18 de junho de 2007

Cultura em pedaços é febre na internet

Folha de São Paulo - Ilustrada, pág. 8
São Paulo, domingo, 17 de junho de 2007

Filmes, músicas, séries de TV e gibis ganham tamanho reduzido para consumo instantâneo, batizado de "snack culture'

Para pesquisador, produtos são consumidos de maneira mais dinâmica; Marcelo Tas diz que "pedaços" ajudam a decidir como gastar o tempo

DANIELA ARRAIS
ESTÊVÃO BERTONI
DA REPORTAGEM LOCAL

Nada de refrãos repetitivos e solos infindáveis. Ao sintonizar o computador na rádio Sass (www.radiosass.com), o ouvinte escuta 30 músicas em uma hora -em uma rádio tradicional, ele não ouviria mais de 12. Como? As faixas são picotadas, e os intervalos não chegam a um minuto e meio.

A rádio on-line representa uma nova forma de consumo de cultura, a "snack culture" (cultura do aperitivo, ao pé da letra). Em boa parte graças à internet, o entretenimento instantâneo vem tomando forma com a proliferação de pequenas doses de diversão.

O termo, difundido pela revista "Wired", especializada em tecnologia, inclui de "snacktones" (músicas de dez a 30 segundos compostas especialmente para tocar em celulares) e minigibis a filmes de ginástica com menos de dois minutos (para serem assistidos pelo iPod na academia) e versões reduzidas de clássicos do cinema, como "Pulp Fiction" (1994), de Quentin Tarantino.

"A gente vive em uma época em que a velocidade é supervalorizada. Buscamos uma internet mais veloz, dirigimos mais rápido, comemos fast-food. Queremos mais estímulo do que antes", diz o DJ George Gimarc, idealizador da rádio Sass.

Tanta sede pelo entretenimento instantâneo é conseqüência da sociedade de consumo, segundo Gabriela Borges, professora de ciências da comunicação da Universidade do Algarve, em Portugal. "Os produtos culturais são feitos para serem rapidamente consumidos a fim de que novos sejam produzidos", afirma.

Já o jornalista, apresentador e diretor de TV Marcelo Tas diz acreditar que a instantaneidade causada pela revolução digital tem efeitos mais amplos. "A febre não atinge só o entretenimento, mas a informação, a comunicação e até a vida afetiva."

Para Tas, a "snack culture" funciona como "um índice para o internauta decidir onde vai gastar seu tempo".

"Ele [consumidor] tem o poder de decisão na mão. Pesquisa preços antes de comprar, zapeia pelos diversos canais de informação e entretenimento antes de decidir onde vai investir sua atenção", diz.

O músico Gustavo Mini Bittencourt, da banda gaúcha Walverdes, também ressalta o papel do consumidor. "O fã é cada vez mais editor da obra do artista. Tem tanto o cara que curte ver o filme inteiro quanto o que assiste só a trailers. No meio, tem o cara que gosta de "mashupar" [misturar obras diferentes para obter um novo resultado] trailers."

Benefícios
Criador da rádio Sass, Gimarc diz que as versões enxutas das músicas trazem benefícios para músicos e gravadoras. "Se a minha rádio toca duas vezes mais do que as outras estações, ela venderá o dobro."

Na mesma sintonia, Steve Ellis, fundador do programa de licenciamento on-line de música independente Pump Audio (www.pumpaudio.com), afirma enxergar na "snack culture" uma grande possibilidade de fazer negócios.

Só em 2006, o Pump Audio, que vende trechos de músicas para programas de TV, filmes, sites e jogos de videogame desde 2001, pagou US$ 125 mil (cerca de R$ 241 mil) a artistas independentes por suas obras.

Superficialidade
O aumento na diversidade de produtos culturais é um dos pontos positivos da "snack culture", como aponta Borges. Mas ela alerta: "A superficialidade e a instantaneidade fazem com que não haja tempo para uma maior reflexão sobre o que está sendo consumido".

Para Hudson Moura, editor da revista Intermídias (www.intermidias.com) e pesquisador do Centro de Estudos da Oralidade da PUC-SP, mesmo que o produto picotado deixe de ser o mesmo, pode ter caráter permanente. "Esses produtos podem ser consumidos de uma maneira muito mais dinâmica e ter uma vida duradoura e prolongada."

Disponível no site YouTube, a versão reduzida de "Pulp Fiction", com menos de dois minutos, aumenta a vida útil e o interesse pelo filme, segundo Marcelo Tas. "A versão curta mostra que o filme, lançado no distante 1994, continua atiçando o imaginário da molecada. É uma prova da atenção e respeito dos fãs."

O músico Bittencourt reconhece uma possível superficialidade, mas não a vê com tanto pessimismo. "Cabe olhar pra isso com atenção e curiosidade, e não com uma atitude ranzinza do tipo "hoje em dia é tudo mais superficial'", diz.


http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1706200718.htm

16 de junho de 2007

Lançamentos Cinematográficos!

“Caparaó” conta história de guerrilha contra ditadura
O documentário de Flávio Frederico entrou em circuito quinta-feira (07/06) em seis capitais do país acompanhando a guerrilha na Serra do Caparaó, na divisa entre Minas Gerais e o Espírito Santo. O filme foi o vencedor da competição brasileira do Festival Internacional de Documentários “É Tudo Verdade” em 2006. O movimento, pouco tratado em livros e filmes, foi a primeira tentativa de luta armada contra o regime militar e começou em agosto de 1966, formada por um grupo de ex-militares expurgados pelo governo. Mesmo depois de intensivo treinamento na região por oito meses, o grupo de 20 guerrilheiros nunca foi acionado pela liderança exercida por Leonel Brizola. Isolados, os guerrilheiros de Caparaó (entre eles, o escritor Araken Vaz Galvão) já entravam em conflitos internos e passavam fome quando foram surpreendidos pela Polícia Militar de Minas Gerais, que os cercou em abril de 1967.

“Não por Acaso” trata da tragédia do trânsito paulistanohttp://www.estadao.com.br/banco/img/livre/2007/06/1972007060719344215naoporacasod.jpg

Philippe Barcinski, diretor de curtas premiados e de linguagem inovadora, como “Palíndromo”, estreou nesta sexta-feira (09/06) o seu primeiro longa-metragem, “Não por Acaso”. O filme acompanha o sofrimento de dois homens, um engenheiro de tráfego e o outro jogador de bilhar (Rodrigo Santoro - foto), que possuem obsessão pelo planejamento, e ambos sofrem uma grande perda. Trabalhando com a O2 de Fernando Meirelles, e a empresa produtora e distribuidora Fox, Barcinski não sofreu pressão de nenhuma das empresas para tornar seu filme mais palatável para as grandes platéias. O diretor trabalhou em íntima parceria com o fotógrafo e o montador, planejando muitas cenas - de trânsito, de pano verde da sinuca - já pensando nelas na tela. A música foi um caso à parte. Com Ed Cortês, Barcinski criou um tema para cada personagem, recurso sofisticado e que não é freqüente no cinema brasileiro.

14 de maio de 2007

A Circularidade e as Redes Comunicacionais da Arte Contemporânea


Resenha
Arte contemporânea: uma introdução. Anne CAUQUELIN. São Paulo, Martins Fontes, 2005.


por Manoela Afonso
afonso.manoela(arroba)gmail.com








Índice
Introdução
Os Regimes da Arte
1. Regime do Consumo
2. Regime da Comunicação
Figuras e Modos de Arte Contemporânea
1. Embreantes
2. A Atualidade
Bibliografia Auxiliar



Introdução
Saber em que contexto se encontra o autor de uma obra (seja ela literária, artística, filosófica, jornalística, ou outra), é uma importante condição para se analisar e compreender as idéias por ele apresentadas. No caso do livro ‘Arte contemporânea: uma introdução’ é preciso levar em conta de que se trata de uma publicação de 1992 - portanto de 14 anos atrás - que reflete o pensamento de uma mulher européia, formada em filosofia, professora da Universidade de Paris, especialista em arte contemporânea e co-diretora de uma revista sobre estética chamada Revue d'esthétique. Dessa maneira é possível entender o porquê de algumas escolhas de Anne Cauquelin (foto): a autora alicerça sua construção teórica na história da arte ocidental a partir do final do século XIX, com o objetivo de caminhar em direção a um entendimento da arte contemporânea – já em meados da segunda metade do século XX. Vale ressaltar que o seu campo de análise se restringe, nesse livro, a um recorte histórico da produção artística do eixo Paris-Nova Iorque.

Para organizar o seu pensamento, Cauquelin dispõe o assunto didaticamente em dois pólos: o da arte moderna e o da arte contemporânea. Para confrontar tais pólos e melhor analisar as características que definem cada um deles, a autora se utiliza do Sistema da Arte como pano de fundo dessa discussão.

Na primeira parte de seu livro, Cauquelin deixa claro ao leitor quais são os dois regimes da arte por ela propostos: o regime do consumo e o da comunicação, ligados à arte moderna e à arte contemporânea, respectivamente. O período de ruptura entre tais regimes é analisado através de figuras chamadas embreantes que, resumidamente, pode-se entender como indivíduos que demonstram práticas e pensamentos à frente de seu tempo.

A argumentação teórica dividida em ‘regimes da arte’ não só ajuda a visualizar possíveis características determinantes da arte moderna e contemporânea, como também revela um pouco a respeito do funcionamento do Sistema da Arte e de suas modificações com o passar das décadas. À medida que Cauquelin relaciona arte e mercado, os lugares que cada um dos componentes desse Sistema ocupa ficam mais evidentes, são confrontados e revelam suas adaptações à nova estrutura econômica da sociedade.

Quem é o produtor de arte? Quem a comercializa? Quem a coleciona? Quem define o que é ou não é arte? Quem a consome? É em meio a tantas questões inquietantes que Cauquelin procura caracterizar a arte contemporânea e desvendar o meio em que ela circula.

OS REGIMES DA ARTE
1. Regime do Consumo
Cauquelin, de início, procura distinguir rapidamente os termos ‘moderno’, ‘modernismo’ e ‘modernidade’, mesmo porque ao fazer isso ela define o seu ponto de partida temporal, que é por volta de 1860. A princípio, a autora associa ao termo ‘moderno’ as seguintes características: o gosto pela novidade; a recusa do passado; a posição ambivalente de uma arte ao mesmo tempo efêmera e eterna.

É nesse período e devido a tais características que a Academia de arte se depara com o fim de sua hegemonia. Essa decadência é também um fator resultante, em parte, das mudanças econômicas sofridas pela sociedade no final do século XIX e da sua repercussão no campo da arte.

O sistema acadêmico não soube nem desenvolver nem cultivar os diversos mercados potenciais que existiam dentro de um público aumentado de compradores, assim como também não soube, na mesma proporção, encorajar a identificação das individualidades artísticas com esses mercados (WHITE, 1965 apud CAUQUELIN, 2005, p.35).

Sendo assim, é possível deduzir que a recusa à Academia se dá por, pelo menos, dois motivos: a manutenção que ela dava à rigidez artística estabelecida e a falta de adaptação ao novo ritmo econômico industrial. A Academia foi, portanto, renegada pela modernidade, mas o status que ela garantia aos artistas e às obras não era algo a ser descartado. Sucesso, reconhecimento e dinheiro em giro sempre foram fatores de interesse e, se a Academia não podia mais garanti-los, era preciso haver outra instituição que o fizesse e que soubesse lidar com esse novo regime do consumo.

A onipresença do consumo é que rege a arte moderna, por excesso ou por falta, por adesão ou por recusa. Importa, pois, desenhar em grandes traços o regime de consumo geral para posicionar em seguida os atores do campo específico da arte: artistas, intermediários e público (CAUQUELIN, 2005, p. 28).

Tanto o artista quanto o consumidor pertencente às classes sociais em ascensão, eram dependentes desse reconhecimento acadêmico, o qual garantia o que era ‘verdadeiramente’ arte e se ela possuía algum valor. A dependência desse juízo de valor conferiu às novas instituições de arte, já em processo de privatização, um enorme poder de legitimação: elas passaram, cada vez mais, a definir o que deveria ser aceito ou refutado.

Dessa forma, então, instaurou-se o Sistema de Arte com todos os seus atores – marchands, críticos, curadores, colecionadores, conservadores, museus, galerias – os quais, a princípio, possuíam tarefas distintas. Cauquelin, ao longo de seu texto, procura identificar as características de cada uma dessas figuras e as transformações por elas sofridas devido às mudanças na estrutura econômica da sociedade. O crescente processo de industrialização foi o ponto de solidificação do mercado e de fortalecimento do poder das instituições, pois cada vez mais a arte passou a ser tratada como um produto que precisava e deveria ser consumido.

2. Regime da Comunicação
Produção – distribuição – consumo: esse é o esquema tripartite proposto por Cauquelin para se compreender o mercado de bens materiais e simbólicos na modernidade. A virada da era industrial para a era tecnológica resultou numa inevitável mistura de papéis: produtor, distribuidor e consumidor não mais possuem atividades específicas. A lógica da estrutura de consumo foi transformada aos poucos devido aos incrementos tecnológicos que levaram à era da comunicação, sendo que outros profissionais foram sendo agregados ao Sistema da Arte. São eles os especialistas em geração, apresentação e distribuição da informação.

O regime da comunicação proporcionará, então, mudanças significativas e irreversíveis na relação homem-espaço-tempo-consumo e, consequentemente, na relação disso tudo com a arte.

No mundo da comunicação o produto de interesse é a informação. Dessa maneira, a lei que rege a arte passa a ser a mesma que atua na emissão e distribuição da informação. Aquele que dispõe dos meios para passá-la adiante é que será o produtor dentro desse novo regime. O produto gerado agora é o ‘valor’.

Diferentemente do artista da modernidade, o atual produtor lida com os signos – e com a especulação de seu valor – dentro da rede de informação. O artista garante o aspecto visual; ele e sua arte são objetos a serem disponibilizados na rede. E é em cima desses dois elementos (artista e obra) que serão construídos os signos que circularão na rede como informação emblemática da arte contemporânea.

A autora procura destacar alguns pontos - chamados por ela de ‘efetuadores’ – que dão suporte à análise do regime da comunicação. São eles: rede; bloqueio; redundância e saturação; nominação; construção da realidade. A rede – com a conseqüente interação por ela proporcionada – é um elemento de crucial importância para o funcionamento do Sistema da Arte dentro desse novo regime: redes internacionais de artistas, galerias e instituições culturais, interação entre mercados, entre outras estruturas, ligam-se mundialmente graças às redes velozes de informação.

A interatividade permite que as “redes interconectadas se auto-organizem, repercutindo umas nas outras” (CAUQUELIN, 2005, p. 60) o que causa o problema da circularidade e, por conseqüência, a perda da referência de início, fim, origem ou destino da informação; não há mais orientação principal e nem autor definido. “Essas transformações alcançam o domínio artístico em dois pontos: no registro da maneira como a arte circula, ou seja, no mercado (ou continente), e no registro intra-artístico (ou conteúdos das obras)” (Idem, p. 65).

Nessa rede complexa de comunicação, os atores mais ativos são os que possuem a maior quantidade de informação e, de preferência, adquiridas no menor espaço de tempo possível. Embora Cauquelin aponte alguns problemas – como a redundância e a saturação – percebe-se que a rede tornou-se indispensável ao artista e à sua obra. É condição fundamental que o artista contemporâneo seja projetado pela rede, que ele esteja em vários lugares do mundo ao mesmo tempo, que aceite as regras de renovação e individualização permanente propostas por esse novo sistema de circulação da informação. “O artista tem de ser internacional, ou não ser nada; ele está preso na rede ou permanece de fora” (Idem, p. 75).

Mas o artista e sua obra precisam mais que apenas estar na rede; eles têm que, através da nominação, conseguir se sobressair e vencer a saturação provocada pela inevitável circularidade. O paradoxo encontra-se justamente nesse aspecto: a renovação constante é também uma repetição, uma saturação da nominação (uma falência, por repetição, da solução de um problema) e, quando explorada ao extremo, leva a obra e o artista a uma circularidade banalizada, a uma espetacularização praticamente sem volta.

FIGURAS E MODOS DE ARTE CONTEMPORÂNEA
1. Embreantes
Segundo Cauquelin, o embreante é uma figura de ruptura entre o regime do consumo e o regime da comunicação. Mas talvez seja mais adequado considerá-lo como um elemento de transição e não de ruptura, uma vez que a própria autora admite que os embreantes fazem referência a modos temporais, ou seja, à conexão que se operou entre passado e presente.

Apesar de estarem situados historicamente na modernidade, os embreantes escolhidos pela autora – Marcel Duchamp, Andy Warhol e Leo Castelli - são figuras reveladoras de indícios da mudança de um regime, sendo citados até os dias de hoje e provocando o pensamento na atualidade. Segundo Cauquelin (Idem, p. 88), “esses três personagens têm em comum o exercício de uma atividade que responde aos axiomas-chave do regime de consumo”. Devido a tais fatores a autora os coloca inseridos na arte contemporânea.

Marcel Duchamp influencia cada vez mais a arte contemporânea com o passar dos anos. Algumas características de sua arte contribuem para esse fenômeno. São elas: separação entre arte e estética (o que acabou integrando a arte em outras esferas de atividades); mistura de papéis dos agentes da esfera artística (produtor-intermediário-consumidor); abandono da vanguarda e da figura romântica de artista; presença de jogos de linguagem na arte.

Com a sua posição de ‘antiartista’ e com a criação dos ready-mades, Duchamp esvaziou o conteúdo emocional e intencional do artista e da obra. Formas, cores, visões, interpretações da realidade, estilo, não interessam mais. O “fazer à mão” é abandonado e dá lugar a um trabalho com signos, ou seja, Duchamp não oferece novas imagens, mas sim propõe um exercício da arte num sistema de comunicação.

Ao afirmar que qualquer objeto pode ser arte, desde que num determinado momento, Duchamp fortalece o poder da instituição de arte, pois a partir de então “o lugar de exposição torna os objetos obras de arte. É ele que dá o valor estético de um objeto, por menos estético que seja” (Idem, p. 94). O valor não está mais na obra em si, mas no espaço-palco onde é mostrada essa obra. O artista não é mais aquele que cria e executa; é apenas quem mostra, escolhe e utiliza o material, dando-lhe, segundo Cauquelin (Idem, p. 97) um “coeficiente de arte”.

Portanto, há um abandono da idéia de vanguarda e da figura romântica do artista: “o jogo da arte consiste em especular a respeito do valor da simples exposição de um objeto manufaturado” (Idem, p. 100). Os jogos de linguagem e de construção da realidade ganham importância. “Expor um objeto é intitulá-lo” (Idem, p. 101). Sendo assim, a arte deixa de ser emoção para ser algo pensado (a arte restrita ao pensamento foi o que levou Hegel, em meados de 1820, a reconhecer a sua morte).

Andy Warhol, também um embreante, é um exemplo de artista que tratou arte como negócio (business-art) e soube usar muito bem a rede para a viabilização de sua empreitada.

A rede, com a redundância e a saturação; o paradoxo, com o bloqueio em torno de si mesmo; a autoproclamação com o nominalismo; a circulação dos signos dentro da rede sem autor nem receptor; e finalmente o totalitarismo, com a internacionalização do sistema de comunicação. Pois bem, são esses preceitos ou princípios que Warhol vai utilizar da melhor maneira possível (CAUQUELIN, 2005, p. 111).

De desenhista de publicidade e artista pop reconhecido, Warhol transformou-se num empreendedor: via a arte articulada à sociedade e ao mundo dos negócios. Warhol elegeu, enquanto proposta artística, os objetos de consumo para serem mostrados e reproduzidos em larga escala. Sua fascinação por tais objetos era tão grande que ele mesmo se transformou num deles: Warhol fabricou o produto Warhol. Seu nome passou a ser a própria obra que virou uma marca para diversos de seus empreendimentos artísticos: pinturas, filmes, fotografias, exposições, textos.

Diferentemente de Duchamp, para quem o ‘espaço’ era o responsável por determinar o que era arte, Andy Warhol afirma que não é mais esse espaço físico (museu, galeria) que define algo, mas sim, o espaço da comunicação: a rede. O percurso desse artista, segundo a autora, ajuda a vislumbrar uma possível definição para arte contemporânea: um “sistema de signos circulando dentro de redes” (Idem, p. 120).

Segundo Mammí, a partir do momento em que qualquer objeto passa a ser considerado obra, os limites da arte passam ao domínio do campo da filosofia da arte. Duchamp e Warhol foram agentes transformadores do que vinha sendo considerado arte a partir do raciocínio proveniente de uma história linear. Com tal transformação, institui-se o fim da arte proposto por Danto, pois a narrativa linear, o “movimento progressivo rumo a uma consciência sempre maior de seus meios” (MAMMÍ, 2001, p. 79) daria lugar agora a uma arte pós-histórica, a uma não-linearidade da narrativa.

O terceiro embreante, Leo Castelli, foi um galerista que, assim como Andy Warhol, usou a rede para viabilizar seu negócio internacionalmente. Castelli se utilizou de certos aspectos da rede de comunicação como o consenso, o bloqueio e a internacionalização, mas foi o domínio da ‘informação’ que lhe ofereceu a condição para que se tornasse um profissional bem sucedido. Ao invés de estabelecer concorrência, firmou acordos com outras instituições globo afora, documentou todos esses procedimentos, criando uma imensa rede de relacionamento e de informação. A sua fórmula foi garantir o sucesso global dos artistas representados por sua galeria, pois, dessa forma, estaria garantindo também o seu próprio sucesso, num processo cíclico de investidas bem sucedidas dentro de uma concordância entre as principais instituições artísticas do mundo.

2. A atualidade
Após a ação desses embreantes, Cauquelin procura identificar o seu eco na arte atual. A autora constata que é por fragmentos que as proposições dos embreantes são utilizadas hoje na arte. Valores da arte moderna estão presentes na arte contemporânea. A mistura do tradicional à novidade e o olhar para o passado caracterizam esse momento. Para exemplificar essa relação entre valores da arte moderna na arte contemporânea, a autora cita vários estados da arte atual, separando-os em três grupos.

O primeiro é composto pelos movimentos da arte conceitual, do minimalismo e da land art, e tem influências de Marcel Duchamp. O segundo – figuração livre, action painting e body art – reage às proposições duchampianas. O terceiro, composto basicamente pela arte tecnológica, ocupa-se da arte relacionada às tecnologias da comunicação e, posteriormente, computacionais.

Depois da arte conceitual – ligada ainda à linguagem e a uma ausência da forma (embora a linguagem também seja uma forma), o minimalismo resgata o trabalho com as formas e as relaciona com o espaço e o tempo. Essa relação vai se acentuar e se tornar visível com as propostas efêmeras de ocupação de grandes espaços naturais pela land art.

A emoção, o fazer pictórico, o gestual e o corpo retornam com os movimentos do segundo grupo. A estética aproxima-se novamente da atividade artística e questões importantes são resgatadas nesse momento, tais como o ‘espaço da obra’ discutido por Tassinari e por Mammì. O artista volta a ser o autor e o senhor de sua criação. Apesar desse regresso, Cauquelin afirma que a influência de Duchamp permanece, que a linearidade histórica é negada, a simultaneidade das práticas é assumida e as redes são amplamente exploradas. Percebe-se, então, que as práticas atuais carregam muitos resquícios de pensamentos anteriores. Há uma relação do atual com o passado, onde muitos valores e práticas são negados, embora alguns fragmentos sejam escolhidos, mantidos e reproduzidos dentro da rede. Talvez essa incapacidade de neutralizar o passado seja o empecilho para se construir um melhor entendimento do que acontece na arte hoje. A arte mudou, mas as formas de abordá-la, estudá-la, mostrá-la, criticá-la ainda são as mesmas utilizadas desde as vanguardas.

O terceiro grupo, composto pela arte tecnológica, estabelece algumas condições e a principal delas é o trabalho em conjunto frente à dificuldade em se lidar com a especificidade tecnológica, o que novamente abala a unicidade do autor. Ela divide esse grupo em dois: o de práticas tradicionais e mistas (correio, postais, instalações com imagens de vídeo, televisão, instalações pictóricas) e o de práticas computacionais (computador como suporte de imagens, instrumento de composição e uso de softwares). Segundo a autora, ao menos no momento em que produziu seu livro (por volta de 1992), as ‘tecnoimagens’ e a arte computacional em si não eram passíveis de uma análise dentro do que vinha sendo desenvolvido no campo da arte. Hoje essa realidade é diferente; a arte computacional cada vez mais conquista seu espaço e existem cada vez mais atores em processo de construção de conhecimento nessa área: críticos, marchands, patrocinadores e, um novo componente dessa cadeia, o acadêmico universitário.

A Universidade, talvez num processo de ‘republicização’ da instituição de arte, passa a produzir a informação, portanto a concentrar o poder de avaliar o que é arte ou não. Pode-se dizer que a Universidade transformou-se em mais um tentáculo do Sistema de Arte. Vale lembrar que nesse jogo de valores prevalece mesmo a nominação: quanto mais renomada for a Universidade, maior poder e credibilidade terão os acadêmicos-críticos-marchands-curadores. Essa é mais uma demonstração da força da circularidade daquilo que cai na rede.

Bibliografia Auxiliar
MAMMÌ, Lorenzo. À margem. Ars: publicação do Dep. De Artes Plásticas da Escola de Comunicação e Artes da USP. São Paulo, vol. 1, n. 3, 1º. Semestre de 2004, pp. 80-101. MAMMI, Lorenzo. Mortes recentes da arte. Novos Estudos, São Paulo, n.60, julho de 2001. TASSINARI, Alberto. O espaço moderno. São Paulo: Cosac & Naify, 2001.



Manoela Afonso é Mestranda em Cultura Visual na Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás e Bolsista do CNPq. E-mail: afonso.manoela(arroba)gmail.com [www.manoelaafonso.zip.net]


Resenha inédita, publicada no Blog Intermídias no dia 14 de maio de 2007. Todos os direitos reservados do autor. {Referência para citação deste texto: Afonso, Manuela. "A Circularidade e as Redes Comunicacionais da Arte Contemporânea". In: Blog Intermídias, 14/05/2007, [http://intermidias.blogspot.com/2007/05/circularidade-e-as-redes.html] data de acesso: }.

23 de abril de 2007

HERÓI, VILÃO E MEDO uma análise de produções cinematográficas hollywoodianas pós 11 de setembro de 2001




Larissa Queiroz Bello
leurysmsn (arroba) hotmail.com





Artigo inédito, publicado no Blog Intermídias no dia 23 de abril de 2007. Todos os direitos reservados.
{Referência para citação deste texto: Bello, Larissa Queiroz. "Herói, Vilão e Medo. Uma análise de produções cinematográficas hollywoodianas pós 11 de setembro de 2001.". In: Blog Intermídias, 23/04/2007, [http://intermidias.blogspot.com/2007/04/heri-vilo-e-medo-uma-anlise-de-produes.html] data de acesso: }.

Índice

Introdução
1. Os Parâmetros para a Análise
2. Remakes Japoneses
3. De Que Lado Você Está?
4. Quem Salva Quem?
5. Aqueles-Dos-Quais-Não-Falamos
6. Conclusão
7. Referências Bibliográficas e Filmográficas


Introdução

O atentado terrorista ocorrido em 11 de setembro de 2001, nos EUA chocou o mundo não só pela tragédia em si, mas também pelo fato de ter acontecido dentro de um país considerado invulnerável. Quando os aviões atingiram as torres, não foram somente elas que caíram, mas sim todo o ideal do modo de vida americano que se vendia para o resto do mundo.

Dois edifícios mais importantes de Nova York foram destruídos e foi uma certa arquitetura que foi atingida ao mesmo tempo que todo um sistema de valor ocidental e uma ordem mundial. (Baudrillard, 2004, p. 32)

Já o cineasta canadense Denys Arcand considerou o 11 de setembro de 2001 como a data do início do que ele chama de as “Invasões Bárbaras”. Não, que as outras atrocidades que aconteceram no mundo, muitas vezes provocadas pelos próprios EUA, fossem menos bárbaras, mas essas foram bárbaras no sentido de que aconteceram dentro do território americano. A idéia de barbárie está mais ligada a ousadia do que a tragédia em si. O lingüista americano Noam Chomsky, ao falar sobre essa questão ressalta que as atrocidades sempre aconteceram pelo mundo, porém nunca dentro do território daqueles que detinham o poder sobre outras nações.

Se você examinar centenas de anos da história, verá que os países imperialistas têm saído basicamente imunes. Há muitas atrocidades, mas elas acontecem em algum outro lugar. (...) E tem sido assim há centenas de anos. Essa é a primeira mudança. (Chomsky, 2005, p. 16)

E o cinema americano contribuiu para construir e difundir símbolos do poder e da soberania dos EUA. Basta assistir filmes como “Força Aérea Um” (Air Force One, 1997), “Duro de Matar - A Vingança” (Die Hard With Vegeance, 1999), entre outros no estilo policial-ação. Em todos eles é possível perceber como os filmes nos familiarizaram com os órgãos e as instituições americanas, tanto que todos sabemos o que representam siglas como CIA, FBI, NASA ou nomes como Pentágono e até mesmo, a própria Casa Branca. Mas, a questão é: por que será que Hollywood sempre quis representar em seus filmes o funcionamento, a força e a eficiência de tais órgãos e instituições? Qual o motivo de tanta propaganda?

Talvez porque a intenção fosse realmente “vender” a idéia tanto para o resto do mundo, quanto para os próprios americanos, de um país com recursos suficientes para garantir segurança, qualidade de vida e inteligência. Ou ainda, porque tais instituições não estariam respondendo às suas funções como deveriam. Enfim, as possíveis razões nos levam a hipóteses diversas, mas não se pode negar que tal propaganda existe.

Em um filme, (...) a sociedade não é propriamente mostrada, é encenada. Em outras palavras, o filme opera escolhas, organiza elementos entre si, decupa no real e no imaginário, constrói um mundo possível que mantém relações complexas com o mundo real: pode ser em parte seu reflexo, mas também pode ser sua recusa (...). Reflexo ou recusa, o filme constitui um ponto de vista sobre este ou aquele aspecto da sociedade em espetáculo, em drama (...). (Vanoye e Goliot-L'été, 1994, p. 56)

A questão é: será que teria acontecido alguma mudança na produção de filmes hollywoodianos após o 11 de setembro? Qual a posição de Hollywood perante tal tragédia? Afinal, a realidade quase ficcional dos acontecimentos foi de encontro à “propaganda” dos órgãos e das instituições tão difundidas em seus filmes, já que ninguém foi capaz de prever ou evitar que o atentado acontecesse.


1. Os Parâmetros para a Análise

Para a minha análise optei pela listagem do site IMDB (Internet Movie Database) dos filmes de maiores bilheterias mundiais, exibidos entre os anos de 2002 a 2005, cujas produções foram exclusivamente americanas. Dentro dessa lista considerei os filmes que levantam questões relacionadas ao sentimento de medo e pânico, e ainda, a construção dos personagens dentro dos conceitos de arquétipos.

Os arquétipos são aqueles personagens que aparecem repetidamente ao longo da história, seja na mitologia, na religião ou nos contos de fada. Ou seja, eles são mencionados desde os tempos mais primordiais até os dias de hoje. A literatura e o cinema fazem uso de tal ferramenta para designar melhor a função de seus personagens dentro de suas narrativas. Segundo o site Cinemanet, os arquétipos mais comuns nos mitos são: HERÓI, MENTOR, GUARDIÃO DO LIMIAR, ARAUTO, CAMALEÃO, SOMBRA, PÍCARO. Para minha análise o foco recairá sobre os arquétipos de Herói e Sombra (ou Vilão).

Já a questão do sentimento de medo que é trabalhado, principalmente nos filmes de suspense e terror, está ligada ao âmbito das emoções humanas. O cientista e estudioso comportamental Jeffrey Gray cita que uma das classificações dos estímulos de medo, está o medo da novidade, que por sua vez está intimamente ligado ao medo daquilo que se parece estranho ou não se conhece.


2. Remakes Japoneses


Em 2002 é lançado “O Chamado” (The Ring), remake de um filme de terror japonês do diretor Hideo Nakata. A direção da refilmagem americana ficou a cargo do diretor Gore Verbinski. O filme conta a história de uma menina que é morta após assistir uma fita de vídeo. E todos aqueles que a assistem acabam morrendo de uma forma inexplicável. A questão central do filme é que quem mata as pessoas, na verdade é um espírito de uma criança que morreu há muitos anos atrás. Após “O Chamado”, que teve uma bilheteria mundial de mais de 230 milhões de dólares, houve uma verdadeira “onda” de remakes japoneses: “O Grito” (The Grudge, 2004), “O Chamado 2” (The Ring 2, 2005) e “Água Negra” (Dark Water, 2005). Apesar desses outros não estarem na lista de maiores bilheterias mundiais, todos apresentam o mesmo foco, ou seja, um espírito de uma criança que aterroriza a vida das pessoas. O vilão se apresenta como um ser inatingível e inalcançável. A única forma de “destruí-lo” é investigando o motivo pelo qual o faz perseguir as pessoas; é preciso pesquisar o passado daquele espírito para descobrir o que o levou a aterrorizar o mundo dos vivos.

Filmes como “O Sexto Sentido” (The Sixth Sense, 1999) já haviam trabalhado com esse mesmo tema, em que se acredita que os espíritos de pessoas mortas voltam ao mundo dos vivos para realizarem algum tipo de acerto de contas. Porém, a “onda” dessas refilmagens japonesas trazem um elemento relevante para um momento pós-atentado. O arquétipo da Sombra está representado como algo que não se pode tocar e nem exorcizar, porém ele consegue atingir e afetar a vida do Herói. E todos os espíritos que aparecem nos filmes são de crianças, ou seja, aquela figura que é representada como a inocência e a bondade pura, ganha uma roupagem de malévola e vingativa. Tal recurso também já havia sido muito usado em filmes de terror, tais como “A Profecia” (The Omen, 1976) e “Cidade dos Amaldiçoados” (Village of the Damned, 1995), que também é uma refilmagem de “A Aldeia dos Amaldiçoados” (Village of the Damned, 1960). Em todos esses filmes, as crianças são representadas como figuras malignas, porém nos remakes japoneses além de serem malignas, essas crianças não podem ser tocadas, pois elas estão em uma outra dimensão. É um mal que só conseguirá se desvencilhar do mundo terreno após se tornar conhecido e compreendido por aqueles com os quais ele tenta se comunicar. Ou seja, a referência que se faz com o 11 de setembro é de que o inimigo, assim como aqueles que derrubaram as Torres do WTC, pertencem também a uma outra dimensão, já que não eram visíveis do ponto de vista dos americanos. Eles eram invisíveis até que se fizeram notar com o atentado. Jean Baudrillard fala sobre essa questão do inimigo invisível em uma entrevista cedida no Caderno Especial do jornal O Globo em 23 de setembro de 2001.

Nós gostamos de encarar inimigos visíveis e nomináveis. Mas justamente a originalidade disso tudo é que o inimigo é invisível, não tem nome, e que o confronto é por isso mesmo assimétrico, não é uma guerra entre dois adversários. Eles não estão no mesmo plano e por isso não há uma solução. (Baudrillard, 2001, p. 8A)



3. De Que Lado Você Está?

Em 2003 é lançado “O Último Samurai” (The Last Samurai), estrelado por Tom Cruise e dirigido por Edward Zwick. O filme, que obteve uma bilheteria mundial de 435 milhões de dólares, se passa no ano de 1876. Tom Cruise é Nathan Algren, um capitão do exército americano que é enviado ao Japão para treinar as tropas de um imperador com o intuito de eliminar os samurais que ainda restam na região. Ao chegar no Japão, o capitão é recebido por Graham, um inglês que presta serviços ao imperador. Ele diz ao capitão que o motivo da briga com os samurais se deve ao fato de que eles não aceitam a ocidentalização que o imperador pretende fazer no Japão. O capitão, então se encontra com o imperador, que lhe diz que espera atingir a mesma harmonia nacional que há nos EUA. Após alguns poucos meses de treinamento, o general decide travar uma batalha com os samurais, porém o capitão Algren diz que os soldados ainda não estão prontos. O general insiste e a batalha é vencida pelos samurais, que acabam também capturando o capitão. Nesse momento o Herói passa a observar os costumes e o cotidiano da cultura samurai e acaba valorizando o estilo de vida deles. A partir daí, o capitão decide mudar de lado e lutar contra o exército que deveria ser por ele treinado.

O arquétipo de herói do filme está muito bem delineado e o personagem interpretado por Tom Cruise passa por todos os estágios típicos do herói, tanto que até a mudança de lado faz parte de um desses estágios, porém tal artifício foi pouco usado nos filmes hollywoodianos. Antes do 11 de setembro de 2001, geralmente a figura do herói não costumava mudar de lado. O que acontecia era de o herói descobrir que algum órgão ou instituição governamental estava envolvido com o lado da Sombra (vilão), ou seja, aqueles que deveriam ser confiáveis, se revelavam como não sendo. Filmes como “Perigo Real e Imediato” (Clear and Present Danger, 1994) em que o agente federal Jack Ryan (Harrison Ford) denuncia o próprio presidente dos EUA, ou ainda, “Duro de Matar 2” (Die Hard 2, 1990) em que o policial John McClane (Bruce Willis) descobre que uma facção do exército estava envolvida com o grupo de terroristas, são exemplos de como Hollywood sugeria uma possível desconfiança do lado daqueles em que o Herói deveria se sentir seguro, porém não a ponto de fazê-lo mudar de lado. A inversão de rumo do herói é uma das características destacadas na minha análise de alguns blockbusters pós 11 de setembro. Parto da observação de que após o atentado foram produzidos filmes que passaram a questionar a posição do herói e do vilão dentro da narrativa cinematográfica. Depois do atentado, alguns filmes re-trabalharam essa questão. Agora, além do Herói descobrir corrupção, violência desnecessária ou qualquer outra “anomalia” do lado daqueles que o representam, ele resolve não mais denunciar, mas sim mudar de lado.

Outro exemplo é o terceiro filme da série “Guerra nas Estrelas: Episódio 3 - A Vingança dos Sith” (Star Wars: Episode 3 - Revenge of the Sith, 2005), de George Lucas, que teve uma bilheteria mundial de mais de 800 milhões de dólares, e que também ilustra essa inversão de lado do arquétipo do Herói. O personagem de Anakin Skywalker se rende ao lado negro da Força, e assim passa de Herói a Vilão. Na verdade, tanto em “Guerra nas Estrelas” quanto em “O Último Samurai”, fica claro que a posição de Herói e Vilão (bem e mal) é muito mais uma questão de ponto de vista. Tanto que há uma cena em “Guerra nas Estrelas” em que Padmé pergunta a Anakin: “Já pensou que podemos estar do lado errado? E se a democracia que imaginamos servir não existe mais? Se a República tornou-se o mal que devemos combater e destruir?” Afinal, tanto Anakin, quanto o capitão Algren, só mudam de lado após conhecerem um pouco mais a fundo aqueles que inicialmente deveriam lutar contra.

O questionamento de tais filmes traz para um período pós-atentado alguns posicionamentos pertinentes em relação a representação do bem e o mal, do Herói e do Vilão, que as produções hollywoodianas sempre trabalharam. Afinal, será que aquele que se pensou ser o herói (os EUA), assim o é? Ou então, por que aquele tido como vilão (os inimigos externos de outros países), toma as atitudes que toma? O que os faz agir assim? Afinal, a “verdade” ou até mesmo a escolha de um caminho a se seguir, varia de acordo com o ponto de vista de como cada um observa uma determinada situação, dentro de um determinado contexto em que se encontra.


4. Quem Salva Quem?

“O Dia Depois de Amanhã” (The Day After Tomorrow), filme lançado em 2004 e dirigido por Roland Emmerich, arrecadou uma bilheteria mundial de mais de 500 milhões de dólares. O filme funciona como uma formulação do que aconteceria caso houvesse o derretimento das calotas polares do Ártico. A catástrofe natural é muito bem demonstrada, graças aos efeitos visuais desse blockbuster. O filme possui todos os arquétipos de um típico filme hollywoodiano: O Herói, no caso, é o cientista Jack Hall, interpretado por Denis Quaid e a Sombra ou Vilão é a própria mudança climática, que por sua vez foi provocada pelos homens, devido ao aumento da abertura na camada de ozônio que faz com que o sol fique cada vez mais forte.

No filme, uma onda enorme que varre toda a cidade de Nova Iorque, que em seguida fica congelada. A solução para os americanos é fugirem em direção ao sul, mais especificamente para o México. Há uma cena no filme em que um repórter diz: “Num reverso dramático da imigração ilegal, milhares cruzam o Rio Grande para entrar no México. As pessoas largam seus carros, pegam suas coisas e enfrentam o rio para entrar no México ilegalmente”. Depois, vemos mais uma vez no noticiário que o trânsito está fluindo melhor na fronteira porque o presidente dos EUA resolveu perdoar toda a dívida externa da América Latina em troca de abrigo para o povo americano. O presidente acaba morrendo ao tentar fugir da nevasca e o vice-presidente assume seu lugar. No final do filme ele faz um discurso na TV dizendo: “O fato de estar em solo estrangeiro é uma prova de como nossa realidade foi mudada. Não somente americanos, mas pessoas por todo o globo agora são hóspedes de nações que chamávamos de Terceiro Mundo. Num momento de necessidade, nos receberam e nos abrigaram. E sou profundamente grato por sua hospitalidade”.

A maioria dos filmes blockbusters, no estilo de “O Dia Depois de Amanhã”, mostravam os americanos como aqueles que salvavam o mundo de alguma catástrofe natural ou de alguma ameaça extra-terrestre. O próprio Roland Emmerich assim o fez em “Independence Day” (idem, 1996), quando alienígenas não muito amigáveis explodem prédios e a própria Casa Branca. O final do filme é o mais patriótico possível, com o próprio presidente dos EUA pilotando um dos aviões para enfrentar a nave-mãe dos ET’s. E ainda há o fato de que a batalha final aconteça no dia 4 de julho, que é o dia da Independência Americana, justificando assim o título do filme.

“O Dia Depois de Amanhã” é um filme que também se encaixa na característica de inversão de papéis, por mostrar os americanos na posição daqueles que serão salvos e não como aqueles que irão salvar o mundo. Ou seja, a relação que se pode estabelecer entre o motivo da catástrofe climática e também o do atentado ocorrido em 11 de setembro de 2001 é que sempre houveram agressões tanto, no caso do filme, ao meio ambiente, quanto no caso do atentado, a outros povos, porém as consequências do que isso poderia acarretar nunca foram consideradas.


5. Aqueles-Dos-Quais-Não-Falamos

Em 2004 estréia “A Vila” (The Village) do diretor indiano, mas radicado nos EUA, M. Night Shyamalan. O filme obteve uma bilheteria mundial de mais de 255 milhões de dólares. A história se passa em um vilarejo numa área rural, em uma época remota, como século XIX ou algo assim. As pessoas vivem em comunidade e isoladas do resto do mundo. Tudo parece perfeito se não fossem "aqueles-dos-quais-não-falamos", que são “criaturas” que vivem na floresta que cerca a Vila e a atacam de vez em quando. Na metade do filme descobrimos que as tais “criaturas” são de mentira. Elas foram criadas pelo líder da Vila para que seus moradores não saíssem de lá. No final do filme, um dos personagens, Lucius, que pode ser considerado o Herói, se fere e o líder da Vila pede a sua filha, que é cega, para atravessar a floresta e ir até a cidade em busca de medicamento. Quando ela ultrapassa o muro que separa a floresta da cidade, percebemos que a época em que eles vivem também foi forjada, pois o guarda que aborda a filha do líder não usa roupas como as que eles usam na Vila. Por fim, ela consegue pegar os medicamentos e retornar ao vilarejo para salvar o Herói.

Considero este o filme que melhor ilustra a metáfora do pós 11 de setembro. “A Vila” nada mais é do que a própria sociedade americana isolada, com medo de “criaturas” criada por ela mesma e alienada por um líder que diz saber o que é melhor para o bem estar de todos. E a partir do momento em que o filme se revela como um falso suspense, ele toma um sentido mais político e mais metafórico em relação ao 11 de setembro. Vale destacar que o diretor indiano desenvolveu um estilo próprio em seus filmes, que remetem ao mistério e ao sentimento de dúvida que ele cria no espectador. Num artigo publicado pelo crítico Bruno Andrade, no site Contracampo, tem-se a seguinte observação sobre a obra de Shyamalan.

De tudo isso surge a necessidade de discutir a maneira como a obra de Shyamalan se inscreve num momento ‘pós’: tragédias, acidentes, traumas, tristeza, loucura, fantasmagorias... (...) Mas é em A Vila, mais que em qualquer outro filme, que essa idéia do momento-pós alcança uma espécie de ápice, chegando mesmo a algo próximo de um esgotamento e um paroxismo completo (...) Existe uma desolação enorme partilhada pelos personagens do filme, talvez por conta do impossível que é o abandono desta ‘vila’ em favor da travessia pela floresta onde residem ‘aqueles-dos-quais-não-falamos’, ou talvez pelo sentimento de que será impossível a manutenção da harmonia que durante tanto tempo preencheu este espaço improvável que é ‘a vila’. (Andrade, S/D)

A mentira das criaturas foi criada para manter todos ali, dentro daquele espaço, e para que ninguém ousasse sair. E só foi possível que a mentira se tornasse verdadeira graças ao sentimento de medo e pânico criado em torno da falsa história das criaturas. Assim, o vilão da história se constitui não mais num vilão concreto, no caso, as criaturas, mas num vilão abstrato originado do próprio sentimento que as pessoas aprenderam e adquiriram com o passar dos anos.

Outro aspecto interessante do filme é o momento em que o líder da Vila decide contar o segredo das falsas criaturas para sua filha que é cega. Considero tal escolha como sábia e cruel. Sábia porque como ela é cega, não iria saber percorrer todo o caminho novamente caso quisesse algum dia fugir da vila. E cruel porque ele arrisca a vida da própria filha a adentrar sozinha na floresta, que apesar de não ser habitada por criaturas, pode ter outros perigos verdadeiros. Mais uma vez a metáfora se faz presente na sociedade americana da era Bush. Afinal, quando declarou guerra contra o Iraque, os soldados escolhidos foram, em sua maioria, adolescentes que são de mais fácil manipulação e alienação. Podemos muito bem compará-los a uma menina cega. Enfim, podemos concluir que a mensagem do filme é que o conceito de uma sociedade perfeita é aquela em que todos devem viver com medo, pois é através dele que se torna mais fácil o controle de um povo.

E “A Vila” não foi o único filme pós 11 de setembro que trabalhou a questão do sentimento do medo como um vilão da história. O diretor Christopher Nolan, dirigiu “Batman Begins” em 2005, e teve uma bilheteria mundial de mais de 350 milhões de dólares. O Batman de Nolan é bem diferente dos últimos filmes da série. Ele retoma o lado psicológico do personagem, assim como fez Tim Burton nos dois primeiros filmes, porém vai um pouco mais a fundo, contando como nasceu o Herói de um homem comum. O medo do filme está presente tanto no personagem principal da história, que precisa vencer os seus próprios medos, quanto através do Vilão Ra’s Al Ghul que usa um gás alucinógeno fazendo com que as pessoas vejam umas as outras como monstros, ou seja, como inimigos.

Alguns críticos também consideraram “Batman Begins” como um filme que toca em muitos pontos relevantes pós o 11 de setembro: “Até o tradicional vilão Ra’s Al Ghul foi repaginado como um terrorista moderno, intencionado em curar o mal que, a seu ver, assola a sociedade de Gotham (leia-se Ocidental)” (Gordirro, 2006).

Sendo assim, tanto em “Batman Begins” como em “A Vila” o vilão da história é o próprio sentimento de medo e pânico que as pessoas passaram a adquirir graças a uma manipulação alheia.


6. Conclusão

Este artigo extraído do meu trabalho de conclusão de curso partiu de uma observação pessoal e se apresenta como parte de uma análise do discurso de filmes hollywoodianos produzidos pós 11 de setembro de 2001, mas que ainda pretendo me aprofundar em uma pesquisa futura.


7. Referências Bibliográficas e Filmográficas

Livros:
BAUDRILLARD, Jean e MORIN, Edgar. A violência no mundo. Rio de Janeiro: Anima, 2004;
CHOMSKY, Noam. Poder e terrorismo: entrevistas e conferências pós-11 de setembro. Rio de Janeiro: Record, 2005;
GRAY, Jeffrey. A psicologia do medo e do stress. 2ª ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1978;
VANOYE, Francis e GOLIOT-LÉTÉ, Anne. Ensaio sobre análise fílmica. 3ª ed. São Paulo: Papirus, 1994.

Artigos e Entrevistas:
ANDRADE, Bruno. Blinding Edge: sobre A Vila e o cinema de M. Night Shyamalan. Disponível em http://www.contracampo.com.br/64/blindingedge.htm
Acesso em 03/11/06;
BAUDRILLARD, Jean. Poder versus suicídio: o choque do mundial com o singular. O Globo, Rio de Janeiro, p. 8A, 23, set. 2001. Entrevista concedida a Hugo Sukman pelo pensador francês.

Sites Consultados:
Internet Movie Database: http://www.imdb.com/boxoffice/alltimegross?region=world-wide (Acesso em 25/09/06)
Cinemanet: http://www.cinemanet.com.br/arquetipos.asp (Acesso em 05/11/06)

Filmes Citados:
A ALDEIA DOS AMALDIÇOADOS (Village of the Damned). Direção: Wolf Rilla. Produção: Ronald Kinnoch, 1960;
ÁGUA NEGRA (Dark Water). Direção: Walter Salles. Produção: Doug Davison, Roy Lee e Bill Mechanic, 2005;
A VILA (The Village). Direção: M. Night Shyamalan. Produção: Sam Mercer, Scott Rudin e M. Night Shyamalan, 2004;
AS INVASÕES BÁRBARAS (Les Invasions Barbares). Direção: Denys Arcand. Produção: Daniel Louis e Denise Robert, 2003;
A PROFECIA (The Omen). Direção: Richard Donner. Produção: Harvey Bernhard, 1976;
BATMAN BEGINS (idem). Direção: Christopher Nolan. Produção: Larry J. Franco, Charles Roven e Emma Thomas, 2005.
CIDADE DOS AMALDIÇOADOS (Village of the Damned). Direção: John Carpenter. Produção: Sandy King e Michael Preger, 1995;
DURO DE MATAR 2 (Die Hard 2). Direção: Renny Harlin. Produção: Charles Gordon, Lawrence Gordon e Joel Silver, 1990;
DURO DE MATAR - A Vingança (Die Hard With Vegeance). Direção: John McTiernan, 1999;
FORÇA AÉREA UM (Air Force One). Direção: Wolfgang Petersen. Produção: Armyan Bernstein, Gail Katz e Wolfgang Petersen, 1997;
GUERRA NAS ESTRELAS: Episódio 3 - A Vingança dos Sith (Star Wars: Episode 3 - Revenge of the Sith). Direção: George Lucas. Produção: Rick McCallum, 2005;
INDEPENDENCE DAY (idem). Direção: Roland Emmerich. Produção: Dean Devlin, 1996;
O DIA DEPOIS DE AMANHÃ (The Day After Tomorrow). Direção: Roland Emmerich. Produção: Roland Emmerich e Mark Gordon, 2004;
O CHAMADO (The Ring). Direção: Gore Verbinski. Produção: Laurie MacDonald e Walter F. Parkes, 2002;
O CHAMADO 2 (The Ring 2). Direção: Hideo Nakata. Produção: Laurie MacDonald e Walter F. Parkes, EUA , 2005. 107 min.
O GRITO (The Grudge). Direção: Takashi Shimizu. Produção: Doug Davison, Roy Lee e Robert G. Tapert, 2004;
O SEXTO SENTIDO (The Sixth Sense). Direção: M. Night Shyamalan. Produção: Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Barry Mendel e Sam Mercer, 1999;
O ÚLTIMO SAMURAI (The Last Samurai). Direção: Edward Zwick. Produção: Tom Cruise, Tom Engelman, Marshall Herskovitz, Scott Kroopf, Paula Wagner e Edward Zwick, 2003;
PERIGO REAL E IMEDIATO (Clear and Present Danger). Direção: Phillipe Noyce. Produção: Mace Neufeld e Robert Rehme, 1994;




Larissa Queiroz Bello é graduada em Comunicação - Rádio & TV pela FAESA, Vitória, ES em dezembro de 2006. TCC orientado pela Profa. Ms. Maria da Conceição Soares. Durante a graduação foi voluntária no programa sobre cinema, Bitola, do canal universitário. Participou da realização de vários vídeos de ficção e documentário, entre eles Em Busca da Glamourânssia e Em Busca da Glamourânssia 2 – O Glamour. Atualmente participa do projeto Curta Nas Prateleiras idealizado por Cavi Borges, proprietário da locadora Cavídeo, Cobal, Humaitá, RJ. Blog pessoal Cine em Foco. E-mail: leurysmsn_arroba_hotmail.com (copie o endereço ao lado e substitua "_arroba_" por @)



Artigo inédito, publicado no Blog Intermídias no dia 23 de abril de 2007. Todos os direitos reservados. {Referência para citação deste texto: Bello, Larissa Queiroz. "Herói, Vilão e Medo. Uma análise de produções cinematográficas hollywoodianas pós 11 de setembro de 2001.". In: Blog Intermídias, 23/04/2007, [http://intermidias.blogspot.com/2007/04/heri-vilo-e-medo-uma-anlise-de-produes.html] data de acesso: }.

22 de abril de 2007

Tempo para pensar as conexões...


bp.underground
excelente foto-diário de Budapeste

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