade dos dispositivos, é a dos regimes de luz, mas também a dos regimes de enunciados. Pois os enunciados, por sua vez, remetem a linhas de enunciação sobre as quais se distribuem as posições diferenciais de seus elementos: e, se as curvas são elas próprias enunciados, é porque as enunciações são curvas que distribuem variáveis, de modo que uma ciência nesse momento, ou um gênero literário, ou um estado de direito, ou um movimento social, se definem precisamente através de regimes de enunciados que eles fazem nascer. Não são nem os sujeitos nem os objetos, mas os regimes que devem se definir para o visível e para o enunciável, com suas derivações, suas transformações, suas mutações. E, em cada dispositivo, as linhas transpõem alguns limiares, em função dos quais elas são estéticas, científicas, políticas, etc.

Em terceiro lugar, um dispositivo comporta as linhas de força. Dir-se-ia que elas vão de um ponto singular a um outro nas linhas precedentes; de certa maneira elas "retificam" as curvas precedentes, traçam tangentes, envolvem os trajetos de uma linha à outra, operam o vai e vem do ver ao dizer e inversamente, agindo como flechas que não param de entrecruzar as coisas e as palavras, levando adiante a batalha entre elas. A linha de força se produz "em toda a relação de um ponto a outro", e passa por todos os lugares de um dispositivo. Invisível e indizível, ela está estreitamente embaraçada às outras, e, no entanto, pode ser desembaraçada. É ela que Foucault traça, é sua trajetória que ele encontra em Roussel, em Brisset, nos pintores Magritte ou Rebeyrolle. É a "dimensão do poder", e o poder é a terceira dimensão do espaço, interior ao dispositivo, variável com os dispositivos. Ela se compõe, com o poder, com o saber.

Enfim Foucault descobre as linhas de subjetivação. Essa nova dimensão já suscitou tantos mal entendidos que passamos por dificuldades em precisar suas condições. Mais que qualquer outra, sua descoberta nasce de uma crise do pensamento de Foucault, como se ele tivesse que remanejar o mapa dos dispositivos, encontrar para eles uma nova orientação possível, para não deixá-los simplesmente se fechar sobre as linhas de força intransponíveis, impondo contornos definitivos. Leibniz exprimia de maneira exemplar esse estado de crise que relança o pensamento quando se crê que tudo está quase resolvido: pensávamos ter chegado ao porto, mas somos jogados de novo em alto mar. E Foucault, por sua vez, pressente que os dispositivos que analisa não podem ser circunscritos por uma linha que os envolve, sem que outros vetores passem por cima ou por baixo: "transpor a linha", ele diz, como "passar do outro lado"? Essa ultrapassagem da linha de força, é o que se produz quando ela se recurva, faz meandros, afunda, e torna-se subterrânea, ou antes quando a força, em vez de entrar numa concordância linear com outra força, volta-se sobre si própria e se exerce sobre si própria ou se afeta a si mesma. Esta dimensão do Si não é de maneira alguma uma determinação preexistente que se encontraria pronta. Antes de mais nada, uma linha de subjetivação é um processo, uma produção de subjetividade em um dispositivo: ela tem que se fazer, contanto que o dispositivo o permita ou possibilite. É uma linha de fuga. Ela escapa às linhas precedentes, ela se lhes escapa. O Si não é nem um saber nem um poder. É um processo de individuação que age nos grupos ou nas pessoas, e se subtrai tanto às relações de forças estabelecidas quanto aos saberes constituídos: uma espécie de mais-valia. Não é seguro que todo dispositivo comporte isto.

Foucault considera o dispositivo da cidade ateniense como o primeiro lugar da invenção de uma subjetivação: é que, de acordo com a definição original que ele propõe, a cidade inventa uma linha de força que passa pela rivalidade dos homens livres. Ora, desta linha sobre a qual um homem livre pode comandar outros, separa-se outra muito diferente, segundo a qual aquele que comanda os homens livres deve ele mesmo ser mestre de si. São estas regras facultativas do domínio de si que constituem uma subjetivação, autônoma, mesmo se, na seqüência, ela é chamada a fornecer novos saberes e a inspirar novos poderes. Perguntar-se-á se as linhas de subjetivação não são a borda extrema de um dispositivo, e se elas não esboçam a passagem de um dispositivo a outro: elas preparariam neste sentido as "linhas de fratura". E, assim como as outras linhas, as de subjetivação não têm uma fórmula geral. Brutalmente interrompida, a pesquisa de Foucault deveria mostrar que os processos de subjetivação apresentam eventualmente modalidades totalmente diferente do grego, por exemplo os dispositivos cristãos, os das sociedades modernas, etc. Não se pode invocar dispositivos onde a subjetivação não passe pela vida aristocrática ou pela existência estilizada do homem livre, mas pela existência marginalizada do "excluído"? Assim o sinólogo Tokeï explica como o escravo alforriado perdia de certa forma seu estado social, e se encontrava remetido a uma subjetividade isolada, queixosa, existência elegíaca, de onde ele iria retirar novas formas de poder e saber. O estudo das variações dos processos de subjetivação parece mesmo ser umas das tarefas fundamentais que Foucault deixou àqueles que o seguiriam. Nós cremos na fecundidade extrema desta pesquisa, que os projetos atuais, no que concerne a uma história da vida privada, abrangem apenas parcialmente. Quem se subjetiva são às vezes os nobres, aqueles que dizem, segundo Nietzsche, "nós os bons...", mas sob outras condições são os excluídos, os maus, os pecadores, ou podem também ser os eremitas, ou também as comunidades monacais ou mesmo os hereges: toda uma tipologia de formação subjetiva em dispositivos móveis. E por toda parte misturas a serem desfeitas: as produções de subjetividade escapam dos poderes e dos saberes de um dispositivo para se reinvestirem nos poderes e saberes de um outro dispositivo, sob outras formas ainda por nascer.

Os dispositivos têm portanto como componentes linhas de visibilidade, de enunciação, linhas de força, linhas de subjetivação, linhas de ruptura, de fissura, de fratura, e todas se entrecruzam e se misturam, de modo que umas repõem as outras ou suscitam outras, através de variações ou mesmo de mutações de agenciamento. Duas conseqüências importantes decorrem disto para uma filosofia dos dispositivos. A primeira é o repúdio aos universais. O universal na verdade não explica nada, é ele que deve ser explicado. Todas as linhas são linhas de variação, que não têm nem mesmo coordenadas constantes. O Uno, o Todo, o Verdadeiro, o objeto, o sujeito, não são universais, mas processos singulares, de unificação, de totalização, de verificação, de objetivação, de subjetivação imanentes a um determinado dispositivo. E ainda, cada dispositivo é uma multiplicidade na qual operam determinados processos em devir, distintos daqueles que operam em outro. É neste sentido que a filosofia de Foucault é um pragmatismo, um funcionalismo, um positivismo, um pluralismo. Talvez seja a Razão que apresente o maior problema , porque processos de racionalização podem operar sobre segmentos ou regiões de todas as linhas consideradas. Foucault homenageia a Nietzsche com uma historicidade da razão; ele assinala toda a importância de uma pesquisa epistemológica sobre as diversas formas de racionalidade de saber (Koyré, Bachelard, Canguilhem), de uma pesquisa sociopolítica dos modos de racionalidade do poder (Max Weber). Ele reserva, talvez, para si mesmo, a terceira linha, os estudos dos tipos de "razão" em sujeitos eventuais. Mas o que ele recusa essencialmente, é a identificação destes processos em uma Razão por excelência. Ele recusa toda restauração dos universais de reflexão, de comunicação, de consenso. Pode-se dizer desta maneira que suas relações com a Escola de Frankfurt, e com os sucessores desta escola, são uma longa seqüência de mal entendidos pelos quais ele não é responsável. Da mesma forma que não há a universalidade de um sujeito fundador ou de uma Razão por excelência que permitiria julgar os dispositivos, não há universais da catástrofe onde a razão se alienaria, desmoronaria de uma vez por todas. Como Foucault diz a Gerard Raulet, não há uma bifurcação da razão mas ela não para de se bifurcar, há tantas bifurcações e desdobramentos quanto instaurações, tantos desabamentos quanto construções, segundo os cortes operados pelos dispositivos, e "não há nenhum sentido sob a proposição segundo a qual a razão é um longo discurso que agora terminou". Deste ponto de vista, a questão que se coloca a Foucault, de saber se é possível avaliar o valor relativo de um dispositivo, se não se pode invocar valores transcendentes como coordenadas universais, é uma questão com a qual se corre o risco de retroceder e de perder o sentido. Dir-se-á que todos os dispositivos se eqüivalem (niilismo)? Há muito tempo que pensadores como Espinosa ou Nietzsche demonstraram que os modos de existência deviam ser avaliados de acordo com critérios imanentes, segundo seu teor de "possibilidades", de liberdade, de criatividade sem apelar-se a valores transcendentes. Foucault fará a mesma alusão a critérios "estéticos", compreendidos como critérios de vida, que substituem as pretensões de um julgamento transcendente por uma avaliação imanente. Quando lemos os últimos livros de Foucault, devemos nos esforçar para compreender o programa que ele propõe aos seus leitores. Uma estética intrínseca dos modos de existência, como última dimensão dos dispositivos?

A segunda conseqüência2 de uma filosofia dos dispositivos é uma mudança de orientação, ela se desvia do Eterno para apreender o novo. Não se supõe que o novo designe a moda, mas pelo contrário, a criatividade variável segundo os dispositivos: de acordo com a questão que começou a ser formulada no século XX, como é possível no mundo a produção de alguma coisa nova? É verdade que, em toda sua teoria da enunciação, Foucault recusa explicitamente a "originalidade" de um enunciado como critério pouco pertinente, pouco interessante. Ele quer considerar somente a "regularidade" dos enunciados. Mas o que ele entende por regularidade, é o traçado da curva que passa pelos pontos singulares, ou os valores diferenciais do conjunto enunciativo (assim ele definirá as relações de força por distribuições de singularidades em um campo social). Quando ele recusa a originalidade de um enunciado, ele quer dizer que a eventual contradição de dois enunciados não é suficiente para os distinguir, nem para marcar a novidade de um em relação ao outro. Pois o que conta é a novidade do próprio regime de enunciação, na medida que ele pode abranger enunciados contraditórios. Por exemplo, pode se perguntar qual regime de enunciado aparece com o dispositivo da Revolução francesa ou da Revolução bolchevique: é a novidade do regime que conta, e não a originalidade do enunciado. Todo dispositivo se define assim por seu teor de novidade e criatividade, que marca ao mesmo tempo sua capacidade de se transformar, ou de se cindir em proveito de um dispositivo futuro, ou ao contrário, de fortificar-se sobre suas linhas mais duras, mais rígidas ou sólidas. Na medida que elas escapam das dimensões do saber e poder, as linhas de subjetivação parecem particularmente capazes de traçar caminhos de criação, que não param de abortar, mas também, de serem retomados, modificados, até a ruptura do antigo dispositivo. Os estudos ainda inéditos de Foucault sobre os diversos processos cristãos, abrem sem dúvida numerosas vias a este respeito. Contudo, não se acreditará que a produção de subjetividade seja devolvida à religião: as lutas anti-religiosas são também criadoras assim como os regimes de luz, de enunciação ou de dominação, passam pelos domínios os mais diversos. As subjetivações modernas não se parecem mais nem com a dos Gregos nem com a dos cristãos, e o mesmo ocorre com a luz, com os enunciados e os poderes.

Nós pertencemos a dispositivos e agimos neles. A novidade de um dispositivo em relação aos precedentes pode ser chamada de sua atualidade, nossa atualidade. O novo é o atual. O atual não é o que somos, mas antes o que nós nos tornamos, aquilo que estamos nos tornando, isto é o Outro, nosso tornar-se outro. Em todo dispositivo, é preciso distinguir aquilo que nós somos (aquilo que nós já não somos mais) e aquilo que nós estamos nos tornando: a parte da história, e a parte do atual. A história é o arquivo, o desenho daquilo que nós somos e que paramos de ser, enquanto que o atual é o esboço daquilo que nós nos tornamos. De modo que a história ou o arquivo é o que nos separa ainda de nós mesmos enquanto que o atual é este Outro com o qual nós já coincidimos. Acreditou-se, às vezes, que Foucault desenhava o quadro da sociedade moderna com o dispositivo das sociedades disciplinares em oposição aos velhos dispositivos de soberania. Mas isto não quer dizer nada: as disciplinas descritas por Foucault são a história daquilo que nós deixamos de ser pouco a pouco, e nossa atualidade se delineia nas disposições de controle aberto e contínuo, muito diferentes das recentes disciplinas fechadas. Foucault concorda com Burroughs, que anuncia nosso futuro controlado ao invés de disciplinado. A questão não é saber se é pior. Pois também nós apelamos para produções de subjetividade capazes de resistir a esta nova dominação, muito diferente daquelas que se exerciam antigamente contra as disciplinas. Uma nova luz, novos enunciados, uma nova potência, novas formas de subjetivação? Em todo dispositivo, nós temos que desembaraçar as linhas do passado recente das do futuro próximo: a parte do arquivo da parte do atual, a parte da história daquela do devir, a parte da analítica e a do diagnóstico. Se Foucault é um grande filósofo, é porque ele se serviu da história em proveito de outra coisa: como dizia Nietzsche, agir contra o tempo e assim mesmo sobre o tempo, em favor espero de um tempo que está porvir. Pois o que aparece como o atual ou o novo segundo Foucault, é o que Niestzsche chamava de intempestivo, do inatual, este devir que se bifurca com a história, este diagnóstico que continua a análise por outros caminhos. Não predizer mas estar atento ao desconhecido que bate à porta. Nada o mostra melhor que uma passagem fundamental da Arqueologia do saber, e que vale por toda a obra:

A análise do arquivo comporta, pois, uma região privilegiada: ao mesmo tempo próxima de nós, mas diferente de nossa atualidade, trata-se da orla do tempo que cerca nosso presente, que o domina e que o indica em sua alteridade; é aquilo que, fora de nós, nos delimita. A descrição do arquivo desenvolve suas possibilidades (e o controle de suas possibilidades) a partir dos discursos que começam a deixar justamente de ser os nossos; seu limiar de existência é instaurado pelo corte que nos separa do que não podemos mais dizer e do que fica fora de nossa prática discursiva; começa com o exterior de nossa própria linguagem; seu lugar é o afastamento de nossas próprias práticas discursivas. Nesse sentido, vale para nosso diagnóstico. Não porque nos permitiria levantar o quadro de nossos traços distintivos e esboçar, antecipadamente, o perfil que teremos no futuro, mas porque nos desprende de nossas continuidades; dissipa essa identidade temporal em que gostamos de nos olhar para conjurar as rupturas da história; rompe o fio das teleologias transcendentais e aí onde o pensamento antropológico interrogava o ser do homem ou sua subjetividade, faz com que o outro e o externo se manifestem com evidência. O diagnóstico assim entendido não estabelece a autenticação de nossa identidade pelo jogo das distinções. Ele estabelece que somos diferença, que nossa razão é a diferença dos discursos, nossa história a diferença dos tempos, nosso eu a diferença das máscaras.” (FOUCAULT, [1969], 1987: 150 e 151)3.

As diferentes linhas de um dispositivo se dividem em dois grupos: linhas de estratificação ou de sedimentação, linhas de atualização ou de criatividade. A última conseqüência deste método é o que trata toda a obra de Foucault. Na maior parte dos seus livros, ele determina um arquivo preciso, com meios históricos extremamente novos, sobre o Hospital Geral no século XVII, sobre a clínica no século XVIII, sobre a prisão no século XIX, sobre a subjetividade na Grécia antiga, depois no cristianismo. Mas é a metade de sua tarefa. Pois por causa do rigor, por vontade de não misturar tudo, por confiança no leitor, ele não formula a outra metade. Ele a formula somente e explicitamente nas entrevistas contemporâneas a cada um de seus livros: o que é hoje em dia a loucura, a prisão, a sexualidade? Quais modos novos de subjetivação nós vemos aparecer hoje que, certamente, não são gregos nem cristãos? Esta última questão, principalmente, persegue Foucault até o fim (nós que não somos mais gregos nem mesmo cristãos...). Se Foucault até o fim da sua vida dava tanta importância às suas entrevistas, na França e mais ainda no estrangeiro, não é por gosto da entrevista, é porque ele ali traçava linhas de atualização que exigiam um modo de expressão diverso daquele exigido pelas linhas assimiláveis nos grandes livros. As entrevistas são diagnósticos. Como em Nietzsche, onde é difícil ler as obras sem juntar o Nachlass4 contemporâneo de cada uma destas obras. A obra completa de Foucault, tal como a concebiam Defert e Edwald, não pode separar os livros que nos marcaram a todos, e as entrevistas que nos levam a um porvir, à um devir: os estratos e as atualidades.

Resumo das discussões.
Sr. Karkeits nota que Gilles Deleuze não empregou a palavra "verdade". Onde deve se colocar o dizer verdadeiro que Foucault fala nas suas últimas entrevistas? Trata-se de um dispositivo em si? Ou é uma dimensão de todo dispositivo?
Gilles Deleuze responde que, em Foucault, não há nenhuma universalidade do verdadeiro. A verdade designa o conjunto das produções que se fazem no interior de um dispositivo. Um dispositivo abrange verdades de enunciação, verdades de luz e de visibilidade, verdades de força, verdades de subjetivação. A verdade é a efetuação das linhas que constituem o dispositivo. Extrair do conjunto dos dispositivos uma vontade de verdade que passasse de uma à outra como uma constante é uma proposição sem sentido segundo Foucault.

Manfred Franck observa que a filosofia de Foucault pertence a uma tradição pós-hegeliana e pós-marxista que queria romper com o universal do pensamento do Iluminismo. Contudo, acha-se em Foucault universais de toda a sorte: dispositivos, discursos, arquivos, etc., que provam que a ruptura com o universal não é radical. No lugar de um universal, encontram-se vários, em vários níveis.
Gilles Deleuze sublinha que a verdadeira fronteira está entre constantes e variáveis. A crítica dos universais pode se traduzir numa questão: como é possível que alguma coisa nova surgisse no mundo? Outros filósofos, Whitehead, Bergson, fizeram desta questão a questão fundamental da filosofia moderna. Pouco importa que se empregue os termos gerais para pensar os dispositivos: são nomes de variáveis. Toda constante é suprimida. As linhas que compõem os dispositivos afirmam variações contínuas. Não há mais universais, isto quer dizer que não há nada mais do que linhas de variação. Os termos gerais são coordenadas cujo sentido é tão somente o de tornar possível a avaliação de uma variação contínua.

Raymond Bellour pergunta onde se deve situar os textos de Foucault que se relacionam com a arte: do lado do livro, e portanto do arquivo, ou do lado das entrevistas e portanto do atual?
Gilles Deleuze lembra o projeto de Foucault de escrever um livro sobre Manet. Nesse livro Foucault teria sem dúvida analisado mais que as linhas e as cores, o regime de luz de Manet. Esse livro teria pertencido ao arquivo. As entrevistas teriam tirado do arquivo as linhas de atualidade.
Foucault poderia ter dito: Manet é o que o pintor deixa de ser. Isso não retira nada do valor de Manet. Pois a grandeza de Manet é o devir de Manet no momento em que ele pinta. Essas entrevistas teriam consistido em separar linhas de fissura e de fratura que fazem com que os pintores de hoje entrem em regime de luz dos quais se dirá: eles são outros, isto é, há um devir outro da luz.
Para as artes também, há a complementariedade dos dois aspectos da analítica (do que nós somos e por isso mesmo do que nós deixamos de ser) e do diagnóstico (o devir outro no qual nós chegamos). A analítica de Manet implica num diagnóstico daquilo que torna-se a luz a partir de Manet e depois dele.

Walter Seitter se espanta com o "fisicalismo" que permeia a apresentação de Gilles Deleuze.
Gilles Deleuze refuta a expressão na medida em que ela deixaria supor que, sob regimes de luz, haveria uma luz bruta fisicamente enunciável. O físico é um limiar de visibilidade e de enunciação. Não há nenhum dado, em um dispositivo, que esteja no seu estado selvagem, mas que haja um regime físico da luz, de linhas de luz, de ondas e vibrações, por que não?

Fati Tricki pergunta como e onde introduzir nos dispositivos a possibilidade de demolição das técnicas modernas da servidão. Onde podem se localizar as práticas de Michel Foucault?
Gilles Deleuze indica que não há uma resposta geral. Se há diagnóstico em Foucault, é porque é preciso assinalar, para cada dispositivo, suas linhas de fissura e de fratura. Em certos momentos elas se situam no nível dos poderes, noutros no nível dos saberes. De um modo geral, pode-se dizer que as linhas de subjetivação indicam as fissuras e as fraturas. Mas trata-se de uma casuística. Tem-se que avaliar de acordo com o caso, de acordo com o teor dos dispositivos. Dando-se uma resposta geral, suprimisse esta disciplina que é tão importante quanto a arqueologia, isto é, a disciplina do diagnóstico.

Faiti Tricki pergunta se a filosofia de Foucault pode chegar a romper os muros do ocidente. É uma filosofia extra-muros?
Gilles Deleuze: Foucault restringiu por muito tempo seu método às seqüências curtas da história francesa. Mas com os últimos livros, ele visa uma seqüência longa, desde os gregos. Uma mesma extensão pode-se fazer geograficamente? Pode-se servir de métodos análogos aos de Foucault para estudar os dispositivos orientais ou aqueles do Oriente Médio? Certamente, pois a linguagem de Foucault, que considera as coisas como feixes de linhas, como emaranhado, como conjuntos multilineares, é como oriental.

Notas da tradução:
1. Tradução de Ruy de Souza Dias (com agradecimentos a Fernando Cazarini) e Helio Rebello (revisão técnica), finalizada em março de 2001, a partir do texto: DELEUZE, Gilles. Qu'est-ce qu'un disposif? IN Michel Foucault philosophe. Rencontre internationale. Paris 9, 10, 11 janvier 1988. Paris, Seuil. 1989.
2. A partir deste parágrafo e até o Resumo das discussões este texto foi traduzido e publicado como Foucault, historiador do presente IN ESCOBAR, Carlos Henrique (org.) Dossier Deleuze. Rio de Janeiro: Hólon, 1991:85-88.
3. FOUCAULT, Michel. A Arqueologia do Saber. [1969].Tradução de Luiz Baeta Neves. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1987.
4. Nachlass: [Do Alemão: nach: depois; lass: deixado.] deixado pra depois; rascunhos; escritos não publicados; espólio; herança.

22 de outubro de 2011

Pensamento Nômade por Gilles Deleuze

e entrevista do filósofo concedida à André Flécheux e Mieke Taat [1973] (1) 

Se perguntarmos o que é ou o que vem a ser Nietzsche hoje em dia, sabemos muito bem a quem é preciso se dirigir. É preciso se dirigir aos jovens que estão lendo Nietzsche, que estão descobrindo Nietzsche. Quanto a nós, já somos muito velhos na maioria aqui. O que é que um jovem descobre atualmente em Nietzsche, que certamente não é aquilo que minha geração descobriu nele, que certamente não era aquilo que as gerações precedentes tinham descoberto? Como é que acontece que jovens músicos de hoje sintam-se ligados a Nietzsche naquilo que fazem, embora não façam absolutamente uma música nietzscheana no sentido em que Nietzsche a fazia? Como é que ocorre que jovens pintores, jovens cineastas sintam-se ligados a Nietzsche? Que se passa, ou seja, como é que eles recebem Nietzsche? A rigor, e olhando de fora, tudo o que se pode explicar é de que maneira Nietzsche exigiu para si mesmo e para seus leitores, contemporâneos e futuros, um certo direito ao contra-senso. Não um direito qualquer, aliás, porque ele tem suas regras secretas, mas um certo direito ao contra-senso a respeito do qual eu gostaria de me explicar logo mais, e que faz com que a questão não seja comentar Nietzsche como se comenta Descartes, Hegel. Eu digo a mim mesmo: quem é hoje em dia o jovem nietzscheano? Será aquele que prepara um trabalho sobre Nietzsche? É possível. Ou então é aquele que, voluntária ou involuntariamente, pouco importa, produz enunciados particularmente nietzscheanos no decorrer de uma ação, de uma paixão, de uma experiência? Isto também acontece. Pelo que conheço, um dos textos recentes mais belos, mais profundamente nietzscheanos, é o texto em que Richard Deshayes escreve: Viver, não é sobreviver, exatamente antes de receber uma granada durante uma manifestação (2). Talvez os dois casos não se excluam. Talvez se possa escrever sobre Nietzsche e depois produzir enunciados nietzscheanos no decorrer da experiência.

Sentimos todos os perigos que nos espreitam nessa questão: o que é Nietzsche hoje? Perigo demagógico (“os jovens conosco”...) Perigo paternalista (conselhos a um jovem leitor de Nietzsche...) E em seguida, sobretudo, perigo de uma síntese abominável. Toma-se como aurora da nossa cultura moderna a trindade: Nietzsche, Freud, Marx. Pouco importa que todo mundo esteja aqui desarmado de antemão. Marx e Freud talvez sejam a aurora da nossa cultura, mas Nietzsche é claramente outra coisa, ele é a aurora de uma contracultura. É evidente que a sociedade moderna não funciona a partir de códigos. É uma sociedade que funciona sobre outras bases. Ora, se consideramos Marx e Freud, não literalmente, mas o devir do marxismo ou devir do freudismo, vemos que eles se lançaram paradoxalmente numa espécie de tentativa de recodificação: recodificação pelo Estado, no caso do marxismo (“vocês estão doentes pelo Estado, e serão curados pelo Estado”, não será o mesmo Estado); recodificação pela família (estar doente pela família, curar-se pela família, não a mesma família). É isto que realmente constitui, no horizonte da nossa cultura, o marxismo e a psicanálise, como as duas burocracias fundamentais, uma pública, outra privada, cuja meta é operar bem ou mal uma recodificação daquilo que não pára de se descodificar no horizonte. O caso de Nietzsche, ao contrário, não é absolutamente esse. Seu problema está em outro lugar. Através de todos os códigos, do passado, do presente, do futuro, trata-se para ele de fazer passar algo que não se deixa e não se deixará codificar. Fazê-lo passar num novo corpo, inventar um corpo no qual isso possa passar e fluir: um corpo que seria o nosso, o da terra, o do escrito...

Conhecemos os grandes instrumentos de codificação. As sociedades não variam tanto, não dispõem de tantos meios de codificação. Conhecemos três principais: a lei, o contrato e a instituição. Nós os reencontramos  muito bem, por exemplo, na relação que os homens mantêm ou mantiveram com os livros. Existem livros da lei, nos quais a relação do leitor com o livro passa pela lei. Aliás, nós os denominamos mais particularmente códigos, ou livros sagrados. Em seguida há uma outra espécie de livros que passam pelo contrato, a relação contratual burguesa. É esta a base da literatura leiga e da relação de venda do livro: eu compro, você me dá o que ler – uma relação contratual na qual todos, autor, leitor, estão presos. E há ainda outra espécie de livros, o livro político, de preferência revolucionário, que se apresenta como um livro de instituições, sejam presentes ou futuras. Toda espécie de mistura é feita: livros contratuais ou institucionais que são tratados como textos sagrados... etc. É que todos os tipos de codificação estão tão presentes, subjacentes, que os encontramos uns nos outros. Seja um outro exemplo, o da loucura: a tentativa de codificar a loucura é feita sob três formas. Primeiramente, as formas da lei, ou seja, do hospital, do asilo – é a codificação repressiva, é o confinamento, o antigo confinamento que será chamado no futuro a tornar-se uma última esperança de salvação, quando os loucos dirão: “Bons os tempos em que nos confinavam, pois hoje em dia se passam coisas piores”. Em seguida, houve uma espécie de golpe formidável, que foi o golpe da psicanálise: entendia-se que havia pessoas que escapavam à relação contratual burguesa tal como ela aparecia na medicina, e essas pessoas eram os loucos, porque estes não podiam ser partes contratantes, eram juridicamente “incapazes”. O golpe genial de Freud foi fazer passar sob a relação contratual uma parte dos loucos, no sentido mais amplo do termo, os neuróticos, e explicar que se podia fazer um contrato especial com eles (donde o abandono da hipnose). Ele é o primeiro a introduzir na psiquiatria, e é nisto finalmente que consiste a novidade psicanalítica, a relação contratual burguesa que até então fora excluída dela. E, em seguida, existem ainda as tentativas mais recentes, cujas implicações políticas e às vezes ambições revolucionárias são evidentes, as tentativas ditas institucionais. Encontra-se aí o tríplice meio de codificação: ou bem será a lei, e se não for a lei será a relação contratual, e se não for a relação contratual será a instituição. E sobre essas codificações florescem nossas burocracias.

Diante da maneira pela qual nossas sociedades se descodificam, pela qual os códigos escapam por todos os lados, Nietzsche é aquele que não tenta fazer recodificação. Ele diz: isto ainda não foi longe o bastante, vocês são apenas crianças (“A igualização do homem europeu é hoje o grande processo irreversível e deveríamos ainda acelerá-lo”). No nível daquilo que escreve e do que pensa, Nietzsche persegue uma tentativa de descodificação, não no sentido de uma descodificação relativa que consistiria em decifrar os códigos antigos, presentes ou futuros, mas de uma descodificação absoluta – fazer passar algo que não seja codificável, embaralhar todos os códigos. Embaralhar todos os códigos não é fácil, mesmo no nível da mais simples escrita e da linguagem. Só vejo semelhança com Kafka, com aquilo que Kafka faz com o alemão, em função da situação lingüística dos judeus de Praga: ele monta, em alemão, uma máquina de guerra contra o alemão; à força de indeterminação e de sobriedade, ele faz passar sob o código do alemão algo que nunca tinha sido ouvido. Quanto à Nietzsche, ele vive ou se considera polonês em relação ao alemão. Apodera-se do alemão para montar uma máquina de guerra que vai passar algo que não é codificável em alemão. É isso o estilo como política. De um modo mais geral, em que consiste o esforço de um tal pensamento, que pretende fazer passar seus fluxos por debaixo das leis, recusando-as, por debaixo das relações contratuais, desmentindo-as, por debaixo das instituições, parodiando-as? Volto rapidamente ao exemplo da psicanálise. Em que uma psicanalista tão original quanto Melanie Klein permanece, todavia, no sistema psicanalítico? Ela mesma o diz muito bem: os objetos parciais dos quais nos fala, com suas explosões, seus fluxos etc., são da ordem do fantasma. Os pacientes trazem estados vividos, intensamente vividos, e Melanie Klein os traduz em fantasmas. Existe aí um contrato, especificamente um contrato: dê-me seus estados vividos, eu lhe devolverei fantasmas. E o contrato implica uma troca, de dinheiro e de palavras. A esse respeito, um psicanalista como Winnicott mantém-se verdadeiramente no limite da psicanálise, porque tem o sentimento de que esse procedimento não convém mais num certo momento. Há um momento em que não se trata mais de traduzir, de interpretar, traduzir em fantasmas, interpretar em significados ou em significantes, não, não é isso. Há um momento em que será necessário partilhar, é preciso colocar-se em sintonia com o doente, é preciso ir até ele, partilhar seu estado. Trata-se de uma espécie de simpatia, de empatia, ou de identificação? Mesmo assim, isso é seguramente mais complicado. O que nós sentimos é antes a necessidade de uma relação que não seria nem legal, nem contratual, nem institucional. Com Nietzsche, é isso. Nós lemos um aforismo, ou um poema de Zaratustra. Ora, materialmente e formalmente, tais textos não são compreendidos nem pelo estabelecimento ou aplicação de uma lei, nem pela oferta de uma relação contratual, nem por uma instauração de instituição. O único equivalente concebível seria talvez “estar no mesmo barco”. Algo de pascaliano voltado contra Pascal. Embarcou-se: uma espécie de jangada da Medusa, há bombas que caem à volta, a jangada deriva em direção a riachos subterrâneos gelados, ou então em direção a rios tórridos, o Orenoco, o Amazonas, pessoas remam juntas, que não supõem que se amam, que se batem, que se comem. Remar juntos é partilhar, partilhar alguma coisa, fora de qualquer lei, de qualquer contrato, de toda instituição. Uma deriva, um movimento de deriva, ou de “desterritorialização”: eu o digo de uma maneira muito nebulosa, muito confusa, já que se trata de uma hipótese ou de uma vaga impressão sobre a originalidade dos textos nietzscheanos. Um novo tipo de livro.

Quais são, pois, as características de um aforismo de Nietzsche, para dar esta impressão? Há uma que Maurice Blanchot evidenciou particularmente em A conversa infinita (3). É a relação com o fora. De fato, quando se abre ao acaso um texto de Nietzsche, é uma das primeiras vezes que não passamos mais por uma interioridade, seja a interioridade da alma ou da consciência, a interioridade da essência ou do conceito, ou seja, daquilo que sempre fez o princípio da filosofia. O que faz o estilo da filosofia é o fato de que a relação com o exterior é sempre mediatizada e dissolvida por uma interioridade, em uma interioridade. Nietzsche, ao contrário, funda o pensamento, a escrita, sobre uma relação imediata com o fora. O que é uma bela pintura ou um desenho muito belo? Há um quadro. Um aforismo também é enquadrado. Mas a partir de que momento se torna belo o que está no quadro? A partir do momento em que se sabe e se sente que o movimento, que a linha que é enquadrada vem de outro lugar, que ela não começa nos limites do quadro. Ela começou acima, ou ao lado do quadro, e a linha atravessa o quadro. Como no filme de Godard, pinta-se o quadro com a parede. Longe de ser a delimitação da superfície pictórica, o quadro é quase o contrário, é o estabelecimento de uma relação imediata com o fora. Ora, conectar o pensamento ao fora é o que, ao pé da letra, os filósofos nunca fizeram, mesmo quando falavam de política, mesmo quando falavam de passeio ou de ar puro. Não basta falar de ar puro, falar do exterior, para conectar o pensamento diretamente e imediatamente ao fora.

“...Eles chegam como o destino, sem causa, sem razão, sem consideração, sem pretexto, estão aí com a rapidez do raio, tão terríveis, tão repentinos, tão convincentes, tão outros para serem até mesmo um objeto de ódio...” É o célebre texto de Nietzsche sobre os fundadores de Estados, “esses artistas com olhar de bronze” (Genealogia da moral, II, 17). Ou será que é Kafka, o de A Muralha da China? “Impossível chegar a compreender como penetraram até a capital, que está todavia tão longe da fronteira. Entretanto, estão aí, e cada manhã parece aumentar seu número (...). Conversar com eles, impossível. Não sabem nossa língua (...) carnívoros também seus cavalos!” (4). Dizemos, então, que tais textos são atravessados por um movimento que vem do fora, que não começa na página do livro nem nas páginas precedentes, que não cabe no quadro do livro, e que é absolutamente diferente do movimento imaginário das representações ou do movimento abstrato dos conceitos tais como eles acontecem habitualmente através das palavras e na cabeça do leitor. Alguma coisa salta do livro, entra em contato com um puro fora. É isto, creio, o direito ao contra-senso para toda a obra de Nietzsche. Um aforismo é um jogo de forças, um estado de forças sempre exteriores umas às outras. Um aforismo não quer dizer nada, não significa nada, não tem significante como não tem significado. Seriam maneiras de restaurar a interioridade de um texto. Um aforismo é um estado de forças, cuja última força, ou seja, ao mesmo tempo a mais recente, a mais atual e a provisória-última, é sempre a mais exterior. Nietzsche o diz muito claramente: se você quiser saber o que eu quero dizer, encontre a força que dá um sentido, se for preciso um novo sentido ao que eu digo. Conecte o texto a essa força. Desta maneira, não há problema de interpretação de Nietzsche, há apenas problemas de maquinação: maquinar o texto de Nietzsche, procurar com qual força exterior atual ele faz passar alguma coisa, uma corrente de energia. A esse respeito, todos nós encontramos o problema levantado por certos textos de Nietzsche que têm uma ressonância fascista ou anti-semita... E já que se trata de Nietzsche hoje, devemos reconhecer que Nietzsche inspirou e inspira ainda muitos jovens fascistas. Houve um momento em que era importante mostrar que Nietzsche era utilizado, desviado, completamente deformado pelos fascistas. Isto foi feito na revista Acéphale, com Jean Wahl, Bataille, klossowski. Mas hoje talvez isto não seja mais um problema. Não é no nível dos textos que é preciso lutar. Não porque não se possa lutar nesse nível, mas porque essa luta não é mais útil. Trata-se antes de encontrar, de assinalar, de reunir as forças exteriores que dão a tal ou qual frase de Nietzsche seu sentido liberador, seu sentido de exterioridade. É no nível do método que se coloca a questão do caráter revolucionário de Nietzsche: é o método nietzscheano que faz do texto de Nietzsche, não mais alguma coisa a respeito da qual seria preciso se perguntar “é fascista, é burguês, é revolucionário em si?” – mas um campo de exterioridade em que se defrontam forças fascistas, burguesas e revolucionárias. E se colocarmos deste modo o problema, a resposta que está necessariamente em conformidade com o método é: encontre a força revolucionária (quem é além-do-homem?). Sempre um apelo a novas forças que vêm do exterior, e que atravessam e recortam o texto nietzscheano no quadro do aforismo. O contra-senso legítimo é isto: tratar o aforismo como um fenômeno à espera de novas forças que venham “subjugá-lo”, ou fazê-lo funcionar, ou então fazê-lo explodir.

O aforismo não é somente relação com o fora; tem, como segunda característica, a de ser uma relação com o intensivo. E é a mesma coisa. Sobre este ponto Klossowski e Lyotard disseram tudo. Esses estados vividos de que eu falava há pouco, para dizer que não se deve traduzi-los em representações ou em fantasmas, que não se deve fazê-los passar pelos códigos da lei, do contrato ou da instituição, que não se deve converter em moeda, que é preciso, ao contrário, fazer deles fluxos que nos levam cada vez mais longe, mais para o exterior, são exatamente as intensidades. O estado vivido não é algo subjetivo, ou não o é necessariamente. Não é algo individual. É o fluxo, e o corte do fluxo, já que cada intensidade está necessariamente em relação com uma outra de tal modo que alguma coisa passe. É o que está sob os códigos, o que lhes escapa, e o que os códigos querem traduzir, converter, transformar em moeda. Mas Nietzsche, com sua escrita de intensidades, nos diz: não troquem as intensidades por representações. A intensidade não remete nem a significados que seriam como a representação de coisas, nem a significantes que seriam como representações de palavras. Então, qual é a sua consistência ao mesmo tempo como agente e como objeto de descodificação? É o que há de mais misterioso em Nietzsche. A intensidade tem algo que ver com os nomes próprios, e estes não são nem representações de coisas (ou pessoas), nem representações de palavras. Coletivos ou individuais, os pré-socráticos, os romanos, os judeus, o Cristo, o Anticristo, Júlio César, Bórgia, Zaratustra, todos esses nomes próprios que passam e retornam nos textos de Nietzsche, não são nem significantes nem significados, mas designações de intensidade, sobre um corpo que pode ser o corpo da Terra, o corpo do livro, mas também o corpo sofredor de Nietzsche: todos os nomes da história, sou eu... Há uma espécie de nomadismo, de deslocamento perpétuo de intensidades designadas por nomes próprios, e que penetram umas nas outras ao mesmo tempo em que são vividas sobre um corpo pleno. A intensidade só pode ser vivida em relação com sua inscrição móvel sobre um corpo, e com a exterioridade movente de um nome próprio, e é por isso que o nome próprio é sempre uma máscara, máscara de um operador.

O terceiro ponto é a relação do aforismo com o humor e a ironia. Aqueles que lêem Nietzsche sem rir, e sem rir muito, sem rir freqüentemente, e sem dar gargalhadas às vezes, é como se não lessem Nietzsche. Isto não é verdadeiro somente em relação a Nietzsche, mas em relação a todos os autores que fazem precisamente este mesmo horizonte de nossa contracultura. O que mostra nossa decadência, nossa degenerescência, é a maneira pela qual experimentamos a necessidade de situar a angústia, a solidão, a culpabilidade, o drama da comunicação, todo o trágico da interioridade. Mesmo Max Brod, todavia, conta como os ouvintes eram tomados pelo riso quando Kafka lia O Processo. E também Beckett é difícil ler sem rir, sem passar de um momento de alegria a um outro momento de alegria. O riso, e não o significante. O riso-esquizo ou a alegria revolucionária é o que sobressai dos grandes livros, em vez de angústias de nosso pequeno narcisismo ou terrores de nossa culpabilidade. Pode-se chamar isso de “cômico do além-do-humano”, ou então “palhaço de Deus”, há sempre uma alegria indescritível que jorra dos grandes livros, mesmo quando eles falam de coisas feias, desesperadoras ou terríveis. Todo grande livro opera já a transmutação e faz a saúde de amanhã. Não se pode deixar de rir quando se embaralham os códigos. Se você colocar o pensamento em relação com o fora, nascem os momentos de riso dionisíaco, é o pensamento ao ar livre. Acontece com freqüência a Nietzsche encontrar-se diante de algo que considera repugnante, ignóbil, de causar vômito. E isto o faz rir, ele faria mais ainda se fosse possível. Ele diz: mais um esforço, ainda não está nojento o bastante, ou, então, é formidável como isto é nojento, é uma maravilha, uma obra-prima, uma flor venenosa, enfim, “o homem começa a tornar-se interessante”. Por exemplo, é assim que Nietzsche considera e trata aquilo que chama de a má consciência. Então há sempre comentadores hegelianos, comentadores da interioridade, que não possuem o senso do riso. Eles dizem: vejam, Nietzsche leva a sério a má consciência, faz dela um momento do devir-espírito da espiritualidade. A respeito daquilo que Nietzsche faz da espiritualidade, eles passam por cima porque sentem o perigo. Portanto, vê-se que, se Nietzsche dá direito a contra-sensos legítimos, todos aqueles que se explicam pelo espírito do sério, pelo espírito do pesado, pelo macaco de Zaratustra, ou seja, pelo culto da interioridade. O riso em Nietzsche remete sempre ao movimento exterior dos humores e das ironias, e este movimento é o das intensidades, das quantidades intensivas, tal como Klossowski e Lyotard o viram: a maneira pela qual há um jogo de intensidades baixas e intensidades elevadas, umas nas outras, a maneira pela qual uma intensidade baixa pode minar a mais elevada e mesmo ser tão elevada quanto a mais elevada, e inversamente. É este jogo de escalas intensivas que comanda as subidas da ironia e as quedas do humor em Nietzsche, e que se desenvolve como consistência ou qualidade do vivido em sua relação com o exterior. Um aforismo é uma matéria pura de riso e de alegria. Se não se encontrou aquilo que faz rir num aforismo, qual distribuição de humores e de ironias, e, do mesmo modo, qual repartição de intensidades, não se encontrou nada.

Existe ainda um último ponto. Voltemos ao grande texto de A Genealogia, sobre o Estado e os fundadores de impérios: “Eles chegam como o destino, sem causa, sem razão”...etc. (5). Pode-se reconhecer aí os homens da produção dita asiática. Sobre a base de comunidades rurais primitivas, o déspota constrói sua máquina imperial que sobrecodifica o todo, com uma burocracia, uma administração que organiza os grandes trabalhos e se apropria do trabalho excedente (“onde eles aparecem, em pouco tempo há algo de novo, uma engrenagem soberana, que é viva, em que partes e funções são delimitadas e determinadas em relação ao conjunto”...). Mas pode-se perguntar também se este texto não reúne duas forças que se distinguem sob outros aspectos – e que Kafka, por sua vez, distinguia e mesmo opunha em A Muralha da China. Com efeito, quando se investiga como as comunidades primitivas segmentárias deram lugar a outras formações de soberania, questão que Nietzsche coloca na segunda dissertação de A Genealogia, vê-se que se produzem dois fenômenos estritamente correlatos, mas absolutamente diferentes. É verdade que, no centro, as comunidades rurais estão presas e fixadas à máquina burocrática do déspota com seus escribas, seus padres, seus funcionários; mas, na periferia, as comunidades entram noutra espécie de aventura, numa outra espécie de unidade desta vez nomádica, numa máquina de guerra nômade, e se descodificam em vez de se deixarem sobrecodificar. Grupos inteiros que partem, que nomadizam: os arqueólogos nos habituaram a pensar este nomadismo não como um estado primeiro, mas como uma aventura que sobrevém a grupos sedentários, o apelo do fora, o movimento. O nômade com sua máquina de guerra opõe-se ao déspota com sua máquina administrativa; a unidade nomádica extrínseca se opõe à unidade despótica intrínseca. E, todavia, eles são de tal modo correlatos ou interpenetrados que o problema do déspota será o de integrar, de interiorizar a máquina de guerra nômade, e o problema do nômade será o de inventar uma administração do império conquistado. Eles não param de se opor a ponto mesmo de se confundirem.

O discurso filosófico nasceu da unidade imperial através de muitos avatares, esses mesmos avatares que nos conduzem das formações imperiais à cidade grega. Mesmo através da cidade grega, o discurso filosófico permanece numa relação essencial com o déspota ou com a sombra do déspota, com o imperialismo, com a administração das coisas e das pessoas (encontraríamos todos os tipos de provas disto no livro de Léo Strauss e de Kojève sobre A Tirania (6)). O discurso filosófico sempre esteve numa relação essencial com a lei, a instituição, o contrato, que constituem o problema do Soberano e que atravessam a história sedentária das formações despóticas às democracias. O “significante” é verdadeiramente o último avatar filosófico do déspota. Ora, se Nietzsche não pertence à filosofia, é talvez porque ele é o primeiro a conceber um outro tipo de discurso como uma contrafilosofia. Ou seja, um discurso antes de tudo nômade, cujos enunciados não seriam produzidos por uma máquina racional administrativa que tem os filósofos como burocratas da razão pura, mas por uma máquina de guerra móvel. É talvez neste sentido que Nietzsche anuncia que uma nova política começa com ele (o que Klossowski denomina o complô contra sua própria classe). Sabe-se bem que em nossos regimes os nômades são infelizes: não se recua diante de nenhum meio para fixá-los, eles têm dificuldade para viver. E Nietzsche viveu como um desses nômades reduzidos à sua própria sombra, indo de pensão em pensão. Mas, de outro lado, o nômade não é forçosamente alguém que se movimenta: existem viagens num mesmo lugar, viagens em intensidade, e mesmo historicamente os nômades não são aqueles que se mudam à maneira dos migrantes; ao contrário, são aqueles que não mudam, e põem-se a nomadizar para permanecerem no mesmo lugar, escapando dos códigos. Sabe-se bem que o problema revolucionário, hoje, é o de encontrar uma unidade das lutas pontuais sem recair na organização despótica e burocrática do partido ou do aparelho de Estado: uma máquina de guerra que não reproduzisse um aparelho de Estado, uma unidade nomádica em relação com o Fora, que não reproduzisse a unidade despótica interna. Eis talvez o que é mais profundo em Nietzsche, a medida de sua ruptura com a filosofia, tal como ela aparece no aforismo: ter feito do pensamento uma máquina de guerra, ter feito do pensamento uma potência nômade. E mesmo se a viagem for imóvel, mesmo se for feita num mesmo lugar, imperceptível, inesperada, subterrânea, devemos perguntar quais são nossos nômades de hoje, que são realmente os nossos nietzscheanos?

Discussão


André Flécheux. – O que eu gostaria de saber é como [Deleuze] pensa fazer a economia da desconstrução, ou seja, como ele pensa contentar-se com uma leitura nomádica de cada aforismo, a partir da empiricidade, e como que de fora, o que me parece, de um ponto de vista heideggeriano, extremamente suspeito. Eu me pergunto se o problema da “já aí” que constitui a língua, a organização estabelecida, o que você chama de “o déspota”, permite compreender a escrita de Nietzsche como uma espécie de leitura errática que ela mesma dependeria de uma escrita errática, enquanto Nietzsche aplica a si mesmo o que ele denomina uma autocrítica e que as edições atuais o revelam como um excepcional trabalhador do estilo, para o qual, conseqüentemente, cada aforismo não é um sistema fechado, mas está implícito em toda uma estrutura de remissões. Este estatuto, em seu pensamento de um fora sem desconstrução, talvez se ligue ao da  energética em Lyotard.

Segunda questão, que se articula ainda aqui com a primeira: numa época em que a organização estatal, capitalista, enfim, chamem-na como quiserem, lança um desafio que é finalmente aquilo que Heidegger chama da inspeção pela técnica, o senhor pensa sem rir que o nomadismo, tal como o senhor o descreve, constitui uma resposta séria?

Gilles Deleuze. – Se compreendo bem, o senhor diz que há motivos para se suspeitar de mim do ponto de vista heideggeriano. Alegro-me com isto. Quanto ao método de desconstrução dos textos, vejo bem o que ele é, admiro-o muito, mas ele nada tem que ver com o meu. Não me apresento, absolutamente, como um comentador de textos. Um texto, para mim, é apenas uma pequena engrenagem numa prática extratextual. Não se trata de comentar o texto por meio de um método de desconstrução, ou de um método de prática textual, ou de outros métodos, trata-se de ver para que isto serve na prática extratextual que prolonga o texto. O senhor pergunta se acredito na resposta dos nômades. Sim, eu creio. Genghis Khan, é alguma coisa. Ele vai ressurgir do passado? Não sei, em todo caso, sob outra forma. Do mesmo modo que o déspota interioriza a máquina de guerra nômade, a sociedade capitalista não pára de interiorizar uma máquina de guerra revolucionária. Não é na periferia (pois não há mais periferia) que se formam novos nômades. Eu perguntava de quais nômades, se necessário imóveis e no mesmo lugar, nossa sociedade é capaz.

André Flécheux: -- Sim, mas o senhor excluiu na sua exposição o que chamava de interioridade...

Gilles Deleuze: -- O senhor joga com a palavra “interioridade”...

André Flécheux: -- A viagem do dentro?
Gilles Deleuze: -- Eu disse “viagem imóvel”. Não é uma viagem do dentro, é uma viagem sobre o corpo, se for o caso, sobre corpos coletivos.

Mieke Taat:  -- Gilles Deleuze, se eu o compreendi bem, o senhor opõe o riso, o humor e a ironia à má consciência. O senhor está de acordo que o riso de Kafka, de Beckett, de Nietzsche não exclui chorar por esses escritores, desde que as lágrimas não sejam as que jorram de uma fonte interior ou interiorizada, mas simplesmente de uma produção de fluxos na superfície do corpo?

Gilles Deleuze: -- Certamente, tem razão.

Mieke Taat: -- Ainda uma outra questão. Quando o senhor opõe o humor e a ironia à má consciência, não os distingue mais um do outro, como fazia em Lógica do sentido, onde um era de superfície e outro de profundidade. O senhor não teme que a ironia possa estar perigosamente próxima da má consciência?

Gilles Deleuze: -- Eu mudei. A oposição superfície-profundidade não me preocupa mais em absoluto. O que me interessa agora são as relações entre o corpo pleno, um corpo sem órgãos, e os fluxos que fluem.

Mieke Taat: -- Isto não excluiria mais o ressentimento, neste caso?

Gilles Deleuze: -- Oh, sim!
...
Tradução de
Milton Nascimento (7) e Luiz B. Orlandi

NOTAS
(1) Em Nietzsche aujourd’hui? T.1: intensités, Paris, UGE, 10/18, 1973, pp. 159-174. A respeito das discussões, foram mantidas apenas as questões apresentadas a Deleuze e transcritas nas pp. 185-187 e 189-190 da referida publicação. O colóquio “Nietzsche hoje?” desenrolou-se em julho de 1972 no Centro Cultural Internacional de Cerisy-la-Salle.
(2) Estudante de Liceu, de extrema-esquerda, ferido pela polícia durante manifestação em 1971.
(3) M. Blanchot, L’Entretien infini, Paris, Gallimard, 1969, p. 227 e seguintes.
(4) F. Kafka, La Muraille de Chine et autres récits, Paris, Gallimard, 1950, col. “Du Monde entier”, pp. 95-96.
(5) La Généalogie de la morale, II, § 17.
(6) L. Strauss, De la tyrannie, seguido de Tyrannie et sagesse, de Kojève, Paris, Gallimard, reedição de 1997.
(7) Parte da tradução brasileira originalmente publicada em Nietzsche hoje? – Colóquio de Cerisy, SP, Brasiliense, 1985, pp. 56-76.

17 de setembro de 2009

Abecedário de Deleuze com legendas em português para download

O Abecedário de Gilles Deleuze é uma realização de Pierre-André Boutang, produzido pelas Éditions Montparnasse, Paris. No Brasil, foi divulgado pela TV Escola, Ministério da Educação. Tradução e Legendas: Raccord.

A série de entrevistas, feita por Claire Parnet, foi filmada nos anos 1988-1989. Lembrando que como diz Deleuze no início da entrevista, o acordo era de que o filme só seria apresentado após sua morte. O filme acabou sendo apresentado, entretanto, com o consentimento de Deleuze, entre novembro de 1994 e maio de 1995, no canal (franco-alemão) de TV Arte. Durante a entrevista, a cada letra do abecedário era apresentada ao filósofo uma palavra com a inicial correspondente, sobre a qual Deleuze discorria livremente.


Elenco:Gilles Deleuze e Claire Parnet
Gênero: Documentário
Diretor: Pierre-André Boutang
Duração: 158 minutos
País de Origem: França
IMDB: http://www.imdb.com/title/tt0408472
Idioma do Audio: Francês
Legendas: Português embutida
Qualidade do Vídeo: VHSRip
Ano de Lançamento: 1988
Vídeo Codec: Real video 9
Resolução: 256 X 192
Formato de Tela: Tela Cheia(4x3)

A de Animal - B de Bebida - C de Cultura - D de Desejo - E de Enfance [Infância] - F de Fidelidade
Parte 1
Parte 2

G de Gauche [esquerda] - H de história - I de idéia - J de joie [alegria] - K de Kant - L de literatura
Parte Única

M de Maladie - N de neurologia - O de opera - P de professor - Q de questão - R de resistência - S de style - T de tênis - U de um - V de viagem - W de Wittgenstein - X, Y de desconhecidos - Z de zigzag
Parte 1
Parte 2


fonte: Café Filosófico

11 de fevereiro de 2009

O Abecedário de Gilles Deleuze


A cláusula

Claire Parnet [1994]: Gilles Deleuze sempre se negou a aparecer na TV. Mas atualmente ele acha sua doença tão parecida com a "petite mort", da canção de Alain Souchon, que mudou de opinião. Mantive, porém, sua declaração ["a cláusula"], feita em 1988, no início da filmagem:

Gilles Deleuze [1988]: Você escolheu um abecedário, me preveniu sobre os temas, não conheço bem as questões, mas pude refletir um pouco sobre os temas... Responder a uma questão, sem ter refletido, é para mim algo inconcebível. O que nos salva é a cláusula. A cláusula é que isso só será utilizado, se for utilizável, só será utilizado após minha morte.

Então, já me sinto reduzido ao estado de puro arquivo de Pierre-André Boutang, de folha de papel, e isso me anima muito, me consola muito, e quase no estado de puro espírito, eu falo, falo ...após minha morte... e, como se sabe, um puro espírito, basta ter feito a experiência da mesa girante [do espiritismo], para saber que um puro espírito não dá respostas muito profundas, nem muito inteligentes, é um pouco vago, então está tudo certo, tudo certo para mim, vamos começar: A, B, C, D... o que você quiser.

A de Animal --------- B de Bebida

C de Cultura ------- D de Desejo

E de Enfance [Infância] ------ F de Fidelidade

G de Gauche [Esquerda] -------- H de História

I de Idéia -------- J de Joie [Alegria]

K de Kant ----- L de Literatura

M de Maladie [Doença] ------ N de Neurologia

O de Ópera ----- P de Professor

Q de Questão

R de Resistência ------ S de Style [Estilo]

T de Tênis ----- U de Um

V de Viagem --------- W de Wittgenstein

X, Y de Desconhecidos ------- Z de Zigzag


Claire Parnet


O Abecedário de Gilles Deleuze é uma realização de Pierre-André Boutang, produzido pelas Éditions Montparnasse, Paris. No Brasil, foi divulgado pela TV Escola, Ministério da Educação. Tradução e Legendas: Raccord [com modificações].

A série de entrevistas, feita por Claire Parnet (foto acima), foi filmada nos anos 1988-1989. Como diz Deleuze no início da entrevista, o acordo era de que o filme só seria apresentado após sua morte. O filme acabou sendo apresentado, entretanto, com o consentimento de Deleuze, entre novembro de 1994 e maio de 1995, no canal (franco-alemão) de TV Arte.

Deleuze suicidou em 4 de novembro de 1995. A primeira fala de Claire Parnet foi feita na ocasião da apresentação (1994-1995), enquanto que a totalidade da entrevista de Deleuze é da época da filmagem (1988-1989).



L'Abécédaire de Gilles Deleuze - Part 1 (144 minutos)


L'Abécédaire de Gilles Deleuze - Part 2 (162 minutos)

9 de outubro de 2008

O olhar japonês de uma cultura e dialeto em vias de desaparição na Bolívia retratado no filme Pachamama

A primeira impressão que se tem do filme Pachamama (El regalo de la pachamama, 2008) do cineasta japonês Toshifumi Matsushita é que se trata de um filme ficcional clássico ancorado numa narrativa cinematográfica tradicional. A estória é de uma comunidade de Quíchua, no sul da Bolívia, onde o menino Q’unturi (Christian Huaygua) trabalha com o pai na criação de lhamas e na extração de sal. É um filme sobre a adolescência de um menino e sua passagem à vida adulta, a experiência do sofrimento, a aprendizagem da cultura e o surgimento do desejo amoroso, o que poderia se passar em qualquer lugar do mundo, afirma o diretor. Perguntei como ele define o filme? Matsushita tentou se esquivar dizendo ser esta uma pergunta difícil de responder, pois prefire que o público o defina por si mesmo. Finalmente respondeu dizendo: um docu-drama.

O tratamento do filme é quase antropológico, pois se baseia nas pesquisas e andanças de Matsushita durante quatro anos nas terras bolivianas. A cada viagem e contato com as comunidades, o roteiro foi se modificando e acrescentando antigos mitos e lendas – mistificando ainda mais o cotidiano local. Ele criou assim um roteiro de situações “épicas e ancestrais” e pediu às pessoas da região, que se tornaram atores do filme, para improvisarem os diálogos – já que o diretor não fala quíchua e pouquíssimo espanhol. Toda a equipe de produção do filme foi composta também por técnicos locais somando assim mais uma das subjetividades dos bastidores da trama.

O grande encontro entre essas duas culturas (boliviana e japonesa), aparentemente distantes, reside na maneira como elas interagem com a natureza. Segundo o diretor, existe uma grande espiritualidade que vem do contato e do respeito com a terra, daí o título, Pachamama – terra mãe. “Eu espero que esse menino passe a sua cultura e língua Quíchua para as gerações seguintes” afirmou Matsushita.

O filme que passou recentemente em Vancouver no Festival Internacional de cinema quando Matsushita concedeu esta entrevista, seguiu logo após para a Mostra de cinema de São Paulo.

18 de junho de 2007

Cultura em Pedaços ou a Cultura dos Snacks?

Em entrevista à Daniela Arrais do jornal Folha de São Paulo, em abril passado, eu e Gabriela Borges discutimos sobre a nova mania da internet: a “snack culture”, traduzido pelo jornal como “cultura em pedaços”. A matéria foi publicada neste final de semana pelo caderno Ilustrada e intitula-se “Cultura em pedaços é febre na internet”. O termo "renasce" à partir do Minifesto Snack Attack publicado em março pela revista americana Wired, especializada em novas tecnologias e jogos eletrônicos. Ela chama a atenção para o entretenimento de consumo rápido ter virado uma tendência na sociedade contemporânea, através dos ipods, blogs, youtubes (vídeos de dez minutos no máximo), sites de downloads de arquivos (filmes, fotos, textos) ilegais ou legais como o iTunes da Apple, entre outros. Segundo a jornalista Nancy Miller, a geração New Age dos aparatos snacks já faz parte do nosso cotidiano há um bom tempo.

“Música, televisão, jogos, filmes, moda: agora nós devoramos nossa cultura pop da mesma maneira que nós apreciamos os doces e os chips – em pequenos formatos, convenientemente empacotados, e feitos para serem facilmente degustados com a máxima freqüência e velocidade. Esta é a cultura snack - e oh boy, como ela é apetitosa (para não dizer o quanto vicia). [...] Hoje a mídia snacking está no nosso dia-a-dia. De manhã lemos as notícias, respondemos e-mails nos nossos computadores portáteis. No trabalho surfamos o dia inteiro através de vídeos e blogs. [...] E no meio tempo, durante aqueles minutos em que o nosso telefone portátil carrega algumas chamadas, entram em ação um jogo de 30-segundos no Nintendo DS, um web-episódio de 60 segundos no celular, um podcast de três minutos no MP3 player.” Wired, ed. 15.3, Março 2007.

A cultura snack está cada vez mais popular e tomando maior espaço nas mídias, seja como meio de divulgação, manipulação, discussão ou mesmo de democratização da informação e da cultura. Veja o exemplo das imagens do presidente Nicolas Sarkozy, durante o encontro do G8, censuradas por praticamente todas as redes de televisão da França mas disponível “pour toujours” na internet.

Para aumentar o debate e criar novos pontos de discussão publicamos abaixo a versão completa de nossas entrevistas. O que você acha... a snack cultura veio para ficar? Ela aliena mais que democratiza a informação e a cultura? Podemos estender o termo às mídias comunicacionais de informação e falarmos de "jornalismo snack"?
Hudson Moura



Folha de São Paulo - Por que o entretenimento instantâneo virou febre?

Gabriela Borges – A questão do entretenimento instantâneo ter virado febre está relacionada com a lógica da sociedade de consumo e com a sua própria concepção, ou seja, os produtos culturais são feitos para serem rapidamente consumidos a fim de que novos sejam produzidos e introduzidos no mercado. E, com o acelerado desenvolvimento tecnológico, mais produtos culturais são disponibilizados.

Hudson Moura – Precisamos pensar em interatividade, troca, discussões. Pode ser que o formato por um lado seja fraco ou superficial mas por outro ele possibilita uma série de trocas e um dinamismo, que de uma maneira tradicional, isto não seria possível. Nosso tempo tanto quanto nossa ansiedade não nos permite esperar um amigo ler a obra de Camões ou a coletânea de Proust, para conversarmos ou debatermos sobre o assunto. Hoje em dia até mesmo duas horas de filme está ficando longo. E, por quê não transformar algo enfadonho em algo dinâmico e mais à nossa cara? Como aquele minuto que a mocinha beija o mocinho; ou aquele segundo em que Justin Timbelarke tira o sutiã de Janet Jackson; ou mesmo rever aquelas cenas mais espetaculares de 007 várias vezes. Se quisermos nos embevecermos de “high culture” e transformá-lo num evento para o verão vamos ver o novo filme do Scorsese ou do James Bond durante quase três horas! Paradoxo? Talvez, mas com certeza sairemos “extasiados” com tantas revira-voltas do filme. Se o meio ambiente vive a era do reciclagem, a cultura pop vive o momento do 'replay'.

FSP - Você acha que as formas tradicionais de entretenimento (cinema, CDs) estão sendo substituídas por novas fórmulas? Por exemplo: você acha que as pessoas que vêem uma versão reduzida de "Pulp Fiction" no YouTube perdem o interesse por assistir ao filme inteiro?

GB – Não acho que as formas tradicionais de entretenimento estão sendo necessariamente substituídas pelas novas. Na verdade, acho que as novas fórmulas funcionam como outras alternativas e outras possibilidades de ocupação do tempo livre. Não acredito que as pessoas deixem de assistir aos filmes pelo fato de terem visto clips no You Tube, muito pelo contrário, este meio pode ser usado de modo promocional, as pessoas podem se interessar em assisti-lo justamente por terem visto a versão reduzida.

Quando uma nova tecnologia aparece no mercado, a tendência é achar que ela substituirá a antiga, isso já aconteceu com o cinema quando apareceu a televisão e agora o mesmo acontece com o surgimento da internet. O discurso é o mesmo, entretanto nenhuma destas formas tradicionais morreram, muito pelo contrário, continuam a desenvolver as suas linguagens. Acho que as novas linguagens que nascem copiam inevitavelmente as antigas, nesse caso, as potencialidades do meio digital ainda estão começando a ser desenvolvidas. Será muito interessante perceber o que os novos meios podem trazer de realmente novo, ou seja, no sentido de proporcionar experiências originais.

HM – Jamais, tudo se recicla se adapta... o cinema de hoje não é mais o mesmo de cem anos atrás... com entreatos e tudo mais. Hoje os enquadramentos e movimentos de planos de um filme são ágeis e de fácil adaptação à telinha da tv. Isto quer dizer, que o mesmo filme é visto no cinema, no vídeo, na tv, no wallpaper, etc. e se transforma num evento. Esses fenômenos midiáticos se prolongam no tempo muito mais do que antes, eles podem ser consumidos de uma maneira muito mais dinâmica e ter uma vida duradoura e prolongada. O produto é o mesmo? Não. Ele se compõe e se decompõe em sub-produtos numa rede hipertextual e intertextual sem fim.

FSP - Qual o impacto para a indústria dessa nova febre de consumir cultura aos pedaços?

GB - Acho que temos dois fenômenos relacionados, ou seja, a indústria disponibiliza cultura aos pedaços ao mesmo tempo em que as pessoas se interessam pelos novos produtos que estão sendo lançados. Com o desenvolvimento tecnológico pelo qual estamos atravessando, acredito que mais e novos produtos culturais instantâneos serão lançados, ainda mais porque muitas vezes estes são subprodutos que aumentam o leque de ofertas de um determinado produto. Podemos pensar por exemplo nas séries de TV americanas, ou nos filmes destinados ao mercado infantil que oferece um grande pacote de produtos juntamente com o produto audiovisual em si.

HM - Antes de tudo, pessoalmente não acho que a cultura exista em pedaços, esta que se nomeia de snack é uma outra. Ou seja, conteúdo é forma, e forma é conteúdo. Snack cultura está mais para o entretenimento e o consumo rápido de um prazer casual e de uma informação “desinteressada”. Aquela que não é necessariamente almejada. Desta forma, cada uma tem seu valor. O perigo é pensar que se informa ou que se educa através desses conta-gotas.

Tudo se vende e é passível de transformação. A indústria não tem e nunca terá nenhuma dificuldade para se adaptar e vender o que quiser, não é a toa que empresas como Youtube são orçadas em bilhões de dólares. O que precisamos pensar é nos processos de educação e de informação. Precisamos transformar esses snacks em orgânico, biológico com alto teor nutritivo! Não é maravilhoso ver Monalisa de Da Vinci ainda em voga e competindo com “madonnas-britneys”?

Nós enquanto sociedade precisamos estar alerta sobre a qualidade e defeitos desses snacks, e tornar seus efeitos negativos em positivos. As pessoas são ávidas por consumo... se dermos a oportunidade de escolha de bons produtos elas poderão de forma democrática e livre poder escolher o que lhes convier de melhor. O problema é quando esta alternativa não existe.

Quando somos obrigados a repetir uma só imagem-produto ad-infinitum!

FSP – Quais os aspectos positivos e negativos da "snack culture"?

GB - Positivos: a criação de um novo repertório cultural com características próprias, que por sua vez proporcionará desenvolvimentos culturais idiossincráticos. Diversidade de produtos culturais em oferta.

Negativos: a superficialidade e a instantaneidade fazem com que não haja tempo para uma maior reflexão sobre o que está sendo consumido. Por exemplo, na universidade hoje, notamos que os jovens não têm paciência para ler textos muito longos e nem conseguem ficar atentos por muito tempo. Acho que isso se deve não apenas ao fato desta geração ter sido criada diante da televisão, mas também porque têm mais acesso à informação e por isso estão mais acostumados a consumir aos pedaços, não se atêem aos pormenores e não conseguem se concentrar para aprofundar as questões e refletir sobre elas.

HM – O que é positivo é a interatividade e a democracia dos meios de comunicação. Nós nos comunicamos muito mais que há trinta anos atrás.... através de blogs, orkut, sites de encontros amorosos ou sexuais, troca de vídeos e fotos caseiras,... essas comunidades virtuais trocam experiências e se transformam num meio de expressão que é muito saudável e que talvez economize bastante grana em terapias. O grande desafio é saber lidar e se situar emocionalmente diante dessas comunidades e como membro ativo dela, o tipo de responsabilidade que temos com o outro e com as nossas próprias expectativas. Pois, elas vão nos confundir entre o pessoal e impessoal... elas têm a tendência de serem voláteis e passageiras... não podemos contar com elas como fontes seguras e sólidas, como nossa família por exemplo.

Através dessas comunidades virtuais, a comunicação não é a mesma, é uma outra que vai além do que imaginamos. Estamos apenas no começo de uma era essencialmente virtual.

Cada vez mais nos reconhecemos e nos identificamos melhor com o outro através de sua “imagem-personalidade virtual-reprodução técnica” do que pessoalmente em carne e osso. Para isso estamos nos instruindo e nos aperfeiçoando, contudo num nível técnico. Não é mais a maneira como eu falo, mas como interajo com o teclado do meu computador, não é mais o meu jeito de olhar que seduz o outro ou transmite segurança, mas a minha sensibilidade maquínica, como eu enquadro ou componho meus planos ou como me comporto diante de uma câmera.

Meus vizinhos hoje tem a oportunidade ao mesmo tempo de se comunicar comigo quanto com o mundo todo. A idéia de comunidade adquire um outro sentido além dos tradicionais espaços-tempos.


FSP – Esses pedaços de cultura não tornam uma obra superficial? As pessoas deixam de refletir sobre os conteúdos?

GB – Não acho que serão os pedaços de cultura que tornarão uma obra superficial, quero dizer, depende do que está considerando uma obra. Se uma obra for um filme por exemplo, os pedaços de cultura servirão para chamar a atenção sobre o filme. Agora se o próprio vídeo no Youtube for uma obra, então a sua própria essência será breve, superficial ou não, depende do caso. Ou seja, não é porque é um pedaço de cultura que é necessariamente superficial, depende do caso.

De uma certa forma as pessoas podem deixar de refletir sobre os conteúdos a partir do referencial do que é reflexão que temos como parâmetro neste momento. Ao mesmo tempo, acredito que será gerada uma nova dinâmica que terá frutos diferenciados. Talvez a reflexão sobre os conteúdos comece a ser feita de novos modos, por exemplo, percebemos que a intertextualidade presente na maior parte destes produtos culturais faz com que o repertório, principalmente dos jovens, seja mais variado, ainda que mais superficial.

Por outro lado, não é o fato das pessoas não refletirem sobre uma obra que faz com que ela seja superficial. Uma obra pode ou não ser superficial e, independente disso, pode fazer com que as pessoas reflitam sobre o seu conteúdo ou não. Temos muitos exemplos de filmes que não são superficiais e que estão inseridos dentro de um mercado global que oferece os seus subprodutos da cultura aos pedaços.

HM – Volto a insistir contra o termo “pedaço” pois entende-se que exista algo faltante... acho melhor definir como porção... o quer dizer um pouco, uma amostra, etc. Por exemplo, se um filme é realmente bom ele vai sobreviver e será considerado bom com qualquer cena que privilegiamos. No entanto, se pensarmos num pedaço de um filme, quer dizer que precisaremos obrigatoriamente de seu complemento. Uma certa vez, Affonso Romano de Sant’Anna disse que não se precisa comer o ovo inteiro para sabermos se o ovo é bom ou ruim (ele dizia isto em analogia ao livro), e acrescento dizendo que, mesmo que suas partes sejam desiguais – diferentes. Acredito que valha a mesma metáfora, para a “snack cultura”, acho que teremos qualidade se assim ela o tiver. Existem tantos livros e filmes que não valem à pena de lê-los ou assisti-los por mais longos que eles sejam.



Gabriela Borges é professora de comunicação da Universidade do Algarve e editora da Revista Intermídias. Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP com pós-doutorado em Televisão de Qualidade pela Universidade do Algarve, Portugal.

Hudson Moura é editor-responsável da Revista Intermídias e pesquisador do Centro de Estudos da Oralidade – PUC-SP. PhD em Cinema e Literatura pela Universidade de Montreal com Pós-doutorado em Cinema Intercultural pela Universidade Simon Fraser, Vancouver, Canadá.

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