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29 de dezembro de 2015

Artigos do colóquio Narrativas Interativas

1 de janeiro de 2011

Novo logo oficial dos Jogos Olímpicos do Rio 2016!





Opinem! O que acharam do novo logo oficial das Olimpíadas de 2016 no Rio?
União, Celebração, Brasileirismo, infinito, afinal, o significa este arco oval?

En passant, feliz 2011! Espero que ele seja melhor do que o ano que passou e mais inspirador que esta nova facebookmania que tomou conta em 2010 com Mark Zuckerberg roubando descaradamente todos os "amigos" e ficando com a capa de homem do ano da revista Time. Isto é que tem ficado claro em todas as referências históricas da criação do Facebook e biográficas dos seus fundadores, incluindo aí a biografia-julgamento hollywoodiana realizada por David Fincher em A Rede Social (The Social Network). Entre os tais "amigos" lesados está o brasileiro Eduardo Saverin. Nessas atuais circunstâncias, homem do ano, é ironia do destino ou os fins dos tempos, cara pálida?

11 de outubro de 2010

Pesquisa de opinião: Quem precisa delas para eleger ou decidir seu candidato a presidência do Brasil?

O Roda Viva entrevistou na semana passada a especialista em pesquisas de opinião Márcia Cavallari. O programa perguntou questões como Pesquisa de opinião eleitoral funciona? Acerta? Erra? Tem influência no resultado das eleições? Os institutos de pesquisa são todos culpados ou são todos inocentes? Os institutos de pesquisa e seus metodos de trabalho surpreenderam nos resultados:
• Dilma Rousseff teve menos votos do que o previsto nas ultimas pesquisas, inclusive na boca-de-urna.
• Marina Silva teve muito mais, chegou a quase 20% e provocou o segundo turno.
• Serra cresceu na reta final, fato despercebido por todos.

Afinal até que ponto precisamos saber do resultado destas pesquisas para decidirmos nosso voto? Essas pesquisas não deveriam serem restritas aos candidatos interessados e não alardeados como a coisa mais importante de uma campanha eleitoral para presidente? E se a mídia alardeasse as propostas dos candidados ao invés de uma bomba midiática que a qualquer momento vai mudar os rumos à partir de pesquisas de boca de urna?

22 de julho de 2007

A chamada snack culture surge para definir o consumo de entretenimento instântaneo

Vitor Lopes
vlopes@redegazeta.com.br
A Gazeta, Vitória, ES 22/07/2007

O que há em comum entre a pintura feita pelos homens das cavernas há mais de 15 mil anos com as batatas chips, as tatuagens, o canal de televisão MTV, a música digital e o site YouTube? Manifestações aparentemente tão distintas estão agora reunidas sob um mesmo conceito, a snack culture, ou "cultura em pedaços".

O novo termo, difundido pela revista norte-americana "Wired" em março deste ano, abrange produtos culturais que são assimilados cada vez mais em pequenas porções pelo público, da comida instantânea ao comportamento pessoal, passando, principalmente, pelo modo como o usuário consome arte e cultura por meio da Internet.

Como exemplos, há a publicação de pequenos vídeos, os programas de rádio de curta duração, a proliferação de textos curtos em blogs, a enxurrada de site de fotos e a publicação de notícias cada vez mais fragmentadas pelos portais de comunicação.

Tendência. O produtor de eventos Rike Soares sabe bem o que significa o conceito. Idealizador da Antimofo – produtora de festas da Capital –, ele começou a baixar músicas em arquivo digital MP3 há quase 10 anos. O costume de comprar discos e ouvir por completo tudo o que uma banda quer mostrar deu lugar a audições de canções isoladas. "Isso de ouvir o álbum inteiro já não existe mais. A tendência é ouvir picado mesmo. Consumir em pedaços traz possibilidades de ter mais informação", comenta.

Para o doutor em Comunicação e Cultura e professor da Ufes, Fábio Malini, a cultura em pedaços só conseguiu se difundir devido à Internet, espaço por excelência dos recortes da comunicação e da cultura. "Se você falar que o mundo vai acabar pelo rádio, as pessoas se mobilizam em torno disso. Se o anúncio for pela TV, todo mundo vai querer ver. Na Internet, o mundo que vai acabar é produzido. As pessoas vão fazer um blog, uma música e disponibilizá-los. A Internet representa a desmassificação da cultura", afirma.


Um dos mais recentes exemplos de snack culture é o Projeto The 1 Second Film (em inglês, O Filme de um Segundo), que produz, com o apoio de milhares de colaboradores, um filme com um segundo de duração e 90 minutos de créditos.

"No campo da comunicação de massa, existem ainda duas barreiras importantes que essas iniciativas comunitárias acabam quebrando: o livre acesso à informação e à participação e, sobretudo, a criação de uma comunicação alternativa", analisa o pós-doutor em Cinema e editor do site Intermidias (www.intermidias.com) Hudson Moura.

A professora da Universidade do Algarve (Portugal) Gabriela Borges acredita que a snack culture pode ser um modismo que reflete o comportamento social das últimas décadas. "Esse fenômeno está relacionado com a própria lógica da sociedade globalizada, porque os produtos culturais são feitos para serem rapidamente consumidos, a fim de que novos sejam introduzidos no mercado. Em uma sociedade que enaltece a superficialidade, a snack culture tem seu espaço garantido", sentencia.

Fenômeno começa nos anos 80

A especialista em comunicação pela Internet Pollyana Ferrari acredita que a Web, "como meio orgânico que é, propicia a proliferação de fenômenos como a snack culture". Autora do livro "Hipertexto, Hipermídia" (Editora Contexto), ela afirma que "o usuário atual se realiza por meio de pequenos recortes de sensações que memorizou, interpretando-as posteriormente por meio de flashbacks da memória."

Ainda segundo a especialista, essa mudança não ocorre apenas na Internet. "É um fenômeno social. A mania atual de colecionar beijos em festas é outro exemplo", diz.

Para Pollyana, só é possível entender essas transformações se a análise voltar os olhos para a década de 1980. "Nessa época, houve uma intensificação de misturas entre linguagens e meios, resultando em um ‘caldo’ cultural híbrido recheado de videocassetes, aparelhos do tipo ‘walkman’ – tudo devidamente embalado pela notável indústria de videoclipes e videogames. O surgimento do controle remoto também foi um marco nessa mudança de comportamento".

Para a especialista, o único ponto negativo da proliferação da snack culture é a falta de profundidade em relação aos assuntos abordados. "Mas o lado positivo é o faça-você-mesmo, a ‘remixagem’ diária da sociedade. Estamos vivenciando o fim da autoria. Não existe, na música, na literatura e nas artes em geral, uma grande descoberta, mas sim vários autores juntos produzindo uma releitura de algo", conclui.

Leia as outras matérias e entrevistas sobre Snack Culture aqui


11 de julho de 2007

«O cinema de Guy Debord» por Giorgio Agamben

O meu intuito é o de aqui definir certos aspectos da poética, ou melhor, da técnica composicional de Guy Debord no domínio do cinema. Evito voluntariamente a expressão “obra cinematográfica”, nominação que ele próprio rejeitou e que se pudesse utilizar a seu propósito. “Considerando a história da minha vida, escreveu ele em In girum imus nocte et consumimur igni [1978], não podia fazer aquilo a que se chama uma obra cinematográfica”. De resto, não apenas penso que o conceito de obra não é útil no caso de Debord, como sobretudo me pergunto se hoje, cada vez que se quer analisar aquilo a que se chama de obra, quer seja literária, cinematográfica ou outra, não seria necessário colocar em questão o seu próprio estatuto. Em vez de interrogar a obra enquanto tal, penso que é preciso perguntar que relação existe entre o que se podia fazer e o que foi feito. Uma vez, como estava tentado (e ainda estou) a considerá-lo um filósofo, Debord disse-me: “Não sou um filósofo, sou um estrategista”. Ele viu o seu tempo como uma guerra incessante em que toda a sua vida estava empenhada numa estratégia. É por isso que penso ser preciso interrogar-nos sobre o sentido do cinema nessa estratégia. Porquê o cinema e não, por exemplo, a poesia, como o foi no caso de Isou, que tinha sido tão importante para os situacionistas, ou porquê não a pintura, como para um dos seus amigos, Asger Jorn?

Creio que isso se deve à ligação estreita que existe entre o cinema e a história. De onde vem essa ligação, e de que história se trata?

Tal deve-se à função específica da imagem e ao seu carácter eminentemente histórico. É preciso especificar aqui alguns detalhes importantes. O homem é o único animal que se interessa às imagens enquanto tais. Os animais interessam-se bastante pelas imagens, mas na medida em que são enganados por elas. Podemos mostrar a um peixe a imagem de uma fêmea, ele irá ejectar o seu esperma; ou mostrar a um pássaro a imagem de outro pássaro para o capturar, e ele será enganado. Mas quando o animal se dá conta que se trata de uma imagem, desinteressa-se totalmente. Ora, o homem é um animal que se interessa pelas imagens uma vez que as tenha reconhecido enquanto tais. É por isso que se interessa pela pintura e vai ao cinema. Uma definição do homem, do nosso ponto de vista específico, poderia ser que o homem é o animal que vai ao cinema. Ele interessa-se pelas imagens uma vez que tenha reconhecido que não se tratam de seres verdadeiros. Um outro aspecto é que, como mostrou Gilles Deleuze, a imagem no cinema (e não apenas no cinema, mas nos Tempos modernos em geral) já não é algo de imóvel, já não é um arquétipo, quer dizer, algo fora da história: é um corte ele próprio móvel, uma imagem-movimento, carregada enquanto tal de uma tensão dinâmica. É essa carga dinâmica que se vê muito bem na fotos de Marey e de Muybridge que estão na origem do cinema, imagens carregadas de movimento. É uma carga deste gênero que via Benjamin naquilo a que chamava uma imagem dialéctica, que era para ele o próprio elemento da experiência histórica. A experiência histórica faz-se pela imagem, e as imagens estão elas próprias carregadas de história. Poderíamos considerar a nossa relação à pintura sob este aspecto: não se trata de imagens imóveis, mas antes de fotogramas carregados de movimento que provêem de um filme que nos falta. Era preciso restituí-las a esse filme (vocês terão reconhecido o projeto de Aby Warburg).

Mas de que história se trata? É preciso esclarecer que não se trata aqui de uma história cronológica, mas a bem dizer de uma história messiânica. A história messiânica define-se antes de mais nada por dois caracteres. É uma história da Salvação, é preciso salvar alguma coisa. E é uma história última, é uma história escatológica, em que alguma coisa deve ser consumada, julgada, deve passar-se aqui, mas num tempo outro, deve, portanto, subtrair-se à cronologia, sem sair para um exterior. É essa a razão pela qual a história messiânica é incalculável. Na tradição judaica há toda uma ironia do cálculo, os rabinos faziam cálculos muito complicados para prever o dia da chegada do Messias, mas não paravam de repetir que se tratavam de cálculos proibidos, pois a chegada do Messias é incalculável. Mas, ao mesmo tempo, cada momento histórico é aquele da sua chegada, o Messias é sempre já chegado, está sempre já aí. Cada momento, cada imagem está carregada de história, porque ela é a pequena porta pela qual o Messias entra. É esta situação messiânica do cinema que Debord partilha com o Godard das Histoire(s) du cinéma. Apesar da sua antiga rivalidade – Debord disse em 68 de Godard que ele era o mais tolo de todos os Suíços pró-chineses –, Godard reencontrou o mesmo paradigma que Debord tinha sido o primeiro a traçar. Qual é esse paradigma, qual é essa técnica de composição? Serge Daney, acerca das Histoire(s) de Godard, explicou que era a montagem: “O cinema procurava uma coisa, a montagem, e era dessa coisa que o homem do século XX tinha uma necessidade terrível”. É o que mostra Godard nas Histoire(s) du cinéma.

O carácter mais próprio do cinema é a montagem. Mas o que é a montagem, ou antes, quais são as condições de possibilidade da montagem? Em filosofia, depois de Kant, chama-se às condições de possibilidade de alguma coisa os transcendentais. Quais são então os transcendentais da montagem? Existem duas condições transcendentais da montagem, a repetição e a paragem. Isto, Debord não o inventou, mas fê-lo vir à luz, exibiu estes transcendentais enquanto tais. E Godard fará o mesmo nas suas Histoire(s). Já não temos necessidade de filmar, basta-nos repetir e parar. Esta é uma nova forma epocal por relação à história do cinema. Este fenômeno espantou-me bastante em Locarno em 1995. A técnica composicional não mudou, é ainda a montagem, mas agora a montagem passa para primeiro plano, e mostra-se enquanto tal. É por isto que se pode considerar que o cinema entra numa zona de indiferença em que todos os gêneros tendem a coincidir; o documentário e a narração, a realidade e a ficção. Faz-se cinema a partir das imagens do cinema.

Mas voltemos às condições de possibilidade do cinema, a repetição e a paragem. O que é uma repetição? Há na Modernidade quatro grandes pensadores da repetição: Kierkegaard, Nietzsche, Heidegger e Gilles Deleuze. Os quatro mostraram-nos que a repetição não é o retorno do idêntico, do mesmo enquanto tal que retorna. A força e a graça da repetição, a novidade que traz, é o retorno em possibilidade daquilo que foi. A repetição restitui a possibilidade daquilo que foi, torna-o de novo possível. Repetir uma coisa é torná-la de novo possível. É aí que reside a proximidade entre a repetição e a memória. Dado que a memória não pode também ela devolver-nos tal qual aquilo que foi. Seria o inferno. A memória restitui ao passado a sua possibilidade. É o sentido desta experiência teológica que Benjamin via na memória, quando dizia que a recordação faz do inacabado um acabado, e do acabado um inacabado. A memória é, por assim dizer, o órgão de modalização do real, aquilo que pode transformar o real em possível e o possível em real. Ora, se pensarmos nisso, trata-se também da definição do cinema. Não faz o cinema sempre isso, transformar o real em possível, e o possível em real? Podemos definir o já visto como o fato de “perceber algo do presente como se já tivesse sido”, e o inverso, o fato de perceber como presente algo que já foi. O cinema tem lugar nessa zona de indiferença. Compreendemos então porque o trabalho com imagens pode ter uma tal importância histórica e messiânica, pois é uma forma de projetar a potência e a possibilidade em direção ao que é por definição impossível, em direção ao passado. O cinema faz então o contrário do que fazem as mídias. As mídias dão-nos sempre o fato, o que foi, sem a sua possibilidade, sem a sua potência, dão-nos portanto um fato sobre o qual somos impotentes. As mídias adoram o cidadão indignado mas impotente. É o mesmo objetivo do telejornal. É a má memória, a que produz o homem do ressentimento.

Ao colocar a repetição no centro da sua técnica composicional, Debord torna de novo possível aquilo que nos mostra, ou melhor, abre uma zona de indecidibilidade entre o real e o possível. Quando mostra um trecho do telejornal, a força da repetição é tal que deixa de ser um fato consumado, e volta a ser, por assim dizer, possível. Nos perguntamos: “Como isto foi possível?” – primeira reação –, mas ao mesmo tempo compreendemos que sim, tudo é possível, mesmo o horror que nos fazem ver. Hannah Arendt definiu um dia a experiência final dos campos como o princípio do “tudo é possível”. É também nesse sentido extremo que a repetição restitui a possibilidade.

O segundo elemento, a segunda condição transcendental do cinema é a paragem. É o poder de interromper, a “interrupção revolucionária” de que falava Benjamin. É muito importante no cinema, mas, mais uma vez, não apenas no cinema. É o que faz a diferença entre o cinema e a narração, a prosa narrativa, com a qual se tem tendência a comparar o cinema. A paragem mostra-nos, pelo contrário, que o cinema está muito mais próximo da poesia que da prosa. Os teóricos da literatura sempre tiveram bastante dificuldades em definir a diferença entre a prosa e a poesia. Muitos elementos que caracterizam a poesia podem dar-se na prosa (que, por exemplo, do ponto de vista do número de sílabas, pode conter versos). A única coisa que se pode fazer na poesia e não na prosa são os enjambements e as cesuras. O poeta pode opor um limite sonoro, métrico, a um limite sintático. Não se trata apenas de uma pausa, mas de uma não-coincidência, uma disjunção entre o som e o sentido. Por isso Valéry pôde uma vez dar ao poema esta definição tão bela: “O poema, uma hesitação prolongada entre o som e o sentido”. É também por isso que Hölderlin pôde dizer que a cesura, ao parar o ritmo e o desenrolar das palavras e das representações, faz aparecer a palavra e a representação enquanto tais. Parar a palavra é subtraí-la do fluxo do sentido para a exibir enquanto tal. Poderíamos dizer a mesma coisa da paragem tal como Debord a pratica, enquanto constitutiva de uma condição transcendental da montagem. Poderíamos retomar a definição de Valéry e dizer do cinema, pelo menos de um certo cinema, que é uma hesitação prolongada entre a imagem e o sentido. Não se trata de uma paragem no sentido de uma pausa, cronológica, mas antes de uma potência de paragem que trabalha a própria imagem, que a subtrai do poder narrativo para a expor enquanto tal. É neste sentido que Debord nos seus filmes e Godard nas suas Histoire(s) trabalham com essa potência da paragem.

Estas duas condições transcendentais não podem nunca estar separadas, elas formam un sistema conjuntamente. No último filme de Debord há um texto muito importante logo no início: “Mostrei que o cinema se pode reduzir à esta tela branca, e à esta tela preta”. O que Debord entende por isto é precisamente a repetição e a paragem, indissolúveis enquanto condições transcendentais da montagem. O preto e o branco, o fundo em que as imagens estão tão presentes que nem as conseguimos ver, e o vazio em que não há imagem alguma. Existem aqui analogias com o trabalho teórico de Debord. Se tomarmos, por exemplo, o conceito de “situação construída” que deu nome ao situacionismo, uma situação é uma zona de indecidibilidade, de indiferença entre uma unicidade e uma repetição. Quando Debord diz que é preciso construir situações trata-se sempre de algo que se pode repetir e também algo de único.

Debord o menciona ainda no final de In girum imus nocte et consumimur igni, quando, em vez da tradicional palavra “Fim”, aparece a frase: “A retomar do início”. Há aqui igualmente o princípio que trabalha no próprio título do filme, que é um palíndromo, uma frase que se volta nela mesma. Neste sentido, há uma palindromia essencial no cinema de Debord.

Juntas, a repetição e a paragem realizam a tarefa messiânica do cinema de que falávamos. Esta tarefa tem essencialmente a ver com a criação. Mas não é uma nova criação depois da primeira. Não se deve considerar o trabalho do artista unicamente em termos de criação: pelo contrário, no fundo de cada ato de criação há um ato de des-criação. Deleuze disse um dia, acerca do cinema, que cada ato de criação é sempre um ato de resistência [O Ato de Criação por Gilles Deleuze]. Mas o que significa resistir? É antes de mais nada ter a força de des-criar o que existe, des-criar o real, ser mais forte que o fato que aí está. Todo ato de criação é também um ato de pensamento, e um ato de pensamento é um ato criativo, pois o pensamento define-se antes de tudo pela sua capacidade de des-criar o real.

Se esta é a tarefa do cinema, o que é uma imagem que foi assim trabalhada pelas potências da repetição e da paragem? O que muda no estatuto da imagem? É preciso repensar aqui toda a nossa concepção tradicional da expressão. A concepção corrente da expressão é dominada pelo modelo hegeliano segundo o qual toda a expressão se realiza numa mídia quer seja uma imagem, uma palavra ou uma cor, que no fim deve desaparecer na expressão acabada. O ato expressivo é consumado quando o meio, a mídia, já não é percebida enquanto tal. É preciso que a mídia desapareça no que nos dá a ver, no absoluto em que se mostra, que nele resplandece. Pelo contrário, a imagem que foi trabalhada pela repetição e pela paragem é um meio, uma mídia que não desaparece no que nos dá a ver. É o que eu chamaria de “meio puro”, que se mostra enquanto tal. A imagem dá-se a ver ela própria em vez de desaparecer no que nos dá a ver. Os historiadores do cinema assinalaram como uma novidade desconcertante o fato de que, em Monika de Bergman (1952), a protagonista, Harriet Andersson, fixa de repente o seu olhar na objetiva da câmara. O próprio Bergman escreveu a propósito desta sequência: “Aqui e pela primeira vez na história do cinema estabelece-se de súbito um contato direto com o espectador”. Desde então, a fotografia e a publicidade banalizaram este procedimento. Estamos habituados ao olhar da estrela de pornô que, enquanto faz aquilo que tem a fazer, olha fixamente a câmara, mostrando assim que se interessa mais pelos espectadores do que pelo seu partner.

Desde os seus primeiros filmes e de forma cada vez mais clara, Debord mostra-nos a imagem enquanto tal, isto é, e segundo um dos princípios teóricos fundamentais de A sociedade do Espetáculo, enquanto zona de indecidibilidade entre o verdadeiro e o falso. Mas existem duas maneiras de mostrar uma imagem. A imagem exposta enquanto tal já não é imagem de nada, é ela própria sem imagem. A única coisa da qual não se pode fazer imagem é, por assim dizer, ser imagem da imagem. O signo pode significar tudo, exceto o fato de estar a significar. Wittgenstein dizia que o que não se pode significar, ou dizer num discurso, o que é de alguma forma indizível, isso mostra-se no discurso. Existem duas formas de mostrar essa relação com o “sem-imagem”, duas formas de fazer ver o que já não há nada para ver. Uma é o pornô e a publicidade, que fazem como se houvesse sempre o que ver, ainda e sempre imagens por detrás das imagens; a outra a que, nessa imagem exposta enquanto imagem, deixa aparecer esse “sem-imagem”, o que é, como dizia Benjamin, o refúgio de toda a imagem. É nesta diferença que se articulam toda a ética e toda a política do cinema.

Giorgio Agamben, «Le cinéma de Guy Debord» (1995), in Image et mémoire, Hoëbeke, 1998, pp. 65-76.

Leituras de acompanhamento:
Resumo do livro «A Sociedade do Espetáculo» de Guy Debord
«In memoriam Guy Debord. O fim do espectáculo» de José Bragança de Miranda, 1995 «Política e arte em Guy Debord» de José Pinto, in Interact, 13, 2007
«Guy Debord, o cinema da não-separação» de Susana Nascimento Duarte, in Obscena, 3, 2007, pp. 46-49.)

Blog:
Ainda não começamos a pensar
Excelente blog sobre Cinema e cultura contemporânea @ André Dias



  • Filmografia completa de Guy Debord Links para ASSISTIR e para DOWNLOAD
  • 30 de junho de 2007

    Apresentadora nos EUA rasga roteiro em protesto contra Paris Hilton

    da BBC Brasil

    A apresentadora do telejornal MSNBC nos Estados Unidos, Mika Brzezinski, tentou queimar seu roteiro ao vivo na televisão em um protesto por ter sido obrigada a abrir seu boletim com a notícia sobre a socialite Paris Hilton.

    A co-apresentadora do programa "Morning Joe", da MSNBC, se recusou a ler a nota sobre a libertação de Hilton antes das notícias sobre a guerra no Iraque.

    "Eu odeio isto e eu não acho que deveria ser nossa principal notícia", disse ela, antes de rasgar o roteiro e tentar queimá-lo.

    Durante todo o noticiário, Brzezinski se recusou a ler a notícia em seu roteiro, que acabou jogando na máquina de triturar papel.

    "Eu simplesmente não acredito na cobertura deste evento, pelo menos não como principal notícia no programa, principalmente num dia como o de hoje", afirmou.

    Os co-apresentadores e produtores do programa continuaram a provocar Brzezinski ao exibir imagens de Paris Hilton deixando a prisão, enquanto ela punha as mãos na cabeça. Após triturar a notícia, os co-apresentadores ironizaram a atitude da jornalista dizendo: "Uau, que exemplo para o jornalismo do nosso país!" O outro completou: "Você vai mudar o mundo", ela replica "pelo menos mudarei o meu mundo".

    Veja o episódio abaixo:

    28 de junho de 2007

    Paris Hilton: Fenômeno midiático... e cultural?

    A herdeira do império de hotéis Hilton e "party girl" americana Paris Hilton é o nome do momento na impressa mundial. Fãs ou detratores todos querem saber o que ela faz e com quem ela está. Principalmente agora após o seu encarceramento de 23 dias por conduzir em estado de embriagues e reincidir contra a decisão da corte. Duas notícias sobre ela nos chamaram atenção nos últimos dias. A primeira foi o vídeo Paris in Jail, que parodia Hilton como "dublê" de cantora, que atingiu a impressionante marca de 7 milhões de exibições em duas semanas. A segunda foi a primeira entrevista pós-prisão ontem à noite na rede americana CNN.

    O primeiro fato é apenas engraçado, mas ao mesmo tempo mostra o fascínio e a força midiática da personagem Hilton na impressa atual. No ar desde o início do mês, veja o vídeo abaixo, os criadores do vídeo-clipe, Allan Murray e Sean Haines da Omovies.com, fizeram uma canção parodiando uma música de Hilton, com bastante humor e crítica sobre as últimas peripécias da socialite. Em pouquíssimo tempo o clipe bateu recordes de audiência no Youtube e continua sendo um dos mais vistos.



    Outro fato que chamou atenção foi a entrevista com o jornalista Larry King da CNN ontem à noite (27/6). Não a entrevista em si, que foi bastante condescendente e permitiu a Hilton de se redimir frente ao público americano. Durante uma hora de entrevista, a socialite leu vários trechos de seu "diário" de prisão, onde faz uma reflexão dos seus atos e se diz hoje uma pessoa madura e bastante diferente daquela que foi presa dias atrás.

    A controvérsia da entrevista aconteceu nos bastidores que a antecedeu. A questão é que para obter esta entrevista exclusiva, a primeira de Hilton fora da prisão, King cancelou a entrevista com o documentarista Michael Moore marcado para o mesmo dia. Moore lança esta semana seu novo documentário "Sicko", onde faz sérias acusações contra o sistema de saúde americano, incluindo as seguradoras privadas. Veja o trailer oficial do filme:



    King que é considerado um dos bastiões da impressa televisiva "séria" dos EUA, se curvou à anorexia da "bela" herdeira, e se rendeu aos seus encantos "literários". Como podemos entender este episódio: Isto é apenas um serviço à informação ou estamos transformando e institucionalizando esses fatos “burlescos” como Paris Hilton em eventos culturais? A impressa não está levando o entretenimento à sério demais?




    22 de junho de 2007

    Sgt. Peppers e a Snack Culture

    Acredito que este texto da jornalista Regina Augusto possa nos ajudar no debate sobre a Cultura Snack. Leia abaixo o trecho do editorial onde ela faz uma análise sobre o assunto.

    Regina Augusto
    Revista Meio e Mensagem, editorial, junho 2007

    [...] Vivemos em uma época na qual o volume de informações e de conteúdo, o acesso a ele e principalmente sua produção são absolutamente escancarados e democráticos, tornando relativas e pasteurizadas as mais diversas manifestações culturais. Não por acaso, a indústria do entretenimento é a que mais cresce no mundo.

    Essa configuração dá uma nova dimensão ao próprio conceito de entretenimento. É a tal da Snack Culture, expressão cunhada com muita propriedade pela revista Wired na edição de março. Longas-metragens, programas de TV, músicas e games agora são consumidos e embalados como se fossem petiscos, de forma instantânea, dando uma nova face à cultura pop.

    Esse fenômeno já havia sido sinalizado nos anos 80 pelo sociólogo francês Gilles Lipovetsky — autor de obras antológicas, como A Era do Vazio e O Império do Efêmero —, que é um dos principais teóricos ocidentais a observar a fugacidade das manifestações culturais, sua relação com a sociedade de consumo e as diversas transformações que esse processo tem provocado.

    Esse cenário possibilita, por exemplo, que o game Guitar Hero, uma espécie de karaokê de guitarristas, inspire a recente formação de uma banda com o mesmo nome, em São Francisco (EUA). Na melhor versão da realidade imitando o mundo virtual, o grupo de amigos, no lugar de guitarras e baixos “normais”, usa como instrumentos os controles do Guitar Hero. Um software desenvolvido pelo líder, Owen Grace, um típico “geek”, dá corpo às notas tocadas nos instrumentos. Felizmente, o vocalista e a bateria são “de verdade”.

    Leia na íntegra o editorial aqui

    18 de junho de 2007

    Cultura em Pedaços ou a Cultura dos Snacks?

    Em entrevista à Daniela Arrais do jornal Folha de São Paulo, em abril passado, eu e Gabriela Borges discutimos sobre a nova mania da internet: a “snack culture”, traduzido pelo jornal como “cultura em pedaços”. A matéria foi publicada neste final de semana pelo caderno Ilustrada e intitula-se “Cultura em pedaços é febre na internet”. O termo "renasce" à partir do Minifesto Snack Attack publicado em março pela revista americana Wired, especializada em novas tecnologias e jogos eletrônicos. Ela chama a atenção para o entretenimento de consumo rápido ter virado uma tendência na sociedade contemporânea, através dos ipods, blogs, youtubes (vídeos de dez minutos no máximo), sites de downloads de arquivos (filmes, fotos, textos) ilegais ou legais como o iTunes da Apple, entre outros. Segundo a jornalista Nancy Miller, a geração New Age dos aparatos snacks já faz parte do nosso cotidiano há um bom tempo.

    “Música, televisão, jogos, filmes, moda: agora nós devoramos nossa cultura pop da mesma maneira que nós apreciamos os doces e os chips – em pequenos formatos, convenientemente empacotados, e feitos para serem facilmente degustados com a máxima freqüência e velocidade. Esta é a cultura snack - e oh boy, como ela é apetitosa (para não dizer o quanto vicia). [...] Hoje a mídia snacking está no nosso dia-a-dia. De manhã lemos as notícias, respondemos e-mails nos nossos computadores portáteis. No trabalho surfamos o dia inteiro através de vídeos e blogs. [...] E no meio tempo, durante aqueles minutos em que o nosso telefone portátil carrega algumas chamadas, entram em ação um jogo de 30-segundos no Nintendo DS, um web-episódio de 60 segundos no celular, um podcast de três minutos no MP3 player.” Wired, ed. 15.3, Março 2007.

    A cultura snack está cada vez mais popular e tomando maior espaço nas mídias, seja como meio de divulgação, manipulação, discussão ou mesmo de democratização da informação e da cultura. Veja o exemplo das imagens do presidente Nicolas Sarkozy, durante o encontro do G8, censuradas por praticamente todas as redes de televisão da França mas disponível “pour toujours” na internet.

    Para aumentar o debate e criar novos pontos de discussão publicamos abaixo a versão completa de nossas entrevistas. O que você acha... a snack cultura veio para ficar? Ela aliena mais que democratiza a informação e a cultura? Podemos estender o termo às mídias comunicacionais de informação e falarmos de "jornalismo snack"?
    Hudson Moura



    Folha de São Paulo - Por que o entretenimento instantâneo virou febre?

    Gabriela Borges – A questão do entretenimento instantâneo ter virado febre está relacionada com a lógica da sociedade de consumo e com a sua própria concepção, ou seja, os produtos culturais são feitos para serem rapidamente consumidos a fim de que novos sejam produzidos e introduzidos no mercado. E, com o acelerado desenvolvimento tecnológico, mais produtos culturais são disponibilizados.

    Hudson Moura – Precisamos pensar em interatividade, troca, discussões. Pode ser que o formato por um lado seja fraco ou superficial mas por outro ele possibilita uma série de trocas e um dinamismo, que de uma maneira tradicional, isto não seria possível. Nosso tempo tanto quanto nossa ansiedade não nos permite esperar um amigo ler a obra de Camões ou a coletânea de Proust, para conversarmos ou debatermos sobre o assunto. Hoje em dia até mesmo duas horas de filme está ficando longo. E, por quê não transformar algo enfadonho em algo dinâmico e mais à nossa cara? Como aquele minuto que a mocinha beija o mocinho; ou aquele segundo em que Justin Timbelarke tira o sutiã de Janet Jackson; ou mesmo rever aquelas cenas mais espetaculares de 007 várias vezes. Se quisermos nos embevecermos de “high culture” e transformá-lo num evento para o verão vamos ver o novo filme do Scorsese ou do James Bond durante quase três horas! Paradoxo? Talvez, mas com certeza sairemos “extasiados” com tantas revira-voltas do filme. Se o meio ambiente vive a era do reciclagem, a cultura pop vive o momento do 'replay'.

    FSP - Você acha que as formas tradicionais de entretenimento (cinema, CDs) estão sendo substituídas por novas fórmulas? Por exemplo: você acha que as pessoas que vêem uma versão reduzida de "Pulp Fiction" no YouTube perdem o interesse por assistir ao filme inteiro?

    GB – Não acho que as formas tradicionais de entretenimento estão sendo necessariamente substituídas pelas novas. Na verdade, acho que as novas fórmulas funcionam como outras alternativas e outras possibilidades de ocupação do tempo livre. Não acredito que as pessoas deixem de assistir aos filmes pelo fato de terem visto clips no You Tube, muito pelo contrário, este meio pode ser usado de modo promocional, as pessoas podem se interessar em assisti-lo justamente por terem visto a versão reduzida.

    Quando uma nova tecnologia aparece no mercado, a tendência é achar que ela substituirá a antiga, isso já aconteceu com o cinema quando apareceu a televisão e agora o mesmo acontece com o surgimento da internet. O discurso é o mesmo, entretanto nenhuma destas formas tradicionais morreram, muito pelo contrário, continuam a desenvolver as suas linguagens. Acho que as novas linguagens que nascem copiam inevitavelmente as antigas, nesse caso, as potencialidades do meio digital ainda estão começando a ser desenvolvidas. Será muito interessante perceber o que os novos meios podem trazer de realmente novo, ou seja, no sentido de proporcionar experiências originais.

    HM – Jamais, tudo se recicla se adapta... o cinema de hoje não é mais o mesmo de cem anos atrás... com entreatos e tudo mais. Hoje os enquadramentos e movimentos de planos de um filme são ágeis e de fácil adaptação à telinha da tv. Isto quer dizer, que o mesmo filme é visto no cinema, no vídeo, na tv, no wallpaper, etc. e se transforma num evento. Esses fenômenos midiáticos se prolongam no tempo muito mais do que antes, eles podem ser consumidos de uma maneira muito mais dinâmica e ter uma vida duradoura e prolongada. O produto é o mesmo? Não. Ele se compõe e se decompõe em sub-produtos numa rede hipertextual e intertextual sem fim.

    FSP - Qual o impacto para a indústria dessa nova febre de consumir cultura aos pedaços?

    GB - Acho que temos dois fenômenos relacionados, ou seja, a indústria disponibiliza cultura aos pedaços ao mesmo tempo em que as pessoas se interessam pelos novos produtos que estão sendo lançados. Com o desenvolvimento tecnológico pelo qual estamos atravessando, acredito que mais e novos produtos culturais instantâneos serão lançados, ainda mais porque muitas vezes estes são subprodutos que aumentam o leque de ofertas de um determinado produto. Podemos pensar por exemplo nas séries de TV americanas, ou nos filmes destinados ao mercado infantil que oferece um grande pacote de produtos juntamente com o produto audiovisual em si.

    HM - Antes de tudo, pessoalmente não acho que a cultura exista em pedaços, esta que se nomeia de snack é uma outra. Ou seja, conteúdo é forma, e forma é conteúdo. Snack cultura está mais para o entretenimento e o consumo rápido de um prazer casual e de uma informação “desinteressada”. Aquela que não é necessariamente almejada. Desta forma, cada uma tem seu valor. O perigo é pensar que se informa ou que se educa através desses conta-gotas.

    Tudo se vende e é passível de transformação. A indústria não tem e nunca terá nenhuma dificuldade para se adaptar e vender o que quiser, não é a toa que empresas como Youtube são orçadas em bilhões de dólares. O que precisamos pensar é nos processos de educação e de informação. Precisamos transformar esses snacks em orgânico, biológico com alto teor nutritivo! Não é maravilhoso ver Monalisa de Da Vinci ainda em voga e competindo com “madonnas-britneys”?

    Nós enquanto sociedade precisamos estar alerta sobre a qualidade e defeitos desses snacks, e tornar seus efeitos negativos em positivos. As pessoas são ávidas por consumo... se dermos a oportunidade de escolha de bons produtos elas poderão de forma democrática e livre poder escolher o que lhes convier de melhor. O problema é quando esta alternativa não existe.

    Quando somos obrigados a repetir uma só imagem-produto ad-infinitum!

    FSP – Quais os aspectos positivos e negativos da "snack culture"?

    GB - Positivos: a criação de um novo repertório cultural com características próprias, que por sua vez proporcionará desenvolvimentos culturais idiossincráticos. Diversidade de produtos culturais em oferta.

    Negativos: a superficialidade e a instantaneidade fazem com que não haja tempo para uma maior reflexão sobre o que está sendo consumido. Por exemplo, na universidade hoje, notamos que os jovens não têm paciência para ler textos muito longos e nem conseguem ficar atentos por muito tempo. Acho que isso se deve não apenas ao fato desta geração ter sido criada diante da televisão, mas também porque têm mais acesso à informação e por isso estão mais acostumados a consumir aos pedaços, não se atêem aos pormenores e não conseguem se concentrar para aprofundar as questões e refletir sobre elas.

    HM – O que é positivo é a interatividade e a democracia dos meios de comunicação. Nós nos comunicamos muito mais que há trinta anos atrás.... através de blogs, orkut, sites de encontros amorosos ou sexuais, troca de vídeos e fotos caseiras,... essas comunidades virtuais trocam experiências e se transformam num meio de expressão que é muito saudável e que talvez economize bastante grana em terapias. O grande desafio é saber lidar e se situar emocionalmente diante dessas comunidades e como membro ativo dela, o tipo de responsabilidade que temos com o outro e com as nossas próprias expectativas. Pois, elas vão nos confundir entre o pessoal e impessoal... elas têm a tendência de serem voláteis e passageiras... não podemos contar com elas como fontes seguras e sólidas, como nossa família por exemplo.

    Através dessas comunidades virtuais, a comunicação não é a mesma, é uma outra que vai além do que imaginamos. Estamos apenas no começo de uma era essencialmente virtual.

    Cada vez mais nos reconhecemos e nos identificamos melhor com o outro através de sua “imagem-personalidade virtual-reprodução técnica” do que pessoalmente em carne e osso. Para isso estamos nos instruindo e nos aperfeiçoando, contudo num nível técnico. Não é mais a maneira como eu falo, mas como interajo com o teclado do meu computador, não é mais o meu jeito de olhar que seduz o outro ou transmite segurança, mas a minha sensibilidade maquínica, como eu enquadro ou componho meus planos ou como me comporto diante de uma câmera.

    Meus vizinhos hoje tem a oportunidade ao mesmo tempo de se comunicar comigo quanto com o mundo todo. A idéia de comunidade adquire um outro sentido além dos tradicionais espaços-tempos.


    FSP – Esses pedaços de cultura não tornam uma obra superficial? As pessoas deixam de refletir sobre os conteúdos?

    GB – Não acho que serão os pedaços de cultura que tornarão uma obra superficial, quero dizer, depende do que está considerando uma obra. Se uma obra for um filme por exemplo, os pedaços de cultura servirão para chamar a atenção sobre o filme. Agora se o próprio vídeo no Youtube for uma obra, então a sua própria essência será breve, superficial ou não, depende do caso. Ou seja, não é porque é um pedaço de cultura que é necessariamente superficial, depende do caso.

    De uma certa forma as pessoas podem deixar de refletir sobre os conteúdos a partir do referencial do que é reflexão que temos como parâmetro neste momento. Ao mesmo tempo, acredito que será gerada uma nova dinâmica que terá frutos diferenciados. Talvez a reflexão sobre os conteúdos comece a ser feita de novos modos, por exemplo, percebemos que a intertextualidade presente na maior parte destes produtos culturais faz com que o repertório, principalmente dos jovens, seja mais variado, ainda que mais superficial.

    Por outro lado, não é o fato das pessoas não refletirem sobre uma obra que faz com que ela seja superficial. Uma obra pode ou não ser superficial e, independente disso, pode fazer com que as pessoas reflitam sobre o seu conteúdo ou não. Temos muitos exemplos de filmes que não são superficiais e que estão inseridos dentro de um mercado global que oferece os seus subprodutos da cultura aos pedaços.

    HM – Volto a insistir contra o termo “pedaço” pois entende-se que exista algo faltante... acho melhor definir como porção... o quer dizer um pouco, uma amostra, etc. Por exemplo, se um filme é realmente bom ele vai sobreviver e será considerado bom com qualquer cena que privilegiamos. No entanto, se pensarmos num pedaço de um filme, quer dizer que precisaremos obrigatoriamente de seu complemento. Uma certa vez, Affonso Romano de Sant’Anna disse que não se precisa comer o ovo inteiro para sabermos se o ovo é bom ou ruim (ele dizia isto em analogia ao livro), e acrescento dizendo que, mesmo que suas partes sejam desiguais – diferentes. Acredito que valha a mesma metáfora, para a “snack cultura”, acho que teremos qualidade se assim ela o tiver. Existem tantos livros e filmes que não valem à pena de lê-los ou assisti-los por mais longos que eles sejam.



    Gabriela Borges é professora de comunicação da Universidade do Algarve e editora da Revista Intermídias. Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP com pós-doutorado em Televisão de Qualidade pela Universidade do Algarve, Portugal.

    Hudson Moura é editor-responsável da Revista Intermídias e pesquisador do Centro de Estudos da Oralidade – PUC-SP. PhD em Cinema e Literatura pela Universidade de Montreal com Pós-doutorado em Cinema Intercultural pela Universidade Simon Fraser, Vancouver, Canadá.

    Cultura em pedaços é febre na internet

    Folha de São Paulo - Ilustrada, pág. 8
    São Paulo, domingo, 17 de junho de 2007

    Filmes, músicas, séries de TV e gibis ganham tamanho reduzido para consumo instantâneo, batizado de "snack culture'

    Para pesquisador, produtos são consumidos de maneira mais dinâmica; Marcelo Tas diz que "pedaços" ajudam a decidir como gastar o tempo

    DANIELA ARRAIS
    ESTÊVÃO BERTONI
    DA REPORTAGEM LOCAL

    Nada de refrãos repetitivos e solos infindáveis. Ao sintonizar o computador na rádio Sass (www.radiosass.com), o ouvinte escuta 30 músicas em uma hora -em uma rádio tradicional, ele não ouviria mais de 12. Como? As faixas são picotadas, e os intervalos não chegam a um minuto e meio.

    A rádio on-line representa uma nova forma de consumo de cultura, a "snack culture" (cultura do aperitivo, ao pé da letra). Em boa parte graças à internet, o entretenimento instantâneo vem tomando forma com a proliferação de pequenas doses de diversão.

    O termo, difundido pela revista "Wired", especializada em tecnologia, inclui de "snacktones" (músicas de dez a 30 segundos compostas especialmente para tocar em celulares) e minigibis a filmes de ginástica com menos de dois minutos (para serem assistidos pelo iPod na academia) e versões reduzidas de clássicos do cinema, como "Pulp Fiction" (1994), de Quentin Tarantino.

    "A gente vive em uma época em que a velocidade é supervalorizada. Buscamos uma internet mais veloz, dirigimos mais rápido, comemos fast-food. Queremos mais estímulo do que antes", diz o DJ George Gimarc, idealizador da rádio Sass.

    Tanta sede pelo entretenimento instantâneo é conseqüência da sociedade de consumo, segundo Gabriela Borges, professora de ciências da comunicação da Universidade do Algarve, em Portugal. "Os produtos culturais são feitos para serem rapidamente consumidos a fim de que novos sejam produzidos", afirma.

    Já o jornalista, apresentador e diretor de TV Marcelo Tas diz acreditar que a instantaneidade causada pela revolução digital tem efeitos mais amplos. "A febre não atinge só o entretenimento, mas a informação, a comunicação e até a vida afetiva."

    Para Tas, a "snack culture" funciona como "um índice para o internauta decidir onde vai gastar seu tempo".

    "Ele [consumidor] tem o poder de decisão na mão. Pesquisa preços antes de comprar, zapeia pelos diversos canais de informação e entretenimento antes de decidir onde vai investir sua atenção", diz.

    O músico Gustavo Mini Bittencourt, da banda gaúcha Walverdes, também ressalta o papel do consumidor. "O fã é cada vez mais editor da obra do artista. Tem tanto o cara que curte ver o filme inteiro quanto o que assiste só a trailers. No meio, tem o cara que gosta de "mashupar" [misturar obras diferentes para obter um novo resultado] trailers."

    Benefícios
    Criador da rádio Sass, Gimarc diz que as versões enxutas das músicas trazem benefícios para músicos e gravadoras. "Se a minha rádio toca duas vezes mais do que as outras estações, ela venderá o dobro."

    Na mesma sintonia, Steve Ellis, fundador do programa de licenciamento on-line de música independente Pump Audio (www.pumpaudio.com), afirma enxergar na "snack culture" uma grande possibilidade de fazer negócios.

    Só em 2006, o Pump Audio, que vende trechos de músicas para programas de TV, filmes, sites e jogos de videogame desde 2001, pagou US$ 125 mil (cerca de R$ 241 mil) a artistas independentes por suas obras.

    Superficialidade
    O aumento na diversidade de produtos culturais é um dos pontos positivos da "snack culture", como aponta Borges. Mas ela alerta: "A superficialidade e a instantaneidade fazem com que não haja tempo para uma maior reflexão sobre o que está sendo consumido".

    Para Hudson Moura, editor da revista Intermídias (www.intermidias.com) e pesquisador do Centro de Estudos da Oralidade da PUC-SP, mesmo que o produto picotado deixe de ser o mesmo, pode ter caráter permanente. "Esses produtos podem ser consumidos de uma maneira muito mais dinâmica e ter uma vida duradoura e prolongada."

    Disponível no site YouTube, a versão reduzida de "Pulp Fiction", com menos de dois minutos, aumenta a vida útil e o interesse pelo filme, segundo Marcelo Tas. "A versão curta mostra que o filme, lançado no distante 1994, continua atiçando o imaginário da molecada. É uma prova da atenção e respeito dos fãs."

    O músico Bittencourt reconhece uma possível superficialidade, mas não a vê com tanto pessimismo. "Cabe olhar pra isso com atenção e curiosidade, e não com uma atitude ranzinza do tipo "hoje em dia é tudo mais superficial'", diz.


    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1706200718.htm

    9 de abril de 2007

    Lontras de mãos dadas em Vancouver causam sensação no Youtube

    No Aquário da cidade de Vancouver, duas lontras nadam de costas e espreguiçam segurando as mãos uma da outra. O pequeno vídeo caseiro que dura menos de dois minutos já é fenômeno midiático no Youtube, e já recebeu mais de 3,5 milhões de visitas sendo reproduzido em mais de 500 mil blogs e sites... e esses números não vão parar por aí! Uma centena de outros vídeos derivados já fazem a festa e provam que reciclagem também faz parte da telinha da internet... nem que seja de uma reciclagem de idéias... é o debate imagético no ar. Relaxe, elas são adoráveis... confira o vídeo abaixo!


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