31 de março de 2010

A mania BBB completa uma década com recorde mundial de votação e mau exemplo de ética na televisão


O BBB 10 (Big Brother Brasil) encerra mais uma edição com um recorde mundial de votos, 155 milhões, envolvendo todos os países onde o big brother é produzido e exibido. “É com muito prazer que eu anuncio que o Big Brother Brasil acaba de bater o recorde mundial de votação em reality shows”, anuncia em voz solene o apresentador Pedro Bial, antes de chamar o ganhador do prêmio de 1,5 milhão de reais, o lutador Marcelo Dourado.


Reprodução


As controvérsias não pararam nesta edição a começar por sua diversidade de orientação sexual que provocou discussões polêmicas e ataques envolvendo os próprios participantes, como a homofobia por parte de Dourado e a heterofobia por parte de Dicésar. O que levou na semana passada o apresentador do programa a se desculpar pelas opiniões dos participantes e a ausentar a emissora de tal comportamento. “Por ser um programa sem roteiro”, disse Pedro Bial, os candidatos “às vezes fazem afirmações impensadas”. E estas, “Não representam a posição da Globo”. Sem dizer exatamente o quê os participantes haviam declarado, ele afirmou que a mesma é a favor do “respeito à diversidade e a repulsa ao preconceito”.

Aliás essas discussões podem ter sido o mote para uma controvérsia que estréia com esta edição, a dos votos fraudulentos. Na verdade a tal diversidade sexual do Big Brother - lésbica e homossexuais assumidos - incomodou muitos telespectadores que viram no oponente Dourado, o defensor do machismo e dos "bons" costumes morais da sociedade brasileira. 

A partir disto, o antigo participante do BBB de 2004 e recauchutado em forma de minoria e perdedor, Marcelo Dourado (ele alega que perdeu tudo nos últimos seis anos, da fama à grana), viu o momento de sua revanche e se tornou o bastião de resistência a tanta diversidade e tolerância. 

Os telespectadores seguidores de Dourado conseguiram, segundo saiu publicado em várias mídias, burlar o sistema de votação da Globo. Assim a cada emparedamento do lutador o BBB batia recordes de votação. Para se ter uma idéia, antes deste histórico 155 milhões envolvendo todos os realities shows, inclusive os americanos, na semana passada no paredão entre Dicésar e Dourado foram computados 125 milhões.

No entanto, na guerra de audiiencia (e de escrúpulos) da televisão brasileira, a Globo simplesmente fechou os olhos e comemorou com a torcida do Dourado pela nova estratégia. 
Hudson Moura

8 de março de 2010

O modesto "Guerra ao Terror" ganha contra o gigante Avatar na batalha do Oscar 2010

James Cameron realizou em 2009 seu grande feito, o filme mais caro e rentável do mundo. Apenas no mercado interno, Avatar já passa dos 700 milhões de dólares em bilheteria e continua há mais de dois meses entre os cinco filmes mais vistos nos Estados Unidos. Cameron adora esses feitos monumentais. Mas, neste domingo, antes de pisar no tapete vermelho da premiação dos Oscars, ele esperava poder dividir o prêmio de melhor filme e melhor diretor com a ex-esposa Kathryn Bigelow, diretora do modestíssimo Guerra ao Terror (The Hurt Locker). Por falsa modéstia, Cameron temia que se repetisse o mesmo resultado do Globo de Ouro (Golden Globes) quando Avatar liderou a premiação enquanto o filme da 'pobre' ex-esposa não levou nenhum prêmio. Sua preocupação não era à toa, afinal duas polêmicas já envolviam Guerra ao Terror logo antes de fecharem as urnas.


Nicholas Chartier, um dos produtores do filme, enviou um email aos membros da academia pouco antes da votação chamando a todos para apoiarem Guerra ao Terror. Ele os pedia para dizer sim ao cinema independente e não a um filme de 500 milhões de dólares, numa apologia à Avatar. Esta situação pegou tão mal, que a academia acusou o produtor por conduta de má-fé e o impediu de comparecer na cerimônia. Tudo isto mesmo depois que ele tenha pedido desculpas e tenha reenviado minutos após um outro email pedindo aos membros para desconsiderarem a primeira mensagem. Senão bastasse, um militar da reserva, ex-combatente das forças armadas americanas no Iraque, abriu um processo contra o roteirista e produtor Mark Boal de basear o filme na sua vida sem portanto levar crédito ou compensação financeira.


Polêmicas à parte, Guerra ao Terror pelo visto já estava predestinado ao panteão dos oscarizados. O filme levou quase todos os prêmios nos quais concorria, inclusive prêmios técnicos (praticamente considerados garantidos para Avatar) como montagem de som e efeitos sonoros. Com um orçamento modesto de onze milhões de dólares e uma estória originalíssima sobre uma equipe anti-bombas, Kathryn Bigelow provou que cinema de qualidade se faz com criatividade e talento. O filme é adrenalina pura como um bom filme de ação requer, construído sobre uma base dramática sólida que poucos, inclusive Avatar, conseguem alcançar. O filme neste sentido é bastante equilibrado e conta com um elenco afiadíssimo que consegue manter a atenção e tensão ao longo do filme.


Filmado com uma arquitetura narrativa provinda do documentário, os planos seguem a tendência atual do cinema-realidade, diferenciando em termos estilísticos do cinema realista ou neo-realista de alguns anos atrás. Assim toda a carga dramática é levada por uma câmera ágil e móvel, diálogos dispersos, e um elenco desconhecido e bastante crível liderado pelo excelente Jeremy Renner, deixando as estrelas de Hollywood em papéis secundários ou, se me permitem a expressão, descartáveis, entre eles estão Ralph Fiennes e Guy Pierce. Uma aposta ousada da diretora mas bastante condizente com o efeito que queria provocar no público. Se distanciando dos rostos familiares dso astros hollywoodianos, ela conseguiriam uma relação "fresca" entre audiência e personagem, com isto reproduzindo o mesmo efeito de empatia ou de desconfiança com soldados reais que servem atualmente nas forças americanas.


A academia parecia saber quem ganharia o prêmio de melhor diretor ao escalar Barbra Streisand para entregá-lo. Afinal, Streisand é considerada uma das grandes faltas da academia. Todos esperavam que ela seria em 1983 a primeira mulher a ganhar um oscar como melhor diretora pelo seu trabalho em Yentl. Quase trinta anos depois eis que finalmente uma mulher sobe ao podium, mesmo que o filme seja um filme de guerra, a presença de mulheres no filme é quase inexistente, e que Bigelow não tenha mencionado nenhuma mulher no seu discurso, não tira o feito de ainda ter sido uma das poucas produtoras a ganhar o prêmio de melhor filme.


Kathryn Bigelow no seu segundo discurso de agradecimento poderia ter exclamado: Eu sou a rainha do mundo!, como fez Cameron há dez anos atrás quando foi premiado por Titanic. Mais modesta, Bigelow agradeceu o povo da Jordânia, onde o filme foi feito, e dedicou os prêmios aos homens e mulheres que trabalham uniformizados, sejam eles soldados baseados no Iraque ou no Afganistão, quando aos bombeiros ou policiais.


Bigelow é conhecida do grande público dos filmes de ação já há algumas décadas mesmo antes de ser casada com James Cameron. Em 1987 ela dirigiu e co-roteirizou o excelente Near Dark, uma história de vampiros moderna e bastante original. Alguns anos depois alcançou grande sucesso com Caçadores de Emoção (Point Break, 1991), um ótimo filme de ação-policial capitaneado pelos astros hollywoodianos Keanu Reeves e Patrick Swayze.


Com certeza outra grande surpresa deste ano foi o prêmio de melhor filme estrangeiro para o argentino Juan José Camapanella com El secreto de sus ojos. Não que o filme não seja excelente, mas ele acabou batendo dois grandes favoritos, os premiadíssimos O laço de fita branco (Das weissen band) do diretor austríaco Michael Henneke e Um profeta (Un prophète) do diretor francês Jacques Audiard. Um profeta para se ter uma idéia arrebatou há duas semanas atrás 9 césars (o oscar francês), incluindo dois prêmios para o seu protagonista Tahar Rahim, melhor ator e melhor ator aspirante. 


O thriller policial de Campanella, um velho conhecido dos cinéfilos, diretor de O filho da Noiva e Clube da Lua, segue dentro de um gênero típico do cinema argentino: os filmes da ditatura. Apesar do filme não ter uma relação direta com a política argentina, o filme mostra os entraves dos processos judiciários num país comprometido com os desmandos dos militares e seus delatores de plantão. Um tema forte e ao mesmo tempo um suspense de tirar o fôlego. 


Mas, não podemos esquecer que Hollywood rege em torno do networking (rede de conhecidos) e dos pequenos caprichos e presentes como qualquer campanha eleitoral. E com isto, Campanella saiu na frente pois há mais de vinte anos trabalhando no mercado americano, principalmente nos seriados televisivos, ele é carinha tarimbada de Hollywood e que agora, ganhador de um oscar, se torna um diretor influente e com bastante prestígio.


A palavra ganhar ou ganhador voltou à moda este ano em Hollywood. Depois de uma onda politicamente correta de mais de décadas obrigando à todos a mencionarem o nome do prêmio antes de anunciar o felizardo... "E o Oscar vai para..." O velho jargão pra alívio e felicidade de muitos... And the Winner is... está de volta! 
Hudson Moura


Veja então a lista dos GANHADORES abaixo:



MELHOR FILME

"Guerra ao Terror"



MELHOR DIRETOR
Kathryn Bigelow ("Guerra ao Terror")

MELHOR FILME ESTRANGEIRO

El secreto de sus ojos (The secret in their eyes) Argentina
dir. Juan José Campanella

MELHOR ATOR

Jeff Bridges ("Coração Louco")

MELHOR ATRIZ

Sandra Bullock ("Um Sonho Possível")

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Christoph Waltz ("Bastardos Inglórios")

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

"Mo'Nique ("Preciosa - Uma História de Esperança")

ROTEIRO ORIGINAL

Mark Boal ("Guerra ao Terror")

ROTEIRO ADAPTADO

Geoffrey Fletcher ("Preciosa - Uma História de Esperança")

ANIMAÇÃO

"Up - Altas Aventuras"

CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO

"Logorama"

DIREÇÃO DE ARTE

Rick Carter e Robert Stromberg (direção de arte) e Kim Sinclair (direção de cena) em "Avatar"

FIGURINO

Sandy Powell ("The Young Victoria")

MAQUIAGEM

Barney Burman, Mindy Hall e Joel Harlow ("Star Trek")

FOTOGRAFIA

Mauro Fiore ("Avatar")

DOCUMENTÁRIO

Louie Psihoyos e Fisher Stevens ("A Enseada")

DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM

Joe Letteri, Stephen Rosenbaum, Richard Baneham e Andrew R. Jones ("Music by Prudence")

EDIÇÃO DE SOM

Paul N.J. Ottosson ("Guerra ao Terror")

MIXAGEM DE SOM

Paul N.J. Ottosson e Ray Beckett por ("Guerra ao Terror")

MONTAGEM

Bob Murawski e Chris Innis ("Guerra ao Terror")

TRILHA SONORA

Michael Giacchino por ("Up - Altas Aventuras")

CANÇÃO

"The Weary Kind" ("Coração Louco"), música e letra de Ryan Bingham e T Bone Burnett


Ricardo Darín em O segredo de seus olhos (El secreto de sus ojos) de Juan José Campanella.

20 de fevereiro de 2010

Beckett no Pátio


No Pátio de Letras de Faro, dia 27 às 17h, acontecerá o lançamento em Portugal do livro A poética televisual de Samuel Beckett de Gabriela Borges (foto abaixo) como parte do evento Beckett no Pátio, que conta ainda com a exibição das tele-peças Not I (1972) produzida pela BBC e Quadrat I + II (1982) produzida pela emissora alemã Süddeustcher Rundfunk. No evento terá também duas apresentações multimídias. Na primeira, o ator e prof. António Branco, diretor da FCHS/UALG, apresentará uma criação intermedia a partir das peças de televisão do autor num diálogo entre imagem, som, luz e texto com a leitura dramática da tele-peça Eh Joe (1968). Na segunda, Alexandre Caravela e Gabriela Borges farão uma intervenção experimental sonora e visual com a participação do Prof. Doutor Vítor Reia-Baptista.

O livro A poética televisual de Samuel Beckett é resultado de uma extensa investigação de doutoramento realizada pela professora e investigadora da Universidade do Algarve no Samuel Beckett Centre, Trinity College Dublin, e na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e apresenta-se como o primeiro trabalho sistemático realizado em língua portuguesa sobre as peças que Samuel Beckett escreveu e produziu para a televisão.

Esta é uma rara oportunidade para conhecer a poética televisual beckettiana e ter acesso a este
trabalho, que é uma edição brasileira publicada pela editora paulista Annablume, com o apoio da Fapesp (Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo, Brasil) e do Ciac (Centro de Investigação em Artes e Comunicação da Universidade do Algarve).

A obra discute a poética televisual de Samuel Beckett elaborada a partir das suas experimentações nos mais diversos media e apresenta uma análise estética e intersemiótica das tele-peças e das transcriações das peças de teatro para a televisão. Além de ter proporcionado a Beckett a possibilidade de expressar o seu olhar estético por meio das formas que criou, a tecnologia televisual se abre para experimentações e indagações a respeito do seu próprio potencial expressivo e artístico.

O argumento usado no livro é o de que a arte pode trazer vida inteligente para a televisão. As tele-peças de Beckett mostram que algumas imagens podem forçar os limites do constante enquadramento e reenquadramento do domínio tecnológico, o qual pode abrir-se para o mistério da arte e para um novo saber fazer da técnica que seja poético.

15 de janeiro de 2010

CIAC promove I Jornadas de Investigação em Artes e Comunicação

O Centro de Investigação em Artes e Comunicação (CIAC) da Universidade do Algarve (UAlg) organiza, a 16 e 17 de Janeiro, as I Jornadas de Investigação em Artes e Comunicação. O evento decorrerá entre as 09h00 e as 18h30 no Anfiteatro 0.5 do Complexo Pedagógico do Campus Penha.

As intervenções nas I Jornadas de Investigação em Artes e Comunicação dirigem-se a um público especializado na área das artes e da comunicação e têm como objectivo promover a divulgação da investigação que está a ser desenvolvida por professores, investigadores e alunos de doutoramento do CIAC, bem como estimular o debate interdisciplinar entre as diversas áreas de especialização e de actuação deste centro de investigação.
Segundo a Prof.ª Gabriela Borges, investigadora do CIAC e responsável pela organização do evento, «serão apresentados projectos de doutoramento e pós-doutoramento em curso e recentemente finalizados, bem como os projectos em desenvolvimento nas áreas do Teatro e Estudos da Performance, Comunicação, Estudos Fílmicos e Artes Visuais».
As I Jornadas de Investigação em Artes e Comunicação, de entrada gratuita, têm ainda o intuito de proporcionar o debate entre os membros e colaboradores do CIAC tanto do seu pólo na UAlg como do pólo na Escola Superior de Teatro e Cinema do Instituto Politécnico de Lisboa, «trazendo ao conhecimento da comunidade académica do Algarve as mais recentes investigações desenvolvidas nas áreas de especialização do centro», sublinha a investigadora.

Responsável pela organização:
Prof.ª Doutora Gabriela Borges
FCHS – Campus Gambela
Tel: 289 800 900 - Ext. 7817
Tel.: 962 643 749
E-mail: gaborges@ualg.pt

Informações e inscrições:
Gabinete de Eventos da FCHS
Sr.ª Isabel Afonso
E-mail: gefchs@ualg.pt | Telefone: 289800900 - Ext.: 7914

A Poética Televisual De Samuel Beckett

A Poética Televisual De Samuel Beckett

Gabriela Borges



Neste belo livro de Gabriela Borges temos um Beckett exposto. Sim, porque a autora nos apresenta, juntamente com sua arguta análise, o fazer constitutivo da estética televisiva do autor. Praticamente desconhecido do público brasileiro, posto que nunca divulgado ou publicado aqui, esse material de trabalho backettiano mostra-se rico e útil para todos aqueles que pensam a TV – seu modo narrativo, segundo um molde mais inteligente. André Bazin, ao comentar o trabalho de Tati, disse que “jamais, sem dúvida, os aspecto físico da palavra, sua anatomia, havia sido posto tão claramente em evidência”. Podemos, sem dúvida alguma, estender essa colocação, no caso de Beckett, aos modos de vários e inusitados de dispor os elementos que compõem a linguagem da TV. A carnalidade do constructo televisivo é por ele desnudada de forma criativa, instigante. Pensa-se Bekett e pensa-se TV. Gabriela Borges, com este estudo, preenche uma lacuna no nosso conhecimento das inúmeras ‘buscas’ empreendidas no campo das artes audiovisuais pelo grande romancista e teatrólogo, com uma leitura atenta aos múltiplos caminhos por ele percorridos, aqui dispostos à espera de novas reflexões. (Josette Monzani)

Sumário sintetizado

Apresentação - Arlindo Machado

Capítulo 1 - Beckett: artista miltimídia
1.1 A desconstrução da linguagem
1.2 As peças teatrais
1.3 As peças radiofônicas
1.4 A voracidade da câmera-olho

Capítulo 2 – A experiência televisual
2.1 A colaboração com a BBC
2.2 A direção na SDR

Capítulo 3 - As tele-peças
3.1 As vozes da memória
3.2 Os fantasmas
3.3 As imagens da memória
3.4 A zona de ausência
3.5 A outra noite

Capítulo 4 - As transcriações
4.1 A boca verborrágica
4.2 As máscaras da morte

Capítulo 5 - A poética televisual
5.1 O domínio tecnológico
5.2 As relações intersemióticas
Editora: ANNABLUME, 2010

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